Diz a sabedoria popular que quando se fecha uma porta abre-se uma janela. Ou outra porta, garantem os mais otimistas. Já a sabedoria eclesiástica, por seu turno, afirma que quando se fecha uma porta, Deus abre uma janela. Ou pode até abrir outra porta, dependendo, quiçá, da fé dos envolvidos no enredo e de a data em que a porta se fecha coincidir, ou não, com um período de maior benevolência do Todo-Poderoso. Isto apesar de este abrir uma porta em vez de uma janela ser coisa para arruinar a métrica e a sonoridade do provérbio: Quando se fecha uma porta, Deus abre uma janela é muito mais orelhudo, logo credível, que Quando se fecha uma porta, Deus abre outra.

Ora, a porta do Pap’açorda original — um adjetivo que agora se impõe — fechou-se no dia 5 de março de 2016, exatamente 35 anos depois de se ter aberto, pela mão de Fernando Fernandes e José Miranda. Passadas três semanas — e como seria de esperar, tendo em conta a formulação supracitada –, abriu-se outra porta, no primeiro piso do Mercado da Ribeira. E, com ela, abriram-se várias janelas, com vista para o jardim Dom Luís I. Se houve intervenção divina, foi bastante discreta.

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O antigo Pap’açorda, um restaurante que marcou Lisboa durante 35 anos.
(foto: © Divulgação)

O novo Pap’açorda está no primeiro piso do Mercado da Ribeira. Ou, se preferir, do Time Out Mercado da Ribeira. Ou, para ser factualmente correto, do Time Out Market Lisboa. Simplificando: está no primeiro piso daquele edifício com uma cúpula no início da Avenida 24 de Julho, onde outrora se vendiam víveres e flores e havia matinés de bailarico, entretanto transformado, via revista Time Out, num “projeto editorial a três dimensões”, segundo uma expressão dos próprios responsáveis.

Esse projeto previu desde sempre a existência de um restaurante no piso superior do edifício. Mas os moldes desse mesmo restaurante foram sendo alterados ao longo dos quase seis anos que passaram desde a atribuição da concessão do espaço. A ideia inicial era a de ali ter um espaço moderno e rotativo, com chefs e conceitos que fossem sendo convidados ao sabor das estrelas das críticas da revista. Não aconteceu nada disso, mas aconteceu Pap’açorda. E já não é nada mau.

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Acede-se ao novo Pap’Açorda pela entrada principal do Mercado da Ribeira, subindo as primeiras escadas à esquerda. (foto: © Luísa Ferreira)

“Queremos atrair para o Pap’açorda o mesmo sangue novo que passou pelo Bairro Alto nos anos 80, quando o restaurante era também um ponto de encontro. Muitas pessoas iam lá para beber um copo ou um café com os amigos que já lá estavam”, conta João Malta, o diretor do restaurante, para quem a hipótese de acumular dois restaurantes não fazia qualquer sentido. “Pap’açorda só há um”, responde taxativamente.

Se só há um, convém que continue a dar bom uso ao nome. Assim, o espaço adaptou-se à lógica do mercado. E, consequentemente, à do Mercado. A cozinha funciona agora de forma contínua entre o meio-dia e a meia-noite, com as devidas alterações à carta: “Transformámos alguns pratos principais em entradas, como é o caso dos croquetes de vitela”, diz João. No mesmo sentido, há uma aposta forte nos cocktails, com destaque para o clássico Papadrink (vodka, gelado de limão e champanhe), a bebida de assinatura da casa, criada há 35 anos.

Mas já lá vamos ao que ficou, primeiro as novidades. A garrafeira climatizada com nove metros de comprimento, com temperaturas e humidades diferenciadas é uma delas. Tal como os dois bares, um em cada sala, onde se concentram — outra novidade — 25 lugares ao balcão. Por falar em lugares, não faltam: são 150, o dobro dos que havia no Bairro Alto. “E como temos muito espaço entre mesas estamos preparados para receber eventos de até 500 pessoas”, acrescenta João Malta. Esse aumento de espaço e de lugares contribuiu para outra boa nova: os preços baixaram ligeiramente. O diretor do restaurante explica porque o que fizeram: “Além de a sala ser muito maior agora, estamos a antecipar a baixa do IVA e quisemos adaptar-nos aos novos padrões de consumo, em que os clientes preferem experimentar pratos diferentes em vez de cada um pedir o seu.”

RESTAURANTE,

A guardiã das receitas do Pap’Açorda, Manuela Brandão.
(foto: © Luísa Ferreira)

O que sobrou então da casa antiga? Muito mais do que apenas o Papadrink ou os croquetes, descansem os fiéis. Sobraram também todas as outras receitas de Manuela Brandão, a chef que entrou na cozinha do restaurante aos 18 anos, pouco depois da sua abertura, e que continua a ser a responsável por garantir a qualidade de pratos míticos como o paté de santola, o arroz de cabrito no forno, as açordas, claro (a real e a de gambas) ou a mousse de chocolate Pap’açorda — essa instituição lisboeta –, cuja fama também se deve à forma como é servida, na mesa, diretamente da enorme tigela de inox.

E não é só a comida que remete para o antigo restaurante. Também o faz o enorme lustre, colocado à entrada, um dos vários que iluminavam o Pap’açorda da Rua da Atalaia. Bem como a cor dos individuais, no mesmo tom salmão que dominava as paredes e as cadeiras da casa-mãe. “Tudo o resto ficou lá, quem quiser comprar o restaurante pode abri-lo no dia seguinte, tem todo o equipamento”, revela João Malta. Há interessados?

Nome: Pap’açorda
Morada: Mercado da Ribeira, Avenida 24 de Julho (Cais do Sodré)
Telefone: 21 346 48 11 / 91 179 84 50
E-Mail: reservations@papacorda.com
Horário: De terça a domingo, das 12h às 00h. De quinta a sábado fecha às 02h (a cozinha funciona até às 00h)
Site: papacorda.com
Preço Médio: 30€
Reservas: Aceitam
Outras informações: Tem uma sala para fumadores