Título: Nova Antologia Poética
Autor: Vinicius de Morais
Editora: Companhia das Letras
Número de páginas: 326
Preço: 16,90

VM

É difícil estimar o lugar de Vinicius de Moraes como poeta. A qualidade dos seus poemas, como não se pode deixar de observar após a leitura desta antologia, é flutuante. Isto não significa, contudo, que a poesia de Vinicius não tenha as suas virtudes, que certamente tem, nem que as suas qualidades são poucas ou negligenciáveis. Este aspecto flutuante pode ser visto como um gesto revelador, não tanto das falhas de um poeta que teria sentido a necessidade de “registrar tanto fases da sua carreira quanto determinados marcos biográficos” (p. 294), mas principalmente daquilo que Vinicius foi enquanto pessoa.

A qualidade reveladora do seu lirismo lembra-nos constantemente que a poesia é uma forma de se ser uma pessoa; isto é, a poesia de Vinicius de Moraes não separa o homem que escreve do homem que vive, e aquilo que mais chama a atenção nos seus versos poderá muito bem ser o que há de particular na voz que fala, o tom característico e inconfundível, sempre conseguido com mestria, deste poeta. De alguma forma, a entoação de Vinicius parece tão fácil de aceder quanto são as palavras impressas na página, o que constitui uma virtude não apenas rara como também essencial. Tal como os seus poemas, Vinicius foi um homem simples mas difícil; a arte com que constrói os seus sonetos é prova disso. Estes alcançam a profundidade dos grandes sonetistas de expressão portuguesa, e contribuem para a imagem deste poeta como um pensador especialmente vívido, ardente e sincero.

A atitude fundamental da poesia de Vinicius pode ser adequadamente descrita como celebrativa, cantando com força e entusiasmo louvores ao mundo que o poeta conheceu. Não deixando de notar a dificuldade de se construir uma vida e o carácter que a sustenta, e não deixando de transparecer uma certa melancolia que muitas vezes invade o espírito do poeta, é notável o bom humor e a alegria triunfante que caracterizam a arte de versejar de Vinicius. Esta característica é especialmente notória num poema como “O Dia da Criação” (p. 106). Este descreve o penúltimo dia da criação (como este é relatado no Livro do Génesis, isto é) como uma espécie de catástrofe, um erro divino. No entanto, há um triunfo inegável na expressão que dá voz a esta doutrina extrema e negativa, como aliás é fácil reconhecer nos últimos versos do poema:

“Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.” (p. 111)

A ideia de que seria preferível à raça humana nunca ter existido é absolutamente deflacionada quando somos capazes de notar que, nesta descrição, não parece haver espaço que distancie o Senhor do homem criado. O divino é, afinal, como nós, especialmente dado a cismar e a sentir-se irrequieto quando entende que já não tem mais nada para fazer. O divino partilha precisamente das nossas características, e entre nós não existe um universo inteiro que nos separe. Que o penúltimo verso se pareça com a preparação para a última tirada de uma boa piada, dito por alguém que está sentado à nossa frente na mesa de um café qualquer, é uma mostra de que se pode falar deste modo sobre estas coisas, é um atestado à profunda alegria que acompanha a nossa capacidade de criar coisas como poemas, alegria essa que partilhamos, também, com o criador. Neste sentido Vinicius é um poeta triunfante, e não de tal modo que o torna num ser distante e superior em relação ao comum mortal: o triunfo deste poeta é também o nosso triunfo enquanto homens, e ler Vinicius é partilhar a sua alegria, a sua força, a sua sempre bem-humorada inteligência.

Mesmo tendo em conta o comentário acima, onde em poucos versos o poema muda de direcção e surpreende a leitura, e mesmo que esta característica não seja única a “O Dia da Criação”, a capacidade de torcer inesperadamente todo o sentido de um poema num verso, ou numa palavra, de forma que o leitor se aperceba o quanto a sua expectativa foi contrariada, é rara ao longo de toda a antologia. Se, por um lado, é fácil reconhecer o tom particular de cada poema, é igualmente fácil reconhecer que esse tom geralmente não costuma sofrer inflexões inesperadas que sejam capazes de reformular radicalmente a ideia sugerida pelos primeiros versos. Esta característica, que certamente não faz da obra de Vinicius uma obra menor, torna por vezes o processo de leitura um pouco automático, já acostumado, o que pode resultar na impressão, mesmo que imprecisa, que os poemas de Vinicius são um pouco como letras de canções, no sentido em que nos embalam com o seu ritmo mas que não são capazes de nos fazer parar num pormenor mais denso e intricado, chamando a atenção que poetas mais complexos exigem continuamente de nós. É óbvio, contudo, que este nível de complexidade não se trata de um ingrediente indispensável para a boa poesia, e o gosto que podemos desenvolver pela dificuldade depende somente daquilo que estamos habituados a ler. De qualquer maneira, os melhores poemas de Vinicius não sofrem devido à falta de uma complexidade desta natureza, e não creio que se tornassem necessariamente mais interessantes caso a tivessem.

O índice que falta

Quanto à edição, seria útil um índice que listasse os poemas como estes estão ordenados na antologia, tal como, sempre que possível, uma indicação do ano em que os poemas foram escritos. A nova antologia, que vem com um posfácio dos organizadores e alguns curtos artigos sobre Vinicius (estes últimos numa secção designada “Arquivo”), poderia conter um maior esforço de apreciação crítica, que está evidentemente em falta. Para o leitor que se depara pela primeira vez com a poesia de Vinicius de Moraes torna-se muito difícil julgar a evolução deste enquanto poeta, simplesmente porque não dispõe de elementos que permitam ordenar os seus poemas numa cronologia. Tratando-se da antologia de um poeta que, embora hoje seja pouco falado, permanece sem dúvida um marco na produção do séc. XX, seria de esperar um maior esforço neste sentido.

Apesar de tudo isto, algumas reproduções fac-símile de cartas e de rascunhos de poemas são um bónus bem-vindo e curioso. Também o são as várias fotografias inseridas no volume, que nos dão a conhecer o poeta de outro modo. A última fotografia (nº 23), no entanto, será porventura uma escolha duvidosa: nesta, Vinicius fita a câmara, ocultando parte do rosto com uma edição anterior da sua antologia poética. A fotografia dá um ar pantanoso ao poeta, e os seus olhos um pouco túrgidos conferem-lhe um aspecto misterioso, como se de uma espécie de místico inacessível se tratasse. Ora, foi precisamente esta tendência que Vinicius procurou contrariar na maior parte da sua produção poética (como, aliás, declara na “Advertência” [p. 298] que escreveu para a primeira edição da antologia). A última fotografia deveria mostrá-lo sorridente e triunfante, tal como é a sua poesia, tal como é a sua voz.

Rodrigo Abecasis é doutorando no Programa em Teoria da Literatura, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.