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"Ilve Estoril" na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite França, a Raquel Cassis e o Nuno Gonçalo Poças. Eu sou o Ricardo Conceição e hoje vamos falar sobre o Bloco Central e a sugestão de Carlos César e Marco António Costa, que acham que o governo deve governar com o PS e não com o Chega. E ainda as reações dos presidentes da Câmara Municipal do Porto e de Lisboa às acampadas. E por fim, fica prometido uma conversa sobre os carros elétricos, a propósito do anúncio do governo de comparticipar a compra às famílias mais desfavorecidas. Mas vamos começar pelo regresso da ideia de um Bloco Central, a entrevista de Marco António Costa no jornal Expresso e Carlos César também falou nisso numa sessão que acabou por ser noticiada. Nuno Gonçalo Poças, é uma ideia que te agrada, o regresso de um governo PS/PSD?
Não.
Obrigado. Raquel Cassis?
Próximo.
Justifica.
Foi por sacanagem.
Estava desconfiado, por isso é que te perguntei.
Se fosse assim também perguntas fáceis, essas também eu sei. Há umas semanas, há um mês, mês e qualquer coisa, eu lembro que estávamos aqui a falar sobre isso e eu disse: "Há aqui qualquer coisa no ar."
Estavas a sentir o odor a Bloco Central.
A gente abre as páginas do Expresso e de repente há cinco ou seis páginas onde se fala de Bloco Central e houve um abaixo-assinado e mais não sei o quê. E depois, de repente, vai-se ouvindo começar a falar destas coisas cada vez mais e depois, de repente, até aparecem umas pessoas um bocado inesperadas a falar sobre isso.
Marco António?
Sim. O registo é um bocadinho diferente. Ou seja, o resultado é o mesmo, mas partem os dois de caminhos diversos. Marco António Costa vem dizer que o governo deve optar por um parceiro preferencial e esta coisa de andar a aprovar orçamentos para um lado e leis das rendas para o outro, parece uma coisa muito sustentável, e eu concordo com ele. Mas depois diz que o PSD, a escolher um dos dois, devia escolher o PS. E Carlos César parte de outra premissa, que eu acho sempre mais interessante, que é estabelecer mínimos para a malta saber com que linhas é que se pode coser.
É um cenário, parte um cenário.
Parte de dois, que é primeiro se o PS ganhar eleições e não tiver maioria, espera-se reciprocidade do PSD. Se por acaso for o Chega, então aí temos que fazer um Bloco Central. Isto é fascinante, porque ainda somos todos do tempo em que o PS já não precisava do PSD para nada. Nunca mais o PS precisará de direita para governar.
"O dia que eu precisar do PSD, demito-me." Marco António Costa.
Exatamente, mas já se demitiu.
Já lá não está.
Já lá vai.
E o tempo já passou.
A memória é sempre curta, os contextos mudam, essas coisas todas. Mas isto leva-me a outro ponto, que é: também se fala, já desde a candidatura do Almirante Coimbra à Presidência da República, e agora com alguns dos seus apoiantes que vão surgindo. Falando sobre isto, Isaltino Morais veio falar sobre a possibilidade de haver um partido ao centro, que ajude a equilibrar o sistema para a esquerda e para a direita, etc.
Que ele não quer liderar.
Isto está a ficar um bocado confuso, devo dizer.
Estou a sentir-te com pouca confiança na humanidade.
Sim, mas não é de hoje.
Não, mas há a gravação.
Mas não é de hoje. Mas isto está a ficar um bocado confuso e mexe um bocadinho com o meu sentido de voto. Eu tenho mais ou menos isto decidido há uma série de tempo. Eu não voto em partidos enquanto as coisas não forem muito claras. Vou continuar a votar no Vítor Paneira ou qualquer coisa assim. Parece que está toda a gente a falar de coisas diferentes e de cenários diferentes, de partidos novos, ao centro, mas ao mesmo tempo o PS pode, com o PSD, transformar-se ele próprio nesse modelo mais central. Ao mesmo tempo, o PSD está ele próprio a agir como o partido do centro, que no fundo dá para a esquerda e para a direita e, portanto, aquilo de que o Isaltino Morais fala, na verdade, já existe, porque o governo dá para um lado e dá para o outro. A única nuance é que de facto está a governar e não está na oposição a dar a mão à esquerda ou à direita. As coisas estão bastante confusas e os próximos anos provavelmente serão de clarificação, mas eu acho mais ou menos inevitável que venha a acontecer, não sei bem por onde, mas uma clarificação disto tudo. Porque estas coisas, mais cedo ou mais tarde, as clarificações tornam-se inevitáveis, elas acontecem. Eu digo isto até há muitos anos e na altura eu lembro de ter esta conversa com imensa gente, toda a gente dizia que eu era meio doido. Mas eu começo a sentir um bocado de falta e acho que esse buraco existe. Que se a AD neste momento é o partido central Do regime e está, na verdade, ali à disputa com o PS pra ver quem é o partido charneira. Mas eu acho que, em bom rigor, o PS já assumiu que é o partido liderante à esquerda. O PSD desistiu de ser o partido liderante à direita e, portanto, aparece aqui uma coisa nova no meio. E eu começo a sentir um vazio entre este partido central e o Chega, que é ali onde eu estou.
