Maurice Sinet, mais conhecido por Siné, morreu esta quinta-feira depois de uma intervenção cirúrgica no Hospital Bichat, em Paris. O antigo cartoonista do jornal Charlie Hebdo, conhecido pelas suas posições radicais e desenhos irreverentes, tinha 87 anos.

O anúncio foi feito esta manhã por Etienne Liebig, romancista e amigo de Siné que esteve envolvido no lançamento do jornal satírico Siné Hebdo, em 2008. “O meu amigo Siné morreu esta noite! Estou chocado!”, escreveu na sua conta no Twitter. A morte do cartoonista foi entretanto confirmada pelo Siné Mensuel, o seu jornal mensal, através do Facebook.

À France-Presse, o advogado da família de Siné, Dominique Tricaud, explicou que o cartoonista foi alvo de uma “grave operação ao pulmão” na noite de quarta-feira e que, “apesar de gravemente doente” insistiu em desenhar “a última capa do Siné Mensuel“. Foi também no jornal que, na quarta-feira, Siné escreveu o seu último texto, como que adivinhando que o fim estava próximo.

Nessa crónica, intitulada “Irrita-me muito”, o cartoonista falou da doença, da operação “finalmente marcada para hoje, quarta-feira” e da morte que sentia iminente. No texto, agradeceu aos “admiradores incondicionais” e aos “bajuladores loucos”, porque “é bom sentirmo-nos amados nestes momentos maus e desesperantes, difíceis de suportar“.

Uma figura histórica do Charlie Hebdo

Maurice Sinet, mais conhecido pelo nome artístico Siné, nasceu a 31 de dezembro de 1928, em França. Durante a juventude, estudou desenho e artes gráficas, ao mesmo tempo que ganhava a vida como cantor de cabaret. O seu primeiro cartoon veio a público em 1952, no France Dimanche. Três anos depois, ganhou o seu primeiro prémio — o Prix de l’Humour noir, pela sua coleção Complainte sans Paroles.

Depois de alguns anos a trabalhar para uma pequena publicação anti-clerical, o J’y va-t-y j’y Vatican, foi descoberto pelo jornal L’Express, com o qual passou a colaborar enquanto cartoonista político. Sempre envolvido com a política do seu país, os seus desenhos foram sempre marcados por um forte espírito anti-capitalista e anti-clerical. Sempre irreverente, as suas opiniões anti-colonialistas causaram controvérsia durante a revolução argelina, sendo alvo de vários processos jurídicos.

Figura histórica do Charlie Hebdo, juntou-se à equipa do jornal satírico em 1981. Trabalhou para o jornal satírico até 2008, altura em que foi despedido pelo diretor, Philipe Val, acusado de anti-semitismo. Sempre com uma resposta na ponta da língua, Siné não demorou a reagir. Nesse mesmo ano fundou o seu próprio jornal, o Siné Hebdo.

Com a ajuda de 50 colaboradores, entre os quais se contam Christophe Alévèque, Isabelle Alonso, Michel Onfray e Philipe Geluck, Siné conseguiu manter o projeto durante cerca de dois anos. Em 2011, lançou o Siné Mensuel que, de acordo do Le Monde, atravessava dificuldades financeiras. No ano passado, o jornal viu-se obrigado a pedir doações.

Apesar das dificuldades e do desaparecimento de Siné, o jornal não quer baixar os braços. Na publicação desta quinta-feira no Facebook, fez questão de dizer que continuará a luta que o cartoonista começou. “A luta continuará, no Siné Mensuel, de acordo com a sua vontade.”

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