A época sportinguista não terminará em Vila do Conde, ainda há a final da Taça de Portugal, no Estádio do Jamor, com o Sporting de Braga, mas a verdade é que, onde há fumo há fogo, e as notícias da última semana que dão Marco Silva como estando de saída, são-no, como dizer?, um vulcão, todo lava, todo fumo, e, por isso, Marco poder-se-á mesmo despedir do campeonato como treinador do leões na partida com o Rio Ave.

Não se sabe que treinador o substituirá, se será Fábio Capello, que é selecionador russo – e tem um ordenado proibitivo para a realidade financeira do Sporting –, se Paulo Fonseca, que falhou no Porto, mas está bem posicionado para recolocar o Paços de Ferreira na Liga Europa, se João de Deus, que cedo na época foi despedido no Gil Vicente, mas fez uma temporada em crescendo no Sporting B, ou se… Jorge Jesus, que se encontra em fim de contrato com o Benfica, tem Jorge Mendes a tratar-lhe do futuro, mas não é sabido para onde vai, se para Alvalade, se para Madrid ou Milão, ou se não vai para lado nenhum, e continuará na Luz.

A verdade é que Marco Silva pode, se vencer o Rio Ave, sair – se sair – de cabeça erguida e recorde no bolso. E quem o irá criticar por não ter vencido o título, disputando-o contra orçamentos desiguais de Benfica e de Porto, se igualou, Marco, o melhor registo de pontos neste milénio? Por enquanto, já alcançou o registo de Fernando Santos, atual selecionador nacional, que, em 2003/2004, fez 73 pontos em 34 jornadas. Vencendo no Estádio dos Arcos, perfaz tantos quanto Augusto Inácio, hoje sentado a seu lado no banco como diretor desportivo, e que, em 1999/2000, no ano em que o leão finalmente se saciou depois de um longe jejum de dezoito anos, somou 76.

Rio Ave: Ederson Moraes; Lionn, Prince, André Vilas Boas e Tiago Pinto; Wakaso, Luís Gustavo e Renan Bressan; Marvin Zeegelaar, Diego Lopes e Del Valle.

Sporting: Marcelo Boeck; Miguel Lopes, Tobias Figueiredo, Ewerton e Jonathan Silva; Oriol Rosell, João Mário e André Martins; Nani, Carlos Mané e Islam Slimani.

O Sporting entrou em campo sem ter o que subir na classificação, e com a final da Taça de Portugal na mente de todos, sobretudo de Marco Silva, que deixou de fora os habituais titulares Rui Patrício, Paulo Oliveira, William Carvalho, Adrien Silva e André Carrillo. O Rio Ave, por sua vez, com a goleada sofrida no Estádio dos Barreiros, diante do Marítimo, na última jornada, deixou de poder sonhar com a ida à Liga Europa, e só vai cumprir calendário contra o Sporting.

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Olegário Benquerença (que hoje fez o seu último jogo na carreira) apitou para o começo, esperar-se-ia hora e meia de sensabor, a feijões, mas o encontro foi até bem rasgadinho, com os artistas todos lá, os virtuosos de serviço, os tipos por quem nós pagamos de bom grado o bilhete só para os ver, como Nani, que tantas saudades nos vai deixar, ou Diego Lopes, do Rio Ave, de quem se diz que vai regressar ao Benfica onde fez a formação, e faz lembrar um tal de Anderson Luís de Souza, ou Deco, no modo como galga metros com a bola controlada, no modo como se vê livre dos adversários só com um movimento de corpo.

Logo aos 6′ minutos, com o jogo em transições velozes, ora do Rio Ave ora do Sporting, um ex-leão, Tiago Pinto, remata sem ângulo, da lateral esquerda, um tiraço à Roberto Carlos, mas Marcelo Boeck, que não era titular na Primeira Liga desde abril de 2012, agarrou com segurança. Aos 12′, o craque Diego Lopes, inventa espaço à entrada da área, troca a bola do pé esquerdo para o direito, saí da cabine telefónica, e remata ao poste esquerdo da baliza do Sporting. Oriol Rossel é que ficou por lá, na cabine, quem sabe a ligar a William Carvalho, perguntando-lhe como se marca o miúdo.