Estás a precisar de um novo partido, então?
Não queres avançar?
Não. Causa-me imensos problemas e eu não estou com saúde pra isso.
Mas terias algum nome para esse partido ou não? Já pensaste nisso?
Também não. Nunca pensei nisso. Se calhar há uns anos pensei, mas não sempre foi. Mas sinto falta disso.
Vamos ouvir a Raquel também sobre o bloco central.
Eu tenho me lembrado muito daquela frase do Pedro Nuno Santos, do "Até lhe estremem as pernas", porque se for possível, sou capaz de ser um bocadinho mais pessimista do que o Nuno. E acho que nós vivemos, seguramente desde as últimas eleições, mas talvez desde as penúltimas eleições, num ambiente em que nenhum partido político dos que já existiam, e que têm governado o país nos últimos 50 anos, tem feito alguma coisa por se afirmar, por se reinventar, por ser propositivo e passar a funcionar na base do medo. O governo governa com base no medo, e por isso, não quero aqui ofender ninguém, mas dá para os dois lados, que não é nunca uma coisa muito estimulante, nem muito precisa no sentido de haver alguma coerência política. Estou aqui a falar de política.
Eu é só do que ouvo, na verdade. Não sei muito sobre isso.
E o Partido Socialista também, em vez até de cavalgar a onda das sondagens, que lhe são favoráveis, tudo isso, continua a funcionar na base do cálculo do dia seguinte. E à medida que isso tudo vai acontecendo, obviamente, há um partido, que é o único que não tem medo, neste momento, que vai capitalizando. E portanto, eu acho que estes discursos sobre os cenários pós-eleitorais, os blocos centrais, tudo isso. Eu devo dizer que nunca compreendi muito bem, nas últimas décadas, o horror ao bloco central, que se ouvia sempre que se falava disso, quer no PSD, quer no Partido Socialista. Mas agora que eles já não têm horror, tenho eu, porque este eu acho que é o momento em que falar de bloco central é assim: "Chega, toma lá os nossos votos."
Ou seja, a ideia é em vez de formar uma alternativa.
Depois de André Ventura ter feito toda uma narrativa, toda uma construção que faz diariamente com base na retórica de que eles são todos o mesmo, são todos iguais, defendem-se uns aos outros, tudo o que está mal é por causa deles, é que as figuras destes dois partidos, que graças a Deus ainda não são figuras com responsabilidade nas direções dos partidos, mas são figuras influentes e que estão à volta, embora Carlos César é o presidente do Partido Socialista, que não tem as mesmas funções que tem o presidente do PSD, é um lugar mais de representação do que propriamente executivo, mas já tem alguma responsabilidade. Começarem a falar de bloco central é o último tiro no pé que podem dar. E, portanto, acho que se de fato querem oferecer o país a André Ventura, estão no caminho certo.
É que deviam estar a afirmar alguma alternativa e a mostrar.
Mas esse ponto é importante, porque isto já é uma coisa de há oito ou nove anos. O PS e o PSD deixaram de querer ser a alternativa um ao outro. E sobretudo desde que o Chega depois começou a aumentar resultados e agora que a coisa está mais ou menos despedida, começaram a funcionar um bocadinho como se vivia até 1976, 1977, em que no fundo, o regime vivia com o centro gravitacional político, funcionava por oposição a um partido, na altura era o PCP. E agora é relativamente ao Chega. Não sei se eventualmente estão a achar que vai mais ou menos acontecer a mesma coisa. O que é fato é que as coisas tiveram que romper e na altura, Sá Carneiro rompeu, Soares também rompeu e perceberam que levar o país, ou seja, levar esse centro gravitacional para o PS e o PSD, em que os dois, liderando cada um um bloco à esquerda e um bloco à direita, servindo de força quase federadora e agregadora e moderadora do regime, trouxeram bastante equilíbrio a isto. Nós agora não estamos nessas condições. Eu acho que ninguém está a perceber mais ou menos o que a coisa está a acontecer. Só antes de passar à Judite, só deixar aqui uma nota.
