Há quem considere a hiperatividade a doença do século XXI, mas também quem renegue as suas consequências nas crianças, apelidando-a de falta de educação. O que muita gente não sabe é que a hiperatividade é uma doença hereditária. Herdada do lado masculino da família, seja do pai, de um tio ou de um avô, e que atinge mais de 80 mil crianças em Portugal.

Foi para dar voz a esta doença que João Gomes de Almeida, diretor criativo da Nylon Agency, se juntou à Associação Portuguesa da Criança Hiperativa, a única no país que se dedica de corpo e alma a esta doença. Para isso, recorreu a “ondas sonoras provocadas pela vibração de taças tibetanas para criar spots de rádio que funcionassem como uma terapia complementar no tratamento da hiperatividade nas crianças”. Ao Observador, João disse que esta ideia passa por “replicar as terapias feitas em spas e centros de tratamento de medicina alternativa, mas na rádio”.

A ideia surgiu porque é costume as agências publicitárias fazerem trabalho pro bono para organizações não governamentais. O diretor criativo da Nylon não queria escolher uma causa “já muito batida pela publicidade” e, ao mesmo tempo, “não queria criar uma simples campanha de angariação de fundos”. Para que o projeto ganhasse vida foram muitas as reuniões com a presidente da associação, Linda Serrão, com técnicos de saúde, psicólogos, especialistas em terapias de som com taças tibetanas (Academia Peter Hess) e com um estúdio de som, o Digital Mix.

Como funciona?

“Foram criados dez spots de rádio de um minuto. Em cada spot uma personalidade, ator ou locutor narra uma história de fantasia escrita propositadamente para crianças e que em conjunto com a vibração das taças tibetanas produz uma frequência sonora capaz de fazer o cérebro das crianças relaxar”, explica João Gomes de Almeida. A este projeto associaram-se Diana Costa e Silva, Pedro Fernandes, Rui Luís Brás, Tó Cruz, José Valdeira, Marco Delgado e Sofia Morais.

O locutor Pedro Ribeiro gostou do projeto e ao longo de uma semana os spots passaram na Rádio Comercial, num horário cuidadosamente escolhido: todos os dias ao nascer e ao pôr-do-sol, “de forma a dar às crianças hiperativas dias mais descansados e noites mais tranquilas”.

Como reagiram as crianças?

Linda Serrão, presidente da Associação Portuguesa da Criança Hiperativa, disse ao Observador que o seu filho de 15 anos, convidado a ouvir uma sessão, descreveu a experiência como sendo de “uma tranquilidade indescritível”. No entanto, a presidente ressalva que a rádio não vem substituir a medicação e que ambas “atuam de maneiras diferentes”. “A medicação atua no cérebro e as taças a um nível mais geral”, diz, defendendo ainda que, devido aos vários tipos e graus de hiperatividade, nem todas as crianças podem reagir da mesma forma à experiência musical. “É necessário que a criança seja avaliada e acompanhada.”

Também ela hiperativa, Linda Serrão acredita que o estudo da doença estagnou e que esta iniciativa vem trazer “coisas novas”, recordando como os americanos fizeram um apelo ao mundo “para que não tratassem as suas crianças hiperativas da mesma forma que eles trataram”, isto é, não as negligenciassem.

Mãe de três filhos hiperativos, a presidente da associação diz que as pessoas precisam de ter a noção de que uma criança hiperativa vai crescer, vai tornar-se num adolescente hiperativo e num adulto hiperativo. “A partir do momento em que fazem 18 anos deixam de ir às consultas e só mais tarde é que percebem que não estão curados e voltam.”

Embora a semana dos spots de rádio já tenha passado, as “massagens de som”, como gosta de lhes chamar Linda Serrão, estão disponíveis no Sound Cloud e no site da Terapia de Rádio, onde qualquer pessoa os pode ouvir ou, se preferir, fazer o download gratuito dos mp3.

Quando teve a ideia, João Gomes de Almeida tinha por objetivo chamar a atenção da sociedade para este tema tantas vezes varrido para baixo do tapete. Juntamente com a sua equipa, fez um filme explicativo do projeto que agora vai concorrer ao Cannes Lions, entre 21 e 27 de junho. Se é uma aposta ganha do diretor criativo só o tempo o dirá, tanto no maior festival de publicidade do mundo como na melhoria da qualidade de vida das crianças portadoras desta doença.