Os vila-condenses eram mais perigosos, mas o Sporting não demorou muito a responder. André Martins, que pode ter disputado o seu último encontro pelo Sporting no campeonato, ele que termina contrato em junho e não foi convidado a renovar, picou uma bola à Pirlo por cima dos centrais, e Mané, isolado na área, tenta marcar de primeira, mas a bola sai ao lado. Logo a seguir, aos 22′, Jonathan Silva, que por vezes tem um posicionamento a lembrar Leandro Grimi, mas cruza incomparavelmente melhor que o compatriota que pouca (ou nenhuma) saudade deixou em Alvalade, faz uso do seu melhor recurso, põe a bola em Nani, que, sozinho na área, tem todo o tempo do mundo para receber, rodar e rematar, como ditam as regras, mas Ederson segurou bem o remate.

A partida não tinha períodos de sossego. Aos 27′, de livre, Renan Bressan, um internacional bielorrusso nascido em Santa Catarina, no Brasil, mediu, mediu, e mediu mais um pouco as medidas à baliza de Boeck, mas mediu tanto que acertou na base inferior do poste direito. A ventania no Estádio dos Arcos terá contribuído para o azar de Bressan. Carlos Mané, por quem o Mónaco de Leonardo Jardim terá apresentado uma proposta de 9 milhões de euros, voltou a ter uma oportunidade para marcar aos 30′. Não foi André Martins a isolá-lo na área, mas foi Nani. O desfecho foi idêntico: rematou ao lado.

Com o fim da primeira parte a chegar, a intensidade do jogo mantinha-se. Até ao apito do árbitro, mais duas oportunidades, uma para cada lado. Aos 37′ o venezuelano Del Valle lança-se numa correria pela esquerda, deixa Miguel Lopes para trás, senta Tobias, mas, dentro da área, remata para defesa de Marcelo Boeck. A seguir, com dois minutos para lá do tempo regulamentar, é Nani que centra com precisão para Slimani, e o argelino falha onde não é costume falhar, na área, e como não é costume falhar, de cabeça. Ederson, que é mais um dos vila-condenses formados no Benfica e que deve regressar à Luz no final da temporada, defendeu bem.

Mal o jogo recomeça, e logo Nani faz o golo do Sporting. O centro é Jonathan Silva, da esquerda, tenso e a fugir aos centrais, e o intencional português, com calma, desviou à saída de Ederson. Quem não regressou do intervalo foi a intensidade do primeiro tempo, o cansaço deu de si, e às correrias nem sempre se seguiram as boas decisões.

O destaque no reinício foi mesmo a entrada de Wallyson Mallmann para o lugar de João Mário. É o primeiro jogo do médio brasileiro na Liga, mas quem o viu no Sporting B sabe que, saia Adrien, saia Nani, saia quem sair, a canhota de Wallyson, que até fez parte da sua formação no Manchester City e chegou a Alcochete no primeiro ano de júnior, é sinónimo de passes bem medidos, de remates sem olhar a distâncias, de alta rotação na saída para o ataque, e de contensão na retaguarda quando é tempo de a fazer. Wallyson é o médio de futuro no Sporting.

O outro pé esquerdo mágico é o de Matheus Pereira, ainda com 19 anos, que ora joga no nacional de juniores ora na Segunda Liga, mas que, para o ano, não só vai subir ao primeiro plantel, como, dado o talento quem tem e dada a saída da Nani e provavelmente de Carrillo, até pode ser a surpresa do começo de época. Ficou no banco, não entrou, mas vale ouro – e valeu uma “dor de cabeça” a Bruno de Carvalho que só em dezembro conseguiu renovar-lhe o contrato.

Até final não se viram mais ocasiões de golo em Vila do Conde. Marco Silva tirou João Mário, Nani e Slimani, venceu o jogo, e geriu bem o cansaço dos jogadores para a final com o Braga sem abdicar da vitória. O Sporting terminou o campeonato com somente duas derrotas, o melhor registo das últimas sete temporadas, e algo que não se viu tantas vezes quanto isso em Alvalade nos últimos 20 anos: só por duas vezes o leão teve tão poucas derrotas. O Rio Ave, por sua vez, e num ano em que foi à Liga Europa, e até começou bem o campeonato, nos últimos oito jogos só venceu um, e ficou-se pelo décimo lugar.