Diga.
Eu também não me agrada a ideia. Eu preferia que os dois partidos se mantivessem mais ou menos como têm funcionado nos últimos 50 anos. Mas atendendo aos protagonistas, àquilo que se vai montando e ao caldo comunicacional, como agora se diz, e comentarista relativamente a isto, eu acho que isto é mais ou menos inevitável.
Por que é que é inevitável o bloco central?
Sim, portanto, se o bloco central será necessário para a implosão final do sistema como nós o conhecemos e para o surgimento de coisas novas, então eu estou dentro.
Incendiário.
Exato.
És otimista em achar que há protagonistas pra fase seguinte.
Isso vai haver sempre.
Pois olha, eu acho que eles não são capazes de se entender numa matéria de urgência nacional, como é o caso da habitação
Estarem a falar de entenderem-se num bloco central é mesmo uma questão de autopreservação, de sobrevivência apenas.
Eles chegam logo a ter nenhum.
Soa muito mal.
Batem nos manifestantes e congelam rendas.
Soa um pouquinho a desespero.
Soa completamente a desespero. Eu percebo que as sondagens estão a dar esta indicação em relação ao Chega. Eu percebo as declarações de Carlos César, que não são diferentes daquelas que já tinha feito Augusto Santos Silva e Ferro Rodrigues. É a mesma linha. É a mesma linha e é a mesma gente. Pensam todos da mesma forma, mas só para impedir o Chega de chegar ao poder. Só assim é que são capazes de se unir.
Essa é a maior vitamina que se pode dar ao Chega.
Pois é, mas também aparentemente é a maior vitamina que se pode dar ao interesse do bloco central. Resolver alguma coisa no país, isso não. Ou seja, aquilo que o presidente da República tem pedido, que é entendam-se pelo menos na questão da lei das rendas, está a falar obviamente para o PS e para o PSD, não está a falar para o PCP, que aliás se pôs logo à margem e tem alguma razão. Mas sobre isso, não. O PS não aceita mexer na lei do novo arrendamento urbano, não põe sequer a hipótese de discutir a lei na especialidade, rejeita liminarmente, ou seja, ou é para fazer uma nova ou nós não aceitamos. Mas depois são capazes de se unir num bloco central? Acho que isto, de facto, é dizer aos eleitores que não vale a pena acreditar nisto. Não há um pingo de consciência pesada no PS, que durante quase nove anos fez o que fez em matéria de habitação. Nem isso dá um pouquinho de consciência pesada para dizer: "Ok, vamos encontrar um chão comum para discutir alguma coisa." Eu acho que a teoria do Marco António Costa é diferente. O que ele diz é que, de facto, é um desgaste andar a governar a esquerda e a direita. E tem razão. É, de facto, um desgaste para o governo. Era melhor ter um parceiro preferencial. E eu percebo que o Chega não possa ser um parceiro preferencial, porque não é um parceiro confiável.
E não é, não.
Sim, também isso, mas também não é confiável. Não sabes o que ele vai pensar.
Isto é como os casamentos, mais vale discutir só com uma.
Até me babei agora.
Exatamente.
Mas só com uma, como?
Não sei porque é que há pessoas que se metem nisso de arranjar mais gente com quem discutir.
Não, é pensar. Bolas. Até porque atualmente... esta é outra teoria.
Ainda não é misturar. Já andou lá na borda.
Tenho que avisar os ouvintes que hoje fui anestesiado, portanto, tenho que me conter.
Não devia dar a condiz máquinas.
Era. Aliás, sim.
De inteligência artificial. Pelo menos eu falo por mim.
Eu acho que, de facto, só em caso de emergência é que os dois partidos são capazes de se entender e acho que isso é um péssimo sinal que se dá ao eleitorado.
Então vamos a notas.
Eu vou dar ao Carlos César um sete.
Raquel.
Eu vou dar ao bloco central da modernidade um dois.
O bloco central da modernidade é muito bom.
Um 20 ao bloco central.
Um 20 ao bloco central. Que venha.
É o que quiserem.
E vamos, Raquel, começar esta segunda parte pela tua apreciação às reações dos autarcas, do edil de Lisboa e do Porto, às manifestações.
