Eu não cheguei aqui ontem. Dos outros não posso dizer o mesmo. Estas duas frases resumiriam bem o que foi repetindo Maria de Belém ao longo destes nove dias de campanha. Não há máscaras, não há maquilhagem. Não há falsas promessas, nem pretensões messiânicas. Não há vazio, há currículo. Há obra feita. “Eu sei do que falo e falo do que sei. Sei do que falo porque estive lá e sei do que falo porque fiz”, vai garantindo a cada intervenção. Não, Maria não cai em tentações de querer ser aquilo que não é, reza a própria. Já outros querem vestir um fato que não lhes serve.

São “40 anos de serviço público”. A frase tornou-se o grande chavão da campanha de Maria de Belém. E vinha sempre acompanhada por um ou outro acrescento. Ou todos ao mesmo tempo. São 40 anos de defesa do Estado Social, são 40 anos ao lado da Administração Pública, são 40 anos a ajudar a construir o Serviço Nacional de Saúde, são 40 anos na luta contra a pobreza infantil e pela igualdade de género.É a economia social, estúpido. Já outros tiveram um “sobressalto cívico” recente e despertaram para essas causas agora.

Ponto por ponto, Maria de Belém vai lembrando o currículo e a obra feita. Sem máquina socialista no terreno e sem exaltação popular, a ex-presidente do PS recorda o que fez e explora a rede que construiu. Adjunta de Maria de Lurdes Pintassilgo na Secretaria de Estado da Segurança Social. Chefe de gabinete do ministro da Saúde. Vice-provedora da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Administradora-delegada do Centro Regional de Lisboa do Instituto Português de Oncologia (IPO). Ministra da Saúde e depois da Igualdade. Vice-presidente e presidente da Assembleia-Geral da Organização Mundial de Saúde. Cofundadora da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV). Tudo isto. Já outros andaram “escondidos”.

É tudo isto e ainda militante socialista, vai insistindo, “com muito gosto e muita honra”. Esteve lá sempre que o partido precisou e ajudou a construí-lo com as suas próprias mãos. “Tenho 40 anos de militância. Estive na Alameda, estive em todas as grandes lutas do PS. Estive na escolha dos vários secretários-gerais, uma vez de um lado, uma vez do outro. E foi isto que fez do PS um grande partido, um partido diverso, em que ninguém é perseguido pelas suas ideias”. Já outros dizem “que os partidos são geradores de intriga ou que é preciso alguém de fora dos partidos para os reabilitar, mas depois quando chega a altura de ganhar as eleições os partidos já são necessários”.

E, por isso, tem-se insurgido. “Não posso ser considerada como menos digna do apoio dos socialistas. Era só o que faltava, que agora fosse mais importante apoiar independentes do que socialistas e que os militantes socialistas tivessem de ficar para trás”.

O nome esteve lá, implícito, mas sempre presente em cada discurso da candidata presidencial. Desde o primeiro dia de campanha. António Sampaio da Nóvoa, o “falso profeta”, o homem que andou “escondido” nos últimos anos, de quem não se lhe conhece obra ou currículo Sem causas ou convicções sólidas. O candidato apoiado pelas estruturas do PS que se apresenta com a máscara de independente. O alvo a abater desde o primeiro momento, mesmo que Belém jurasse o contrário.

Duas campanhas dentro de uma. Uma de defesa do currículo ímpar. Uma de ataque ao currículo nulo. São estes os dois grandes trunfos de Maria de Belém. Chegarão para atirar Nóvoa para fora da corrida e tentar uma segunda volta?