Um grande balde de água fria. Geladinho como o mar da Nazaré. Ou melhor, dois grandes baldes. Na terra das ondas gigantes e do surf, Maria de Belém bem vestiu o fato e encerou a prancha, mas ondas nem vê-las. À espera de um banho de multidão, que seria o primeiro desde o início da campanha, a socialista encontrou uma feira praticamente vazia. Falhou o primeiro grande teste à sua popularidade por falta de comparência – não dela, mas de quem devia estar na feira e não estava. Isto, depois de saber que continua atrás de Sampaio da Nóvoa nas sondagens – e em sentido descendente. Salvou-se o jantar-comício e Manuel Alegre, que fez marcação cerrada a Nóvoa (e ao PS).

Mas isso foi só à noite. Porque o dia começou mesmo flat. “Não está muita gente. Mas é a gente que está”, reconhecia a candidata no final da visita à feira da Nazaré. Com mais feirantes do que pessoas, a ex-ministra da Saúde fez uma visita de médico. Chegou, distribui meia dúzia de bons-dias e zarpou. Com os feirantes praticamente indiferentes à passagem da candidata. Assim mesmo, um tubo feito à velocidade da luz.

“Isto é pior que o Sporting, nem passa à segunda volta”, atirava um feirante em alto e bom som. Não que seja necessariamente verdade: os leões têm um Jesus que, dizem, faz milagres e pôs a equipa em primeiro lugar no campeonato. Já Maria continua sem conseguir arrancar do terceiro posto.

Mas a ex-presidente socialista não desarma. Continua a acreditar numa segunda volta e nem as sondagens a fazem tremer. Sim, são um “instrumento importante”, mas é a “realidade” quem mais ordena, insiste.

Os apoiantes vão dando (alguma) força. Não há bandeiras, nem grande agitação. Não há jotinhas, nem gritos de ordem. Não há rua, nem grande mobilização. Ainda assim, ao sexto dia de estrada, foi a segunda sede de campanha inaugurada. Primeiro na Maia, agora na Marinha Grande. Casa modesta, encaixada entre a Residencial Paris e a Farmácia Moderna, com vista privilegiada para o cemitério da cidade. Cheia tanto quanto o possível para receber a candidata presidencial. Maria de Belém agradeceu o gesto e continuou para o almoço-comício, no restaurante Oceano (Nazaré).

E lá partiu para o ataque, para aquecer um dia que estava frio. Gelado, na verdade. Contra os vendilhões do templo, Maria deixou o mandamento: Não invocareis o papel do Presidente da República em vão. Lema que vai repetindo ao longo da campanha: ao contrário de outros candidatos, Maria não “faz falsas promessas” nem se compromete a fazer aquilo que não pode fazer. Não promete “redenções”, “milagres” ou “coisas imponderáveis”. O programa é a Constituição, o currículo é a obra feita, o Estado Social a grande causa. O pai, o filho e o espírito santo. Nem mais, nem menos.

Manuel Alegre põe o dedo na ferida: o que está a acontecer “é uma falta de respeito”

Ao mesmo tempo que Maria de Belém reunia 350 pessoas em Santo Tirso, ali ao lado, em Matosinhos, António Sampaio da Nóvoa enchia a casa com 1300 pessoas. Números redondos que ajudam a dar força à tese que Alegre repescaria durante a noite de sexta-feira: Nóvoa diz-se independente, mas na estrada não parece.

E foi isso que o ex-conselheiro de Estado fez questão de denunciar. As estruturas do PS estão a apoiar António Sampaio da Nóvoa e “isso é uma falta de respeito para com quem foi presidente do PS”.

Palavras duras do socialista que fez questão de pôr tudo em pratos limpos. Nóvoa pode dizer as vezes que quiser que é independente e sentir-se no direito de “dar lições de cidadania” aos outros candidatos. Mas, na verdade, “está a ser apoiado por estruturas partidárias, nomeadamente as estruturas do Partido Socialista”.

Alegre disse-o assim mesmo, sem papas na língua. O PS decidiu não apoiar nenhum candidato e fez bem, considera. Ora, tomada a decisão, o PS devia mantê-la “com clareza, com transparência e sem batota”. Mas não é isso que está a acontecer. “Não aceito que se decida uma coisa e se faça o seu contrário”, atacou o socialista.

Por isso, dia 24 de janeiro, vote em Maria e não no Messias, pediu a Alegre. “Não precisamos de candidatos messiânicos, nem de salvadores. Precisamos de alguém que tenha uma interpretação correta da Constituição, que sinta a Constituição e que não crie ilusões sobre qual é o papel do Presidente da República”. E Belém tem-na. Nóvoa não, deixou entender Manuel Alegre.

Este sábado, Maria de Belém volta a tentar a passar no teste da rua: começa o dia em Valongo, na visita à feira da cidade. Resta saber como vai estar a maré.