É porque eu acho que os presidentes de câmara têm uma responsabilidade especial e muito importante na questão da habitação, sobretudo os presidentes de câmara das duas maiores cidades do país onde este problema não é grave, é gravíssimo. E eu tenho-os ouvido falar nos últimos 15 dias de polícia, de grafites, de tudo o que não interessa, porque para isso existe o governo, existe a polícia para fazerem essa discussão e aproveitarem pouca oportunidade para refletirem na questão da habitação, para até darem mostras de que estão a tentar fazer alguma coisa, para além de virem dizer que as manifestações são justas, mas isso já todos sabemos, não é para isso que nós queremos presidentes de câmara. Para fazerem uma cimeira Porto-Lisboa sobre este assunto, coisa que já fizeram sobre segurança e sobre tantos outros temas. E isto parece-me uma ausência de iniciativa, de ideias, de propostas, que torna esta questão ainda muito mais grave, porque no fim do dia passa por eles algum tipo de solução para este problema, algum apontar de caminhos, alguma ideia original, algum apressar de decisões que não têm que ficar à espera do que se passa no Parlamento e dos decretos leis do governo. Vou só dar alguns exemplos. Lisboa, que eu conheço bem, mas o Porto, que não conheço tão bem, têm inúmero patrimônio fechado, a cair pela cidade inteira. Por que não começam por aí? Por que não se propõem reabilitar esse patrimônio para fazer rendas acessíveis? As câmaras municipais têm direito de preferência sempre que se vendem imóveis importantes nas cidades. Por que não usam isso? E eu já não vou falar da questão da construção, embora também ache extraordinário como é que nenhum destes dois presidentes de câmara fala em áreas possíveis de construção, em prazos para se começar a construir alguma coisa, etc. Mas já não indo por aí Não se consegue perceber. Quer a Câmara do Porto, quer a Câmara de Lisboa têm orçamentos de milhões. Não são orçamentos pequenos e se formos ver linha a linha, sobretudo aqui no caso de Lisboa, onde é que esses milhões são gastos, conseguíamos perceber, qualquer um de nós, que não é presidente da Câmara, facilmente, como é que se poderia reafectar despesa para pelo menos tentar resolver isto. Se o património municipal da cidade de Lisboa tivesse aqui um grande programa de reabilitação, havia muitas centenas de casas com rendas acessíveis em Lisboa muito rapidamente. E a ausência de discurso sobre estes temas, o reunirem-se com os presidentes de câmara das áreas metropolitanas, porque isto é um problema também de áreas metropolitanas e há muita iniciativa que se pode ter em conjunto.
Achas que estão mais preocupados com a próxima eleição?
Acho que isto mostra que hoje em dia concorrer às Câmaras é um degrau de uma carreira política. Ser presidente de câmara exige um tipo de qualidades e qualificações que não estou a ver em nenhum dos dois principais presidentes da Câmara do país. Surpreende-me até mais Pedro Duarte, que está novo no lugar, que parecia ter muitas ideias quando chegou à Câmara e não percebo como é que em 15 dias só os ouvimos falar de polícia e de grafites.
Nuno.
Sim, eu subscrevo, mas nos últimos meses, anos, vai-se assistindo a alguma retórica, alguma campanha permanente que vai sendo feita com mais umas chaves que foram entregues a três ou quatro famílias e mais uma casa aqui, mais uma casa ali. Vai-se fazendo algum número com isso, mas a verdade é que não tem havido grande vontade para resolver o problema. E aquilo que se fez nos últimos anos, salvo algumas questões um bocadinho mais pontuais, na verdade, durante os governos da geringonça, agravaram o problema. E com este governo também, talvez porque tem muitas dificuldades de fazer aprovar coisas. Houve alguns aspetos relativos que melhoraram o panorama, mas talvez não com a velocidade e com a substância desejável. Mas há um problema que fica aqui em cima disto, que eu acho que é transversal e todos os partidos estão de acordo com ele, que é: o Estado e as autarquias têm um património imobiliário gigante que não está a ser utilizado.
Mas isto há anos que acontece.
Exatamente. E se contabilizarmos a receita de IMT e IMI das Câmaras Municipais dos últimos anos, sobretudo nas zonas onde há mais pressão, onde as casas se tornaram mais caras, etc., isso torna-se ainda mais incompreensível, porque de facto é uma receita monumental, é colossal, como nunca as Câmaras tinham tido. Eu sei que isto pode parecer um bocadinho o gajo de Alfama ou conversa de taxista, mas às tantas eu acho que é legítimo que toda a gente pergunte: então para onde é que foi o dinheiro?
