“Nunca tive vontade de ser mãe.” Em 35 anos de vida, Maria* nunca sentiu o desejo de ter filhos, de ver a barriga crescer durante nove meses para dela surgir uma nova e pequena vida. O relógio biológico não deu de si e o alarme ficou por soar. Não é fundamentalista e admite ter receio de poder vir a sentir o apelo maternal quando já for tarde demais, no entanto, a perspetiva que julga remota não abala a convicção com que hoje fala ao telefone: “Não sinto, ao contrário do que algumas mulheres dizem, que a maternidade tenha de completar uma mulher. Sinto-me completa com todos os outros papéis que desempenho na minha vida.”

Maria não está sozinha no barco ou, se quisermos, no eterno voo da cegonha que nunca chega a pousar. A ela somam-se outros exemplos de mulheres que optaram por não ser mães numa sociedade cada vez mais disponível para o debate. É o caso de Teresa Gonçalves, de 26 anos, que não se recorda de um tempo em que pensou de forma diferente — e nem o facto de viver com o namorado de seis anos a leva a mudar de ideias.

“Toda a gente tem essa expectativa. A partir do momento em que estás com alguém há algum tempo começam-te a perguntar para quando o casamento e para quando os filhos. Antes era óbvio que isso acontecesse, hoje há a possibilidade de as pessoas fazerem uma coisa diferente com a sua vida.”

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As duas mulheres em questão representam uma minoria nacional e prova disso são os resultados do inquérito à fecundidade realizado em 2013 pelo Instituto Nacional de Estatística. Entre as várias conclusões, destaque para o facto de, em Portugal, o número de pessoas em idade fértil que pura e simplesmente não quer ter filhos ser bastante reduzido — ronda os 8%. E são os custos financeiros que ocupam o primeiro lugar nas razões que levam as pessoas a não quererem ter filhos de todo ou a não terem mais filhos, tal como o Observador relatou em setembro do ano passado no artigo “Fazer mais bebés. Os políticos podem ajudar-nos?”.

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Nao-ter-filhos

A grande maioria de situações de não parentalidade são involuntárias, lembra ainda Vanessa Cunha, socióloga e investigadora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa. Em causa está sobretudo o adiamento da parentalidade, seja por questões profissionais, económicas e problemas ao nível da conjugalidade. Voltando à ideia de quem não quer mesmo trocar fraldas a uma descendência direta, Cunha acrescenta: “Quem decide não ter filhos representa um valor residual e isso é coisa que não marca as novas gerações por aí além.”

Uma vida sem filhos. Mas porquê?

Não ser mãe é uma decisão que Maria defende de cada vez que a interrogam sobre o assunto. Talvez à conta de tantas perguntas, a profissional na área da comunicação vai tendo o hábito de procurar respostas: “Hoje parece claro estar relacionado com a responsabilidade em formar um ser humano. Não é não querer cuidar de alguém durante anos, é saber que qualquer gesto ou informação marcará aquela pessoa. É isso que me assusta, sentir essa responsabilidade e saber que dependerá muito de mim.”

Teresa Gonçalves também pensa de uma forma semelhante. Ao facto de não ter uma grande afinidade com crianças — não se lembra de alguma vez ter soltado um “oh, que querido” perante um bebé de feições adoráveis — acrescenta um receio dificilmente compreendido por terceiros:

“Acho que não daria uma grande mãe. As pessoas pensam que, por sermos mulheres, assim que temos filhos tudo o resto é natural. Acho que gostar de ter filhos não é o suficiente, é preciso ter paciência e um grande sentido de responsabilidade. Não me sinto preparada nem hoje nem no futuro.”

Há ainda um terceiro fator que faz de Teresa uma pessoa resoluta: “É um pouco tabu dizer isto, mas as crianças trazem muitas desvantagens para a vida dos pais.” As palavras fortes são rapidamente justificadas, com a jovem mulher a argumentar que ter um filho implica vários “inconvenientes”, desde o acréscimo financeiro à limitação do tempo pessoal e profissional. “Eu prefiro ter a minha liberdade.”

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© Vmelinda/iStock

“Eu sempre deixei bem claro em conversas com amigos ou familiares que no meu futuro não queria crianças.” A afirmação é, desta vez, de Ângela Pereira, que desde sempre soube que não ia ser mãe. Hoje, com 32 anos, continua longe de mudar de ideias. “Não é achar que não vou ser boa mãe, não sinto mesmo aquele apelo, não sinto o relógio biológico. Nunca esteve perto de fazer ‘plim’ e nem vai estar.” A forma decidida de pensar é coisa que incomodava a mãe da cake designer que, em tempos, depositou fé nas voltas que a vida costuma dar: “‘Deixa passar o tempo e logo verás’ é o que ouvimos quando dizemos que não queremos filhos.”

