É sempre o mesmo quando há um Mundial de basquetebol: a seleção dos EUA arrasta-se até ao país organizador, sem muito entusiasmo nem afã. Dizem eles que os campeões do mundo são, isso sim, os vencedores do último título da NBA – sejam Lakers, Heat ou Warriors. Qualquer coisa como world champions of the world series, passe o pleonasmo. A arrogância norte-americana é transmitida (e talvez refinada, mas isso é outra conversa) pelos colonizadores ingleses, para quem um particular de comemoração dos 100 anos do campeonato inglês, a 7 de Agosto de 1987, é apelidado de “jogo do século”.

[“Thunderstruck”: há entrada mais electrificante que esta? Não há nem vai haver, ora essa]

Com este marketing very british, a catedral do futebol (não, não é o Estádio da Luz, é Wembley) recebe 70 mil pessoas, ansiosas por ver os melhores jogadores do mundo, divididos por duas equipas. Uma com jogadores da liga inglesa, capitaneada por Bryan Robson e treinada por Bobby Robson. E outra só de estrangeiros, com o argentino Maradona a mandar em Dasaev, Platini, Lineker (inglês que então representa o Barcelona), Elkjaer, Celso (do Porto) e Futre, treinados por Terry Venables, constantemente rodeado por três intérpretes para evitar falhas de comunicação naquela torre de Babel. Nas bancadas, o rei Pelé vê tudo com atenção e entra no relvado para entregar a taça aos vencedores. À equipa da liga inglesa, obvioulsy. Com golos de Robson (23’ e 88′) mais Whiteside (58′). No outro lado, são raros os momentos em que o guarda-redes Peter Shilton é verdadeiramente incomodado. Aliás, a única vez que se sai dos postes é para (tentar) travar Futre. O português dribla-o com uma finta de corpo para a direita e mete a bola para a esquerda. Para fora, portanto. Como resultado, perde ângulo de remate e lá se vai a oportunidade de golo para a seleção do Resto do Mundo. “É pena, o Paulo merece o golo.” Quem o diz é Maradona.

[“You Shook Me All Night Long”: esta noite e a outra e a outra e por aí adiante]

Vem esta conversa a propósito do concerto dos AC/DC, este sábado. Se o futebol reúne Futre e Maradona, dois génios do nosso contentamento, a música tem agora a oportunidade de equilibrar a balança com a guitarra de Angus Young e a voz de Axl Rose. Aqui, em Lisboa, onde começa o tour da banda australiana por essa Europa fora. Segue-se Sevilha, Marselha, Werchter (incluindo Bélgica entre parêntesis porque esta terra não tem uma equipa de futebol de jeito), Viena, Praga, Hamburgo, Berna, Leipizig, Londres, Manchester e Aarhus. Bom, adiante. Ou melhor, recuamos. Para o início da história: Lisboa, 7 de maio de 2016. Ao vivo e a cores, duas figuras inesquecíveis, daquelas do arco da velha, no mesmo palco e ao mesmo tempo. Cada qual com a sua história de vida. Que nem cabe neste espaço infinito em que nos encontramos que é a internet. Daí que me abalanço a falar destes dois génios só e apenas na sua relação com Lisboa.

[“Highway to Hell”: on fire (no Restelo, em 1996, saem labaredas do chão do palco)]

Axl Rose estreia-se em 1992, na noite quente de 2 de Julho. A catedral é o Estádio José Alvalade, numa era em que o presidente Sousa Cintra abre as portas a outros horizontes extra-futebol e promove a loucura com reforços de luxo que não os Balakovs, Valckxs e Paulos Sousas desta vida. Um deles, os GN’R (Guns N’Roses). Antes, só para apimentar a coisa, Soundgarden e Faith No More. Conta a minha mãe, espetadora atenta: se os primeiros fazem a cena do rock de forma burocrática, sem dribles nem empatia com o público, o carisma de Mike Patton arrebita a malta. Canta de joelhos. De gatas. Deitado. Um espetáculo dentro do próprio espetáculo. Seguem-se os cabeças-de-cartaz. Entram às 11 da noite, com “It’s So Easy”. No quadradinho seguinte, há mais Guns que Roses. O público atira garrafas de plástico e Axl escorrega numa delas. Está dado o mote para uma noite imperdível. Axl sai de palco, agastado com o público. E volta, com o aviso “Não vim cá para me magoar.” Mais garrafas voam. E alguns isqueiros, também. Axl sai outra vez. E volta com o apropriado “Patience”. Qual quê, o público está irado. Axl sai uma terceira vez. No regresso, é novamente audaz na escolha musical com “Civil War”. A partir daqui, tréguas. Os Guns N’Roses cantam até ao fim e arrepiam caminho para Madrid (o concerto no Vicente Calderón, casa do Atlético, seria cancelado) sem deixar saudade. Tanto assim é que o semanário Blitz de 7 de julho faz uma montagem de Axl com uma lacinho cor-de-rosa e a exclamação “Maricas!”.

[“Dirty Deeds Done Dirt Cheap”: porque sim, porque faz 40 anos este ano e porque sim, outra vez]

Passam-se uns anos, já estamos a 6 de julho de 1996. Vêm aí os AC/DC e o Restelo enche-se com 30 mil pessoas. Ninguém mete tanta gente lá dentro. Okay, talvez o Papa. É um festim sem igual. Contam os meus amigos de faculdade, espetadores mais ou menos atentos (é uma turma esfumaçada). A primeira parte é de Joe Satriani, brutal. Ou melhor, b-e-r-u-t-a-l. Depois, o incrível, o inimaginável, o fantástico: uma bola xxl embate na parede e aparece Young Angus a dar-lhe como sempre ao som de “Back in Black”. É também o concerto em que há uma passadeira, onde Young se atreve a circular para lá e para cá. Alta voltagem. Isto não é como a nossa seleção no Mundial-86, que se atrasa no envio de aparelhos médicos porque só se apercebe da diferença de volts entre o México (110 V) e Portugal (220 V) no desembarque em Saltillo. México-86, México-86, México-86, país unidos por un balóóóóón, esta música já não nos vai sair da cabeça tão depressa. México-86, o único Mundial de Futre e o mais bem sucedido de Maradona. Olha olha, quem são eles, os world champions of the world series. Como Axl e Angus. Vai ser incrível. Uma voz como a de Axl com o complemento da guitarra de Angus é coisa para entrar na história de Lisboa, quiçá na do Passeio Marítimo de Algés. Acarditem.

[“Back in Black”: é o melhor som de sempre, daí estar guardado para o fim]

Rui Miguel Tovar é jornalista. “Dicionário Sentimental do Futebol” é o seu mais recente livro. Participa semanalmente no programa Grandiosa Enciclopédia do Ludopédio, na RTP3