Queres dar uma nota, Raquel?
Quero.
Ainda quero ir aos carros elétricos.
Sim. Eu hoje estou mázinha, mas também vou dar um dois, para não dar um zero a estes dois presidentes de câmara que mostram total falta de iniciativa.
Deixa-me só dizer uma coisa sobre isto, porque uma das coisas que estava preparadas no Orçamento do Estado de 2025 era o IHRU passar imóveis para as Câmaras. Porque a ideia é que as Câmaras conhecem melhor os seus bairros, os seus inquilinos, a sua cidade, portanto, fazia algum sentido. E havia já preparado passar alguns milhares de casas para as Câmaras, na altura. Depois andei à procura e não encontrei informação sobre isto. Não sei se acabou por se verificar essa transferência ou não, mas a verdade é que as Câmaras com maior capacidade financeira, e estamos a falar de Lisboa e do Porto, conseguiam perfeitamente gerir um parque habitacional. Era fácil com aquilo que têm de orçamento.
E funcionários.
E funcionários. Sim, porque uma das coisas que se diz é que o IHRU está depauperado de funcionários.
Vou deixar aqui uma sugestão polêmica no ar.
Tenho que arranjar trilhas sonoras para isso.
Se for criado um mecanismo de visto gold para, a fundo perdido, a troco do investimento de € 500 mil, fazerem o investimento no imóvel do Estado e colocar aquilo a arrendamento acessível, em cinco anos temos o problema resolvido.
Mas com vistos gold?
Sim.
Correcto.
Os vistos gold para a cultura puseram 18 milhões de euros no Museu do Caramulo. A troco de quê?
Era 250 mil, não é?
Da cultura, no mínimo, é 250 mil.
Ok, muito bem.
Fica aqui uma sugestão.
Fica a dica.
Vamos tomar nota. Judite.
Vamos aos carros elétricos.
Há apoio para os carros elétricos.
É, o Estado vai pagar até 80% de um carro elétrico.
Isso é espetacular.
A 20 mil famílias carenciadas.
Quais são?
Não tiverem casa, podem dormir no carro elétrico.
Tiraste-me . Eu queria dizer que resolvia o problema das tendas, era tudo a dormir nos carros.
Qual é o grau da carência?
Não sabemos ainda.
Mas aquilo pode dar polêmica.
Mas quem abater um carro a combustão ganha mais € 1000 de teto E depois ainda há € 1.000 para posto-
Não falemos de ter carros.
Estamos a falar em testes.
E depois ainda há mais € 1.000 para postos de carregamento.
80% para o carro.
80% para o carro. Mais € 1.000 para o abate de um carro a combustão.
De um carro velho.
De um carro velho, sim.
10 anos, 15 anos?
Não diz.
Não sabemos.
Não temos as condições todas. Um carro a combustão e € 1.000 para um posto de carregamento. E eu pergunto-me, eu acho que nada disto faz sentido. Podia-se estar a falar aqui no fundo ambiental para o conforto térmico das casas, que era uma coisa que de facto as pessoas precisam e muito, mas não, vamos comprar carros elétricos.
Já estamos a discutir como construir casas rápido, bem e baratas, borrifando na parte térmica e na parte acústica. Só para acelerar.
Há uns anos, isto foi-me recordado por um amigo, os democratas nos Estados Unidos fizeram uma coisa parecida. Na altura era para financiar a Tesla com o dinheiro dos contribuintes.
Correu-lhes bem.
Correu-lhes muito bem, não foi? O Elon Musk agradeceu imenso e seguiu caminho.
Mas quem é que tem direito a esse apoio de 80%?
Não está definido o que é uma família carenciada. Não está ainda definido.
Portanto, ainda podemos concorrer.
Primeiro, não está definido o que é uma família, o que é carenciado, o que é velho, para efeitos do carro.
Mas sabemos que-
Mas foi notícia.
Mas foi notícia, foi anunciado pela ministra.
Foi comunicado, exato.
Se calhar ela já sabe, só que ainda não divulgou.
Pois.
Esperamos.
É que dá para fazer algumas contas. Há carros no mercado que ficam a três mil e tal euros.
Não, mas são carros novos.
Sim, claro.
São carros novos, portanto, no máximo os carros podiam custar 20 mil.
