“Um presente de Deus”. Estas foram as palavras que o papa João Paulo II usou para descrever a filósofa Anna-Teresa Tymieniecka, a mulher com quem Karol Józef Wojtyła trocou correspondência ao longo de 30 anos de amizade. As cartas que a Biblioteca Nacional da Polónia manteve longe do olhar do público foram agora reveladas e mostram uma “intensa amizade” entre os dois. Ao ponto de alguns colocarem a hipótese de ter havido envolvimento amoroso entre Wojtyła e a filósofa, ainda que não existam provas de que tal tenha acontecido. Mas quem era Anna-Teresa Tymieniecka?

Nascida a 28 de fevereiro de 1923, Anna-Teresa nasceu no seio de uma família aristocrata com uma veia polaca e outra francesa. A filosofia já lhe corria no sangue: a mãe, Maria-Ludwika, foi quem a introduziu às obras de Platão, de Henri Bergson e de Kazimierz Twardowski, três dos especialistas que mais terão influenciado a vasta lista de obras da filósofa com quem o João Paulo II mantinha uma grande amizade.

Quando Anna-Teresa começou a estudar Filosofia na Universidade de Cracóvia, na Polónia, já a II Guerra Mundial havia acabado. O seu tutor era Roman Witold Ingarden, um polaco cujos trabalhos estavam muito concentrados na fenomenologia. Foi precisamente nesta área que anos mais tarde, em 1976, a amiga do antigo chefe máximo da Igreja Católica fundou o Instituto Mundial da Fenomenologia, que se dedicava à investigação e ao ensino das estruturas do pensamento e da experiência humana. Nos tempos de estudante, Anna-Teresa também ingressou na Academia de Belas Artes da Cracóvia.

Terminados os estudos, Anna-Teresa mudou-se para a Suíça a fim de estudar lógica com Józef Maria Bocheński, um filósofo dominicano que lecionava na Universidade de Friburgo. Em 1957, a tese que escreveu para concluir o doutoramento foi publicado: “Essência e existência” estudava os pilares da fenomenologia, com que Anna-Teresa tinha tido contacto desde os tempos de escola.

Entretanto já se tinha lançado num caminho independente, que se traduziu num grande número de obras de referência na área da fenomenologia, existencialismo, moral, entre outros ramos, todos com pensamentos próprios e menos inspirados por filósofos de renome – embora fosse evidente uma maior tendência de concordância com Twardowski, o filósofo com quem o seu primeiro tutor havia aprendido filosofia.

Anna-Teresa Tymieniecka era casada. Em 1956 subiu ao altar com Hendrik S. Houthakker, um economista norte-americano de origem holandesa que dava aulas nas universidades de Stanford e Harvard e que chegou a fazer parte da equipa de conselheiros do Presidente Nixon. Só 23 anos depois de ter casado é que Anna-Teresa lançou um livro com Karol Józef Wojtyła, papa da Igreja Católica havia um ano: “Pessoa e Ação” foi escrito em polaco pelo papa e traduzido – polemicamente – para inglês pela filósofa. Esta obra falava sobre a dicotomia da consciência subjetiva e da realidade.

Desde os anos 50 que Anna-Teresa lecionava em vários institutos e universidades americanas, nas áreas de matemática e de de filosofia. Só em vésperas dos anos ’70 é que se lançou na presidência e fundação de instituições: ainda antes de criar o Instituto Mundial da Fenomenologia, a filósofa já tinha uma outra dedicada também ela à fenomenologia. Nos anos noventa prosseguiu, com a fundação da Sociedade Internacional de Fenomenologia, Estética e Arte e da Sociedade Ibero-Americana de Fenomenologia. As duas primeiras foram depois fundidas numa única instituição mundial.

Anna-Teresa Tymieniecka morreu há dois anos, a 7 de junho em Hanover, nos Estados Unidos da América, nove anos depois de João Paulo II ter morrido na sequência de uma insuficiência cardiovascular.