Existem alturas na vida em que nos sentimos verdadeiramente afortunados com as pequenas grandes coisas da vida. Aqueles momentos em que sentimos de facto que o dinheiro não compra tudo. Quando a minha segunda casa, a casa do Rubber Chicken, me nomeou como pessoa responsável para entrevistar Will Byles, developer da Supermassive Games, que esteve em Portugal no passado dia 21 de agosto para apresentar o último título desta produtora — batizado de Until Dawn (Até de Madrugada) e um exclusivo para a PlayStation 4 — senti-me como uma criança na véspera de Natal à espera de abrir os seus presentes. Until Dawn é o primeiro grande lançamento original da Supermassive Games – um lançamento arriscado, já que o género onde se insere (chamado de “Survival Horror”) está, desde há uns anos, moribundo no universo das consolas.

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Para quem costuma ler o que escrevo, não é surpresa nenhuma aquilo que vou dizer. Adoro sentir! Sou uma Emotivo-Adicta. Talvez tenha sido esta adição nas emoções que tenha determinado a minha escolha profissional pela psicologia. A emoção que mais me fascina? O medo!

Uma pequena nota antes de continuar:

Este artigo não pretende ser um estudo de psicologia ou uma explicação mental para o que quer que seja. Como tudo o que eu escrevo, pretende apenas ser uma forma de me expressar e de partilhar com quem “me” lê, a minha visão sobre (mais) uma parte do que me apaixona nos videojogos. E pronto…depois de mais uma introdução, vamos a isto, já que fui para esta entrevista a querer escrutinar cada detalhe de um jogo que se insere na categoria em que me sinto “Rainha”. “Survival Horror” é a minha especialidade, e o medo (especialmente em videojogos) – a minha “droga”.

A Raiz do Medo

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Quando nascemos, o cérebro humano vem já com a capacidade de sentir/expressar apenas quatro emoções básicas, aquelas que são fundamentais para garantir uma comunicação essencial com o progenitor que possa levar o bebé a sobreviver e a tornar-se um adulto competente. Tristeza, Alegria, Raiva (Repulsa) e Medo – as quatro emoções que o nosso cérebro, ao longo de milénios de evolução, que nos trouxeram dos nossos antepassados primatas até agora, considerou como essenciais para a nossa sobrevivência.

De todas elas, a mais determinante para a sobrevivência e evolução, tanto física como psíquica, é sem dúvida, o medo. Sem medo, não teríamos a noção de perigo. Não conseguiríamos detectar sinais ameaçadores no ambiente externo que pudessem ser potenciais ameaças à nossa segurança. Sem medo, não teríamos a capacidade de conhecer os nossos limites de forma a querer suplantá-los. Sem medo, não teríamos auto-preservação, não saberíamos defender nem o nosso corpo nem a nossa mente, e isso seria desastroso. Em suma: sem medo, não sobreviveríamos.

O nosso cérebro processa qualquer estímulo que soe como potencialmente ameaçador de duas formas: lança um estímulo de curto processamento para o hipotálamo: a parte do cérebro responsável pelas reacções mais primárias, e para o hipocampo: a parte do cérebro que processa a informação externa de forma mais construtiva e racional. A primeira é mais rápida a processar a informação, já que é a responsável por mobilizar os músculos, acelerar o ritmo cardíaco e preparar o corpo para a decisão final: fugir ou lutar. O segundo lado descrito, é mais racional – desconstrói a informação que recebemos. Diz-nos: “calma, pode não ser o que parece”.

O racional no meio do medo

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Pondo isto num contexto prático: Estamos sozinhos em casa e ouvimos uma porta a bater. O hipotálamo diz: “é um ladrão, estou em perigo. Luta ou foge já!” o hipocampo, essa parte que age como o nosso conselheiro de serviço, analisa em microsegundos toda a informação e diz: “Repara como está vento lá fora. Provavelmente, o que ouviste é uma porta a bater por causa do vento e mais nada. Analisa os restantes estímulos e mantém-te calmo”. E tudo isto, estes diálogos traduzidos em estímulos nervosos pelos neurónios, são processados em espaços temporais tão pequenos, que não temos a mínima percepção deles. Estão na base das nossas decisões vitais, aquelas que uma vez feitas, não há como voltar atrás.

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E destas decisões vitais, o Efeito Borboleta, tudo o que nos apercebemos são as respostas do nosso corpo a estes diálogos. Às manifestações das palavras na nossa pele e músculos. Os arrepios que sentimos resultantes da contracção dos músculos, o ritmo cardíaco acelerado para aumentar o fluxo sanguíneo e proteger os orgãos vitais, o frio na barriga provocado pela descarga de adrenalina e endorfinas. E poque é que a seguir a um susto grande, quando entendemos que não existe efectivamente perigo, sorrimos? Porque o corpo liberta hormonas para acalmar os músculos que nos dão uma sensação semelhante ao orgasmo.

