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Ana Moura saiu de Évora com uma garrafa de vinho na mão. Dito assim até pode gerar mal-entendidos, mas a “tirada” surgiu espontaneamente numa conversa informal. É que antes do espetáculo, durante o jantar num espaço reservado para a entourage, chegou uma surpresa: um produtor de vinhos do Alentejo e admirador de longa data, ofereceu à fadista a primeira garrafa de tinto com rótulo “Ana Moura”. A festa na Arena de Évora foi rija e abriu apetites para a sequência de três dias de espetáculos em Faro, no Teatro das Figuras. É caso para dizer que em termos de Património da Humanidade, deixámos para trás a cidade e levámos o fado para o Algarve. O auditório vermelho e negro proporcionou um ambiente diferente, mais formal e circunspecto, para esta série de três espetáculos de promoção do álbum Moura na capital algarvia.

Com lotação esgotada há muito, a magnífica sala reúne as condições acústicas ideais para permitir uma experiência de nível superior ao mais exigente dos melómanos. A propósito, em termos visuais é também notória a ausência de distrações e elementos luminosos exteriores à boca de cena, permitindo a plena evidência dos dispositivos cénicos utilizados na produção. A plasticidade dos elementos de vídeo resultou em pleno no palco das Figuras, em boa parte graças às suas dimensões e até a borboleta luminosa, a pairar sobre o conjunto, parecia ter outra escala.

Os acordes da Fender de Mário Barreiros acompanham a abertura de luz no palco a deixar ver o sexteto alinhado para a entrada da fadista que canta “Moura Encantada”. A primeira noite começou assim, com o espetáculo a seguir o alinhamento que combina a promoção das canções do novo disco com os fados tradicionais. O público apresentou-se engalanado para receber a artista, mostrando-se quase cerimonial no modo, atento e concentrado, como acompanhou o espetáculo. A princípio apenas alguns iam respondendo ao desafio da fadista, com palmas e refrães a acompanhar. À entrada do “Fado Dançado” explicou a origem do tema, escrito por Miguel Araújo, que se terá inspirado na vibração da artista ao vê-la dançar enquanto canta “com o ombro e a anquinha”, num movimento gracioso que é já uma marca nas performances de Ana Moura. E como ela diz: “se o fado se canta e chora, então também se pode dançar.”

Mostramos-lhe agora mais um pormenor da peça, conhecida entre o grupo como “guitarrada”, que ocorre sensivelmente a meio da atuação. Cria condições para a cantora fazer uma pausa, ao mesmo tempo que dá protagonismo à interpretação dos músicos e à sonoridade particular de cada instrumento.

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“Os Búzios” do álbum Para Além da Saudade, editado em 2007, mantém-se no alinhamento como um dos temas mais reconhecidos e isso nota-se pela facilidade com que o público adere ao refrão, culminando num alto e uníssono “vou mudar-te a sorte”. Mas seria preciso esperar pelo encore para ver a larga plateia de pé, numa ovação vibrante e efusiva. A profundidade emocional de “Loucura”, que parece ter sempre uma nova nuance a cada vez que a escutamos ao vivo, deu lugar à festa do público algarvio que acompanhou de pé todo o “Desfado” até à despedida. Veja aqui como foi mas tenha em atenção que o som, captado atrás dos músicos, apresenta por isso menor qualidade. No momento de honrar o elenco e fazer vénias à plateia é difícil ficar indiferente à alegria e satisfação autênticas da artista e dos músicos, tal é a forma como se entregam ao público em euforia.

No foyer do Teatro das Figuras, encerrada a festa no palco, era tempo de preparar o habitual momento de contacto com a fadista. Muitos foram os que esperaram por uma fotografia, autógrafo ou simplesmente para dizer a Ana Moura o que ela lhes deixa na alma. Foi o caso de Isa de Brito, que também canta fado e já gravou um disco. Está envolvida em vários projetos artísticos no Algarve, onde reside, combinando a paixão pela música com o trabalho administrativo que desenvolve numa empresa de serviços. Deu voz ao canto coral e fez teatro amador, licenciou-se em Educação Social mas é no sonho do fado que se sente realizada. Sobre Ana Moura não faltam os elogios e o respeito pela “diva”, como fez questão de lhe chamar.

Ali também encontrámos o “Zézinho”, tal como se apresentou, com apenas seis anos de idade para um belo momento de ternura dedicado à artista. Cantou a capella a sua versão de “Dia de Folga”, comprovando o alcance abrangente da música de Ana Moura que consegue reunir na sua base de fãs tanto as crianças e jovens como os apreciadores mais antigos.

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Logo à noite há mais, quando forem 21h30, na última das atuações da fadista no Teatro das Figuras que, segundo os responsáveis, não tinha até hoje registado três espetáculos seguidos com lotação esgotada.

À semelhança do que aconteceu com Évora e Faro, vamos ter convites duplos para o espetáculo deste sábado, 9 de abril, no MEO Arena em Lisboa. Até lá, fique atento aos próximos passatempos e continue a seguir o Observador no Facebook, no Twitter e no Instagram.