A decisão em questão não reflete escolhas de vida de apenas mulheres na casa dos 20 e 30 anos, ainda a tempo de mudar de ideias — o que, por sinal, é uma das coisas que quem não quer filhos mais detesta ouvir. Aos 54 anos, Laura Ferreira dos Santos, professora aposentada e autora de obras relacionadas com a morte assistida, é prova disso. A opção de não ter filhos, segundo conta ao Observador, não foi tomada no exercício da liberdade individual e foi antes força das circunstâncias: “Desde pequena que a minha mãe me incutiu uma ideia extremamente negativa do que era a gravidez, quase como se isso fosse a pior coisa que poderia acontecer a uma mulher. Cresci com a ideia de que a gravidez era algo mau. Por outro lado, não tive relações estreitas com a minha mãe e tive medo de que, tendo um filho, isso se fosse repetir.”

Todas as histórias, mais e menos díspares, vão de encontro à análise feita pela socióloga Vanessa Cunha, habituada a trabalhar temáticas familiares. Nas muitas entrevistas feitas a mulheres, a propósito das investigações sociológicas em que esteve envolvida, a especialista ficou a conhecer alguns dos motivos indicados por quem não quer ter filhos e os discursos, surpreendentemente ou não, são idênticos:

“Apanhamos mulheres que falam da maternidade como um compromisso de grande responsabilidade, um discurso que não é contra as crianças; sentem que podem não ter as competências necessárias para assumir esse compromisso.”

É neste ponto que a socióloga lembra uma realidade bem presente no dia-a-dia, em que vários “peritos” na área da maternidade opinam sobre as diferentes formas de educar uma criança — criando assim uma espécie de requisitos para se ser mãe e pai –, o que corre o risco de assustar muitas pessoas. Mas a falta de apelo também é uma das razões apontadas, além de uma eventual incompatibilidade conjugal.

Liberdade de escolha ou egoísmo?

Não raras vezes, Maria dá por si a pensar se o facto de negar a maternidade é, ou não, um ato de egoísmo. “Até pode ser visto como tal porque, na verdade, isso limitar-me-ia numa série de situações”, confessa pensativa, admitindo que a liberdade que tem hoje nunca seria a mesma na presença de uma criança a precisar de cuidados e de atenção. É nesse seguimento que diz ainda ter muito para fazer, desde continuar a viajar a tomar decisões de trabalho sem qualquer “peso acrescido”. “Eu só tenho de contar comigo mesma. Talvez isso seja um pouco egoísta, mas esta não é a principal razão que me faz pensar em não ter filhos.”

A questão do egoísmo também é coisa que faz pensar Teresa Gonçalves, que admite que já houve quem a acusasse de só estar a pensar em si própria. “Dizem que és egoísta porque não estás a dedicar a tua vida a educar outra pessoa. Aceito que esta é uma decisão em que estou mais a pensar mim. No fundo é egoísta, mas esta é uma palavra forte e com uma conotação má. Nem sempre é mau ser-se egoísta. De que vale passar a vida a educar crianças se depois não sou feliz?”

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Uma ótica completamente diferente, e possivelmente considerada altruísta, é a de Sofia Rodrigues. A enfermeira de 27 anos, prestes a embarcar para Londres à procura de uma vida melhor, argumenta que não quer ser mãe devido ao excesso de população no mundo, pelo que, a longo prazo, considera adotar uma criança. “É mais pelo excesso populacional, apesar de estar mal distribuído. Acho que está a fazer mal ao nosso mundo e, depois, isto funciona como uma bola de neve: ter mais bocas para alimentar significa que é preciso criar mais coisas. Estamos sempre a criar e não temos consequência disso.”

O certo é que ter filhos exige um espírito de sacrifício que implica noites mal dormidas, idas à escola ou ao hospital, entre outros exemplos mais ou menos rotineiros. Quem o lembra é o psiquiatra e professor no Instituto Universitário da Maia Fernando Almeida, que traz para cima da mesa a ideia do “individualismo”, isto é, o facto de as pessoas tendencialmente viverem mais focadas em si mesmas, o que pode representar o “desvio de um determinado tipo de pressupostos sociais”. Daí que na equação de ter ou não descendência entrem tópicos relacionados com felicidade disponível, bens económicos e alimentares existentes, mas também interesses pessoais e profissionais. “O esforço requerido pelo filho vai ser tão intenso que, de alguma forma, vai subtrair paz e sossego ao pai ou à mãe.”

Um estigma cada vez menor

Em novembro de 2015, uma polémica estalava em torno deste assunto na imprensa britânica, com muitos utilizadores a servirem-se das redes sociais em prol de um protesto em comum: depois de testemunhar à BBC a sua escolha em não ser mãe, Holly Brockwell foi fortemente insultada, tanto que chegou a cancelar a respetiva conta de Twitter. A notícia está documentada aqui.

