As primeiras informações oficiais de que havia portugueses em “regiões” com forte presença da Al-Qaeda surgiram no Relatório Anual de Segurança Interna de 2014, mas a Polícia Judiciária foi alertada para esse facto logo em 2012 — na sequência do rapto e posterior libertação dos fotojornalistas John Cantlie e Jeoren Oerlemans. O caso motivou uma investigação das autoridades britânicas, que concluíram haver portugueses entre o grupo suspeito. Depois de a Scotland Yard ter avançado com várias detenções, alguns dos portugueses alegadamente pertencentes ao grupo regressaram mesmo a Portugal, onde permaneceram durante 2013 e fizeram várias transferências bancárias de milhares de euros para países africanos e do Médio Oriente.

Esta é uma das informações que consta no livro “Os Combatentes Portugueses no Estado Islâmico”, assinado pelo jornalista da revista Sábado, Nuno Tiago Pinto, e que será esta quinta-feira apresentado na FNAC do Colombo.

“Na época o fenómeno não suscitava grande preocupação. Era visto como uma repetição do que já tinha ocorrido no passado: primeiro no Afeganistão, depois na Bósnia e na Chechénia, por fim, no Iraque”, escreve Nuno Tiago Pinto. “O problema, ainda pouco percetível, é que já então havia grupos a atuar com um segundo objetivo: a instauração de um califado islâmico na região”.

Foi um destes pequenos grupos radicais que, em julho de 2012, “se atravessou no caminho” dos fotojornalistas (um britânico e outro holandês) acabados de atravessar a fronteira turca, rumo a uma zona que desconheciam ter sido tomada por rebeldes. Foram capturados, feitos prisioneiros e vendados após uma tentativa de fuga. Ouviam vozes, que mais tarde descreveram como sendo de homens que eram “jihadistas estrangeiros”. De entre as 30 pessoas que distinguiram, 12 falavam inglês, nove delas com “sotaque londrino”.

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As autoridades do Reino Unido puseram-se em campo e perceberam que havia cidadãos britânicos a juntarem-se à jihad (guerra santa). Passaram a pente fino a lista de passageiros que tinham apanhado o avião de Londres para a Turquia e concluíram que, entre eles, havia vários emigrantes portugueses. Alguns deles, segundo as informações do Reino Unido, tinham regressado à Europa, outros não. Nuno Tiago Pinto diz que há, neste momento, pelo menos 15 portugueses a combater para o Estado Islâmico (EI).

E foi exatamente por esta altura que as autoridades portuguesas foram informadas da existência de cidadãos nacionais nas fileiras do EI e lhes foi pedido que passassem informações adicionais sobre as pessoas em questão. O Polícia Judiciária apurou que eram emigrantes, tinham origens africanas e viviam na linha de Sintra, onde ainda têm familiares. Desde então, o Serviço de Informações e Segurança (SIS) segue as suas famílias discretamente, para não perder de vista os alvos. Concluiu-se, também, que estes homens não se tinham convertido ao Islão em Portugal. Isto mesmo mostra o vídeo que se segue, onde se vê Steve Duarte na Argélia, numa cerimónia durante a qual se converte ao Islão e adota o nome de Aboul Halim ou Abd-Al Halim.

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Em janeiro de 2013, num aeroporto londrino, acaba por ser detido um dos portugueses, quando se preparava para partir para a Síria. Depois de ter havido seis detenções, alguns dos portugueses decidiram regressar a casa, na linha de Sintra. E foi durante esse ano que, apesar de “discretos”, se mantiveram “ativos”. Fizeram, pelo menos, dez transferências de milhares de euros “que tinham os irmãos como destinatários”. O dinheiro seguiu para vários países: Guiné, Somália, Iémen e Turquia. Houve ainda entregas de dinheiro em mãos “a jihadistas que pernoitaram na zona de Lisboa antes de embarcarem para a Síria”.

E só no Relatório Anual de Segurança Interna, relativo a factos ocorridos em 2013, mas publicado em março de 2014, seria revelada oficialmente a existência de portugueses em organizações terroristas. Sem entrar em pormenores.

No livro de Nuno Tiago Pinto, contam-se ainda histórias de vários portugueses que continuam nas fileiras do Estado Islâmico. Estima-se que neste momento sejam 15 os cidadãos com nacionalidade portuguesa que permanecem fiéis à jihad. Já terão sido mais, uma vez que alguns deles já morreram.

Nuno Tiago Pinto

Livro de Nuno Tiago Pinto, jornalista da Sábado

 

Jornalistas do Expresso também têm livro sobre o tema

“Mas o Fábio da Linha de Sintra já não existe. Agora só responde pelo nome de Abdurahman, tem 22 anos que parecem muito mais. E as mãos, antes tão talentosas para desenho, trocaram os lápis pelas armas”.

Em “Os jihadistas portugueses – a História de quem luta no Estado Islâmico”, publicado há dois meses, da autoria dos jornalistas do Expresso, Hugo Franco e Raquel Moleiro, também contam as histórias dos portugueses que partiram para a Síria para se juntarem à jihad. Contam ainda as histórias das famílias que cá deixaram e que assistem, incrédulas, às notícias que vão chegando através da comunicação social.

hugo franco

Livro de Hugo Franco e Raquel Moleirinho

Tanto neste livro como no de Nuno Tiago Pinto existem transcrições de diálogos tidos ao longo de várias semanas entre os jornalistas e estes jihadistas, via redes sociais. A última dezena de páginas do livro de Hugo Franco e Raquel Moleiro tem uma série de pistas que permitem compreender melhor o Estado Islâmico, a sua ideologia, os aliados, como se financiam ou como recrutam. Sabia que, antes de nascer em junho de 2014, o Estado Islâmico já existia, pelo menos desde 1999, com o nome de Jama’at al-Tawid wa-al-jihad?