Eu estava-te a fazer estas perguntas todas, mas eu sei as respostas. Era só para efeitos dramáticos, porque causa-me espécie nada disso estar definido.
Não, não está. Mas nós temos um problema de transportes, temos um problema de conforto térmico das casas e a ideia é dizer a uma família carenciada que tem que ter o remanescente, tem que ter os 20% para lá pôr. 80% é o máximo, mas é preciso lá pôr os 20%. Tem 20% para pôr num carro, que aliás, segundo estive a ver, só há dois ou três modelos que cabem neste valor.
Há alguns modelos.
Acho que são dois ou três, são todos chineses.
Não, há vários.
Diga que não.
Há o Renault Twingo.
Acho que está acima de 30 mil.
Há vários carros.
É abaixo de 30 mil? É que eles só podem custar 20 mil.
Eu sei.
Pronto.
O homem é um estudioso.
Ele é um estudioso de carros elétricos.
Eu sou um perito em carros velhos.
Enfim, acho que isto não faz sentido. Então os € 1.000 para o posto de carregamento, as pessoas moram em moradias ou em casas com garagem, com sítio para pôr o seu próprio posto de carregamento.
Tudo depende do que é que entendes por família carenciada, é porque está a faltar-te um pormenor, é que o governo admite que pode ser uma família carenciada do ponto de vista energético.
Olha, eu estou a sentir-me assim. Estou com a energia tão em baixo. Estou com a energia tão em baixo que se calhar me vou candidatar a isso. Estou a precisar de uma pilha.
Então queres dar notas?
Eu vou dar um-
Ainda temos tempo.
Eu vou dar um cinco a isto, porque esta história de comparticipar carros é uma coisa que eu não consigo entender. Com tantas necessidades, o que é que uma família carenciada faria se tivesse este dinheiro? O que é que faria? Compraria um carro elétrico? Provavelmente não é a prioridade. Tem outras prioridades.
Depende também do sítio onde viva, porque infelizmente na maior parte deste país, as famílias carenciadas não têm um carrinho para se deslocar. Por velho que seja, não conseguem ir a lado nenhum.
Sim, é verdade, porque não têm os transportes nas cidades.
Agora, quais são as prioridades? Eu acho que esse é que é o ponto. Até por causa do problema que falámos anteriormente da habitação, devíamos ter uma prioridade absoluta ao transporte eficaz e rápido, para que as pessoas possam ter opções de habitação que não sejam no centro das cidades.
Se houver um apagão outra vez, os carros elétricos dão para ligar só o rádio.
Se tiverem bateria.
Mas se já não houver, já não há nada para ninguém.
Nuno, vou-te dizer uma coisa. Sabes que a indústria da telefonia, da radiologia, a indústria está muito preocupada e há até organização já internacional nesse sentido para sensibilizar os senhores construtores dos carros para continuarem a fazer rádios, porque há muito carro por esse mundo que já não tem telefonia. Já pensaste nisso?
É sério?
Pois é.
Ligas o telefone e aquelas coisas.
Ligas o telefone e ouves cenas. Ou ouves no próprio carro, que tem ligação à internet e não tem rádio. E há um braço de ferro entre as rádios e os construtores de automóveis.
Temo que o lobby seja maior do lado dos carros.
É. E um grande abraço às rádios do mundo inteiro. Rádio de todo o mundo unidas.
Exatamente. Mas olha, deixa-me só dizer aqui mais uma coisa sobre isso. Eu fico com muita expectativa para saber qual é que será o nível da carência.
Pois, é isso que eu gostava de saber.
Porque depois quero confrontá-lo com os escalões de IRS.
Sim.
Porque se o nível de carência chegar àquele ponto em que a Autoridade Tributária nos trata como ricos.
Eu acredito que sejam famílias que não pagam IRS.
Se não pagam IRS, também não pagam carros. Parece um bocado lógico isto. Era o que tu estavas a dizer. 80%, então dá lá os 20 agora.
Há pouco inspiraste-me, vou também atirar uma medida polémica. Imagina que se acabava com o imposto automóvel.
Só isso. Com o imposto de selo.
Não, mas imagina que acabava o imposto automóvel. Os carros pagam imposto automóvel, pagam IVA.
ISP.
Portanto, tu és favorável à discriminação de carros por esse país fora.
Não, como sabes, eu conduzo uma viatura híbrida de tração animal. Eu ando de bicicleta elétrica.
São os estímulos todos ao contrário.
Bom, temos que ir embora. Amanhã há mais "E o Vencedor É...".