Rádio Observador

Atentados de Paris

Quando o inimigo vive na nossa casa

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Metade dos estrangeiros que estão no EI são franceses — e 200 deles conseguiram voltar a França. Os ataques de sexta-feira revelam as fragilidades de França, que bombardeia na Síria desde setembro.

AFP/Getty Images

Pouco tempo depois de ter reivindicado o maior ataque terrorista na Europa da última década, a máquina de propaganda do Estado Islâmico pôs a circular um comunicado onde justificava os ataques ao mesmo tempo que deixava novas ameaças:

Que a França — e todos os que seguem as suas pisadas — saiba que vão permanecer no topo de uma lista de alvos do Estado Islâmico. O cheiro a morte nunca vai deixar os seus narizes enquanto continuar a sua cruzada e se atreverem a amaldiçoar o Profeta e orgulharem-se de lutar contra o Islão em França e de atingirem muçulmanos no califado com os seus aviões.

A mensagem é clara: os ataques que deixaram a França em estado de choque são a resposta do Estado Islâmico aos bombardeamentos aéreos que os gauleses têm feito às suas posições estratégicas na Síria.

Passaram 47 dias entre o primeiro bombardeamento francês e os ataques de sexta-feira à noite. Em setembro, a França anunciou que ia lançar ataques aéreos contra o Estado Islâmico na Síria evocando “legítima defesa”. Eis o que disse o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Laurent Fabius, nessa altura:

Recebemos informações que indicam que os ataques terroristas que recentemente atingiram a França e outras nações europeias foram organizados pelo Daesh da Síria. Devido a essa ameaça, decidimos fazer voos de reconhecimento do terreno para recolhermos opções para ataques aéreos no caso de serem necessários. Isto é legítima defesa.

Os primeiros raides foram a 27 de setembro e atingiram um campo de treino do Estado Islâmico na cidade Deir Ezzor, na região Este da Síria. Depois, em 9 de outubro, numa altura em que a Rússia também já tinha começado a bombardear não só o Estado Islâmico mas também rebeldes que combatem o regime sírio de Bashar Al-Assad, a França bombardeou outro campo de treino do Daesh. Desta vez, em Raqqa, a capital do Estado Islâmico.

Uma semana depois deste segundo ataque, o ministério da Defesa francês informou que o centro de treino atingido albergava “combatentes estrangeiros, entre os quais estariam provavelmente franceses e francófonos”. Embora não tenha havido informação oficial nesse sentido, o Le Monde escreveu que a operação tinha como alvo principal Salim Benghalem, um cidadão francês de 35 anos que era o principal recrutador de gauleses para o Estado Islâmico. Apesar de tudo, não é sabido se Benghalem morreu ou não como consequência do ataque.

E, por fim, a 8 de novembro, a uns escassos cinco dias da data fatal em Paris, os aviões franceses atingiram importantes infrastruturas de produção petrolífera controladas pelo Estado Islâmico, também em Deir Ezzor.

Além de procurar atingir o Estado Islâmico, os franceses atuam na Síria também em cooperação com algumas forças rebeldes pró-democráticas que estão agora “entaladas” pelo Daesh e pelo exército leal ao regime de Bashar Al-Assad. 

Assad entretanto já reagiu aos atentados de sexta-feira à noite, referindo que as “políticas erradas adotadas pelos países ocidentais, nomeadamente a França, na região contribuíram para a expansão do terrorismo”.

A primeira pergunta feita por qualquer cidadão francês hoje é: ‘Será que as políticas francesas dos últimos cinco anos trouxeram algo de bom ao povo francês?’. A resposta é não, e por isso eu peço [ao Presidente François Hollande] para agir pelo interesse do povo francês — o que significa mudar as suas políticas.”

Assad fez ainda uma menção ao facto de a França auxiliar os rebeldes que combate o Estado Islâmico, voltando a tomá-los como terroristas, e dizendo que esse gesto de Paris não ajuda a que possa haver uma cooperação com Damasco: “Não podemos partilhar informações secretas para lutar contra o terrorismo quando o governo francês assume políticas que alimentam e apoiam o terrorismo”.

Quase metade dos estrangeiros do EI são franceses

Há muito tempo que os números são alarmantes para a França — é de lá que partiram quase metade dos europeus que fizeram a viagem até ao auto-proclamado Estado Islâmico com a intenção de servirem aquele grupo terrorista em expansão no Este da Síria e no Norte do Iraque.

Segundo um relatório do senado francês tornado público em abril deste ano, havia à altura 1 430 franceses no Estado Islâmico, o que representaria 47% dos estrangeiros do Daesh. De acordo com os serviços secretos gauleses, 200 deles tinham voltado a França. Além disso, 152 islamistas radicais estavam na altura presos em França.

Depois dos ataques à sede do Charlie Hebdo a 7 de janeiro deste ano, a França pode ter sido novamente atacada a partir de dentro, isto é, por cidadãos com nacionalidade francesa radicalizados pela retórica do terrorismo islâmico.

A estes, e ao Estado Islâmico, Hollande deixou uma promessa no discurso que fez na manhã de sábado, a seguir aos atentados de Paris:

A França será impiedosa com a barbárie do Daesh. Agirá com todos os meios, no quadro do direito [internacional], todos os meios que convenham, e sobre todos os terrenos, internos e externos, em concertação com os nossos aliados que também são afetados por esta ameaça terrorista.”

Alcance do Estado Islâmico cada vez maior

A confirmar-se que a reivindicação do Estado Islâmico é verdadeira — tudo indica esse cenário e não surgem informações que apontem em sentido contrário —, o grupo terrorista em expansão no Médio Oriente volta a dar provas de que o seu alcance é cada vez maior.

Ainda recentemente, o Estado Islâmico reivindicou o atentado de Ancara, na Turquia, que matou 102 pessoas que se manifestavam numa manifestação pela paz organizada por partidos de esquerda e pró-curdos.

E a 31 de outubro o voo 7k9268 da companhia aérea Metrojet caiu no Egito, pouco depois de levantar voo em direção a São Petersburgo, na Rússia. Não sobreviveu nenhuma das 224 pessoas a bordo — 219 eram russos, quatro ucranianos e um era um cidadão da Bielorrússia. O ataque foi reivindicado por um grupo terrorista da península do Sinai com ligações ao Estado Islâmico — algo que foi inicialmente descartado como uma possibilidade real, mas que, com o desenvolvimento da investigação forense, ganhou forma.

Embora ainda não haja uma conclusão da investigação às causas da queda do avião, o facto de os destroços do avião terem sido encontrados numa área de 20 quilómetros quadrados indicam que este pode ter sido alvo de uma explosão em pleno voo.

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