Não, não estou a mentir. O estímulo enviado pelo cérebro numa sensação de medo, é comparável ao estímulo sexual do orgasmo. Parece ridículo, mas se pensarem bem, não é. Medo e sexo são dois vértices essenciais na esfera imortal da sobrevivência das espécies. Sem medo, não fugimos de perigos. Sem sexo, não nos reproduzimos. Tudo o resto, é um adorno maravilhoso, mas ainda assim, um adorno.

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Until Dawn – Supermassive Games/SCEE

Como viciada em “sentir” e uma estudiosa das emoções, sempre me intrigou esta grande armadilha que o cérebro nos pregou desde que nos transportou dos répteis para uma espécie de sangue quente. Como é que algo que, à primeira vista, é negativo, nos pode causar tanto prazer?

Sempre adorei filmes de terror. Aos 7 anos vi: “A Noite dos Mortos Vivos” de George A. Romero, uma obra-prima do cinema de terror a preto e branco, e a partir daí fiquei presa ao que nos assusta. Ao que mete medo a alguém, mas é completamente inócuo noutra pessoa. Ao que os nossos medos dizem de nós – e os medos falam mais que qualquer boca. À medida que fui crescendo, fui criando a minha tradição de ver filmes de terror sozinha em casa – luzes apagadas, uma garrafa de Coca-Cola… explorava cada um, mesmo aqueles muito maus, na tentativa de entender melhor o que funciona num filme, mas não no outro. Salvo raríssimas excepções, foram pouquíssimos os filmes que me levaram sequer a aumentar o ritmo cardíaco com o medo, quanto mais levar a acender as luzes. Tudo se tornou demasiado previsível, mal escrito, mal actuado, mal filmado. Os filmes de terror (volto a dizer, salvo raras excepções), tornaram-se uma chacota de si mesmos.

Transportar esse fascínio pelo terror e medo, para o mundo da parte da Alexa que é gamer, foi um passo mais que natural – foi um passo inevitável.

Tal como era tradição, a Alexa apagou as luzes e ali se lançou pronta para mais uma aventura que sempre considerou ser previsível. Mas é aqui que os videojogos mostram porque são para mim, a forma número 1 de arte. Ao contrário do cinema, deparei-me com uma sensação que desconhecia. Eu não era espectadora, como num filme de terror. Eu era a protagonista. O meu cérebro não estava a observar – o meu cérebro estava a interagir. Eu não estava a ver uma história escrita por alguém, representada por outro alguém, eu estava a ver uma história escrita por alguém e representada por mim. Não era o meu corpo, mas as acções eram minhas. Não era a minha mão que empunhava a arma, mas era eu que disparava. O meu cérebro tomava as decisões que ditavam se a personagem que momentaneamente era eu, vivia ou morria. Quanto mais imersivo o cenário, mais o meu cérebro acreditava. E dei por mim a sentir todos os estímulos que o hipocampo e o hipotálamo, no seu diálogo eterno, me davam. O frio na barriga, o acelerar do coração, os músculos que se contraíam, a respiração que aumentava. No final, quando matava o monstro que me perseguia, era imergida a sensação de Poder: a adrenalina / endorfina a ser disparada, o cérebro a emitir ondas que imitam prazer.

Videojogos: uma distinta dimensão do medo

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Jogar videojogos produz emoções que nenhuma outra forma de arte consegue reproduzir. Talvez por isso sejam o mote de tantos comentários ignorantes e desinformados de colegas da minha área. Sim, são mais reais e “perigosos” para o cérebro que os filmes.

Mas o que os “Psis” não falam, porque provavelmente nunca experimentaram, é da sensação de realização e de consumação, que sentimos quando vencemos algo que nos assusta num videojogo. No bem que isso faz ao nosso cérebro, química e emocionalmente. No bom que é, para a nossa personalidade e auto-estima, conseguirmos combater algo que nos aterroriza. Como isso nos molda e no que transportamos para o mundo real, como forma de sabermos que somos capazes de ultrapassar os nossos obstáculos.

Esperemos, um dia, que o medo de experimentar desapareça, e que os que carregam preconceitos, aqueles que a todo o momento procuram apontar o dedo ao que não conhecem, se aventurem a experimentar. E talvez, a disfrutar de tudo o que sentem, “Até de Madrugada”.

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Alexa Ramires, Rubber Chicken