Assim como a diabetes ou a hipertensão arterial, a obesidade também é uma doença — tal como ninguém escolhe ser diabético, também ninguém escolhe ser obeso. Excesso de peso não é, por isso, causado exclusivamente por comer descontroladamente e pode ser provocado por doenças hormonais ou hipertiroidismo, por exemplo.

Apesar disso, diversos estudos mostram que a população em geral continua a ter comportamentos hostis para com as pessoas obesas. O preconceito para com essas pessoas passa pela ideia de que estas têm o peso que têm por sua culpa e que, por isso, não merecem a simpatia de ninguém até decidirem mudar.

Para o presidente da The Obesity Society, Nikhil V. Dhurandhar, “as pessoas pensam que a obesidade é um comportamento e isso está errado”, na verdade “é uma doença séria e complexa”. E acrescenta: “A ideia de que as pessoas obesas têm culpa de o serem não é justa nem ajuda ninguém.

O que influencia o peso?

A obesidade é uma epidemia em crescimento no mundo todo. De acordo com especialistas em perda de peso, os genes determinam 40 a 70 por cento do índice de massa corporal. E é aqui que a questão se adensa: se os genes humanos não sofreram assim tantas alterações no último século, o que explica o súbito alargamento das cinturas?

A professora de endocrinologia e de medicina metabólica e molecular na Northwestern Feinberg School of Medicine, Lisa Neff, disse à Fusion que “o que mudou nos últimos 40 anos foi o ambiente”. Ou seja, a introdução de estilos de vida sedentários e um aumento de consumo de comidas baratas, rápidas e processadas, que criam as condições perfeitas para a ocorrência da obesidade. Ou seja, e segundo Neff, “os nossos genes carregam a arma e o ambiente puxa o gatilho”.

Basicamente, os nossos corpos ainda funcionam da mesma forma que funcionavam quando estavam preparados para períodos de fome. Antigamente, o principal objetivo do organismo era armazenar gordura no caso de vir a ser preciso, hoje em dia o organismo continua a armazenar gordura mesmo quando não há necessidade. No entanto, as pessoas armazenam gordura de forma diferente de acordo com os seus genes.

O nosso organismo armazena “calorias extra” separadas por gordura branca, a mais comum e aquela que ninguém quer, e gordura castanha, que queima energia e gera calor, o que ajuda a queimar calorias. Estudos mostram que as pessoas que têm mais gordura castanha têm um índice de massa corporal mais baixo.

GLASGOW, UNITED KINGDOM - JUNE 07:  In this photo illustration a man eats a hamburger ind chips in a cafe on June 7,2006 in Glasgow, Scotland. New figures are suggesting that a large proportion of the population is clinically obese.  (Photo Illustration by Jeff J Mitchell/Getty Images)

O aumento de consumo de comidas baratas, rápidas e processadas contribui, e muito, para a ocorrência de obesidade. (© Getty Images)

Estudos feitos recentemente mostram a existência do “gene da obesidade” — uma proteína da obesidade e de massa gorda associada — chamado FTO, que funciona como o “interruptor principal” de armazenamento de gordura, dizendo ao organismo para armazenar as calorias como gordura castanha e não branca.

Investigadores que estudam a obesidade acreditam que as pessoas que se tornam obesas têm uma variação do gene FTO, que diz ao organismo para armazenar a gordura como branca e não como castanha, daí não conseguirem queimar calorias de forma tão eficiente como as pessoas cujo gene funciona corretamente.

Assim, imaginemos duas pessoas que num assomo comem, cada uma, dez bolachas de chocolate. Dependendo ou não de terem variação no gene FTO, a expressão “dez segundos na boca, uma vida inteira nas ancas” poderá, ou não, aplicar-se.