É certo que a sociedade pode estar mais aberta ao diálogo e o sentido crítico generalizado tende a ser coisa do passado, no entanto, tanto Maria como Teresa Gonçalves, Ângela Pereira e Laura Ferreira dos Santos explicam ao Observador que já se sentiram incomodadas, seja com afirmações de terceiros ou interrogações constantes de familiares.

Quando alguém pergunta a Laura Ferreira dos Santos porque nunca foi mãe, ela responde simplesmente que não houve possibilidade — a resposta fica a pairar no ar e entra numa zona cinzenta. “Algumas pessoas poderão ter sentido estranheza por eu não ter tido filhos e, por vezes, até uma certa inveja”, diz, uma vez que era (e é) uma mulher casada, com relações sexuais e sem crianças e consequentes obrigações. “Há uma estranheza grande numa mulher que está casada, que vive com um homem e não engravida”, admite a professora aposentada e formada em Filosofia. “Eu tomei a melhor resolução atendendo às circunstâncias, o que não quer dizer que, por vezes, não tenha a nostalgia de alguém me poder chamar mãe. ”

Já Maria, cujo testemunho introduziu este artigo, diz não ter histórias menos positivas para contar e adianta que o que sempre a incomodou mais foram as perguntas frequentes por parte de familiares. E mesmo aos 35 anos de idade e sem uma relação estável em vista, o inquérito, ainda que mais subtil, continua a acontecer. “Sinto que não vou ao encontro das expectativas da minha família”, diz, lembrando que os seus pais gostariam de ter netos e que olham com pena para a sua decisão.

Fora do registo familiar, Maria confessa a custo ter sentido algum tipo de descriminação em pleno local de trabalho. O facto de não ter filhos dava-lhe (e dá) outra liberdade, no sentido em que tinha (e tem) mais disponibilidade para trabalhar. “Senti que quem tem filhos, homens e mulheres… era como se houvesse outro tipo de abordagem. Parte-se do princípio que por não ter filhos posso abdicar da minha vida pessoal em prol do trabalho. Como se a vida pessoal passasse apenas pela maternidade ou pela paternidade.”

“Eu sinto que as pessoas não me compreendem e não aceitam”, lamenta ainda Teresa Gonçalves. “Já me senti julgada, mas não é nada que me faça sentir mal comigo própria. Sei que não é uma opinião muito famosa.” É neste registo que a jovem mulher de sotaque portuense explica que, comentários à parte, o que a chocou mais foram afirmações como esta: “Não queres ter filhos? Então quem é que vai cuidar de ti quando fores velha?” “Isto é egoísta, não é um bom motivo para se ter filhos”, atira, argumentando que, na ótica em questão, uma criança poderia ser encarada como um investimento.

Sobre isso, o psiquiatra Fernando Almeida assegura que os filhos sempre foram entendidos, ao longo da história da humanidade, como seres capazes de proteger os pais na velhice, muito embora essa seja uma ideia cada vez menos pertinente, mas relevante. “Mesmo que os idosos não precisem economicamente dos filhos, a probabilidade de estes serem bem tratados é maior quando os têm. O que vai acontecer é que, com a longevidade a aumentar, vai haver filhos cada vez mais velhos que não conseguem tratar tão bem dos pais.”

Façamos um recuo e voltemos à ideia do estigma social para colocar a questão: porque é que este é um tema tão sensível? Antes de a resposta chegar, importa perceber que a sociedade pós-25 de abril, como Vanessa Cunha faz questão de lembrar, está muito mais aberta às diferentes formas de viver a vida em família. Exemplo disso é a possibilidade de um casal se poder divorciar e da distinção dos filhos ilegítimos ter sido extinta (para não falar do casamento entre pessoas do mesmo sexo).

“De uma maneira geral, as pessoas estão motivadas e até foram educadas e pressionadas a ter filhos”, tenta responder Fernando Almeida, acrescentando que um filho representa a continuidade da espécie e o nome da família em questão. “É um rejuvenescimento da própria família e as famílias gostam de se perpetuar. Os filhos, ao serem uma continuação nossa, são uma justificação para o esforço.”

Além disso, o psiquiatra garante que o desejo de construir uma família e uma carreira é algo que vai de encontro às motivações pessoais e sociais. E o que acontece, então, quando alguém decide não ter filhos: “De alguma forma interrompe legitimamente esta cadeia que era expectável face àquela pessoa.” É precisamente por isso que o psiquiatra defende que a pressão pessoal pesa mais do que a social.

Acabemos como começámos, com Maria a argumentar em seu favor: “Ter um filho porque não se consegue resistir à pressão familiar ou porque há medo da velhice parece-me muito pouco para tomar uma decisão tão séria. Podemos ser mulheres ou amantes, mas esses papéis podem deixar de existir. Ser mãe é o único papel que é para sempre, e um filho é a única relação eterna.”

* Nome fictício, esta pessoa não quis ser identificada.