No entanto, mesmo as pessoas que têm o FTO a funcionar perfeitamente, podem culpar o próprio organismo quando tentam perder peso e não conseguem. A culpa é do hipotálamo, que assume um peso mínimo para o corpo e luta incessantemente para evitar que as pessoas ultrapassem esse mínimo. O problema é que não estabelece um “teto máximo” de peso, porque afinal, podemos vir a passar por longos períodos de fome. Ao que parece continuamos a depender de genes que funcionam segundo as normas de há milhares de anos.

O que causa a obesidade?

A causa da obesidade, tal como a causa do cancro, é demasiado complexa. Segundo Dhurandhar “só porque a imagem de uma doença parece semelhante [em vários casos] isso não significa que exista uma só causa”, acrescentando que “há múltiplos fatores” que contribuem para a sua ocorrência.

Uma pessoa pode ter uma condição de saúde que a faça ganhar peso, como o síndrome do ovário poliquístico, por exemplo. Pode estar a tomar medicação que tenha como efeito secundário o aumento de peso, como esteroides ou alguns anti-depressivos. Pode ter uma doença mental que afete os hábitos alimentares ou pode ser viciada em comida. Assim como pode ter uma deficiência motora que não lhe permita fazer exercício. A obesidade pode até ser causada por um vírus, é o caso do Ad-36, que aumenta a produção de células de gordura e torna essas células mais gordurosas, por assim dizer, originando, potencialmente, a obesidade.

No programa de televisão The Biggest Loser (ou no Peso Pesado, a versão portuguesa) os treinadores exigem muito dos concorrentes, diminuindo bruscamente a quantidade de calorias ingeridas e aumentando exponencialmente a quantidade de exercício feita, atribuindo a obesidade dos concorrentes unicamente a maus hábitos. Assim, não admira que muitos concorrentes ganhem o peso todo de volta assim que o programa acaba, já que a verdadeira causa da obesidade nunca foi tratada.

A potential contestant sits in a waiting room with over 500 people auditioning for the popular TV show, "The Biggest Loser", March 6, 2010, inside the Washington Convention Center, in Washington, DC.  "The Biggest Loser", where contestants compete to lose weight has become a worldwide hit, airing in over 90 countries and produced in 25 countries. Since its debut in 2004, "The Biggest Loser" has grown to become a standalone health and lifestyle brand with tools and products inspired by the show and approved by its doctors and experts.    AFP Photo/Paul J. Richards (Photo credit should read PAUL J. RICHARDS/AFP/Getty Images)

Programas como o Biggest Loser não tratam a verdadeira causa da obesidade. (PAUL J. RICHARDS/AFP/Getty Images)

Michael Jensen, professor na Mayo Clinic, disse à Fusion que a maior parte dos seus pacientes tem noção de que tem um problema com o peso e mesmo assim lutam para o perder. Alguns submetem-se a cirurgias e mesmo assim não conseguem fazer as mudanças comportamentais que precisam. Segundo Jensen, “isso significa que pode se passar mais alguma coisa: seja comportamental, hormonal ou psicológica”. Mas também há pacientes cuja perda de peso é um processo muito mais fácil. Porque é que isso acontece e qual a diferença entre umas pessoas e outras? Ninguém sabe e, até a ciência dar essa resposta, o médico aconselha a “não pôr no mesmo saco todas as pessoas que sofrem de excesso de peso”.

Como combater a obesidade?

Os investigadores concordam que o trabalho que tem de ser feito deve ser de prevenção, tanto a nível individual como em sociedade. De acordo com Jensen, terá de ser feito um esforço por parte da sociedade, tal como aconteceu no caso do tabaco, em que as pessoas assumem a importância de combater o flagelo da obesidade e dedicam-se a isso.

Aos restaurantes cabe listarem as calorias da comida que têm nos seus menus e diminuírem as porções que servem – no caso de não se tratar de alta cozinha – e às empresas cabe implementarem programas de exercício e de bem-estar junto dos seus trabalhadores, bem como providenciarem acesso a comida saudável.