Rádio Observador

Música

À escuta: quatro álbuns para ouvir esta semana

Um álbum foi uma surpresa, dois saíram com estrondo e um outro é um deleite auditivo. Sugestões para ouvir, de preferência, através de um bom par de colunas ou auscultadores.

Recorte da capa de "Hopelessness" de ANOHNI - o novo nome de Antony, dos Antony and the Johnsons

ANOHNI

Hopelessness

Na música, como na vida, certas transformações nem sempre são fáceis de incorporar. Se mudar de estilo pode ser o suficiente para desviar as atenções, mudar de nome pode ser a receita para o desastre. A salvação, neste caso específico, está em duas coisas que não mudam: a voz e o sentimento.

Vamos por partes. Anohni é o novo nome do artista Antony Hegarty, que conhecemos da banda Antony and the Johnsons. Para melhor compreender a complexidade da mudança, importa fazer uma correção: da artista, não do artista, isto porque Antony Hegarty é transgénero e prefere ser tratado no feminino.

Hopelessness é, portanto, o primeiro álbum a solo de Antony neste ciclo de transformação artística, que contou com a colaboração fundamental de Oneohtrix Point Never e Hudson Mohawke, dois produtores que vestiram a voz de Anohni com música eletrónica. O resultado é um disco muito especial, onde a artista construiu aquilo a que a editora Secretly Canadian chama de “cavalo de tróia”: letras com um forte pendor político, que falam da guerra e de ecologia — o single “4 Degrees” foi anunciado durante a última Cimeira do Clima em Paris.

Anohni abre aqui um novo caminho, despida da suavidade do piano e das sonoridades introspetivas. A música eletrónica é agora a base que assinala uma transformação artística que vai deixar muita gente surpreendida.

Anonhi atua no Coliseu do Porto no próximo dia 21 de junho e no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no dia 22.

Radiohead

A Moon Shaped Pool

A campanha de marketing encetada em torno do lançamento do nono álbum dos Radiohead voltou a agitar todas as redes e órgãos de comunicação social. O “apagão” total dos conteúdos das redes sociais não foi uma esparrela, rapidamente se percebeu que vinha a caminho material novo, o que não se conhecia era o quê e como. “Burn the Witch” abriu o apetite, três dias depois seguiu-se o single “Daydreaming” e finalmente o álbum, editado no domingo passado. Tudo na mesma semana, com a rapidez de um fósforo.

A Moon Shaped Pool foi recebido com (muito) entusiasmo pelos fãs e pela crítica, a banda de Oxford tem estatuto e sabe vender o peixe. É uma mestria que não se resume à estratégia, ela está impressa na música que produzem, porque a cada vez sai uma coisa diferente — são livres, como nem todos conseguem ser. Este mérito ninguém lhes tira.

Produzido por Nigel Godrich, A Moon Shaped Pool resultou num álbum que explora a voz de Thom Yorke como se de um instrumento se tratasse, ela caminha por cima dos (belos) arranjos do guitarrista Jonny Greenwood, sem pressa ou sobressalto. É, também por isso, um disco lento, com mais harmonia na voz e rico em detalhes que entram na pele sem esforço. Se tudo isto fica por lá, já é outra conversa. Cuidado com as expectativas.

Beyoncé

Lemonade

O sexto álbum da super estrela norte-americana foi outro rebate. Lemonade é um disco (e um filme) feito com um secretismo extraordinário, que saiu para a rua com o estrondo da surpresa. Mas não se fica pelo espanto, pelo contrário, está a ser assinalado como um momento de transição, um marco na carreira da mulher que já vive muito longe das Destiny’s Child, hoje os problemas são outros e um deles chama-se Jay Z (o marido).

Lemonade foi anunciado (e de certa maneira, bem) como um grito raivoso contra a infidelidade, mas há nele um lado de afirmação importante. Beyoncé Knowles é uma estrela mas é também, principalmente, uma artista com todas as letras. Ser uma das metades do casal mais famoso da indústria da música serve apenas de pretexto e aperitivo, nesta mistura poderosa, muito bem produzida, com um travo nada azedo ao qual se juntam os créditos musicais de quatro homens: Jack White, The Weeknd, James Blake e Kendrick Lamar. Ironia ou provocação?

Plants and Animals

Waltzed in from the Rumbling

O quarto álbum do trio canadiano tem um nome estranho, não tem o charme de uma valsa (waltz) e está longe de ser uma obra-prima, chega até a ser desequilibrado. Ainda assim, Waltzed in from the Rumbling é uma sequência de canções indie rock que merece tempo de antena, porque há nele um atributo importante: foi construído com um nível de detalhe técnico pouco comum.

Tudo parece estar no sítio, todas as notas, milhões de pormenores, é sem dúvida o álbum mais bem construído pela banda de Montreal. Se tem um bom par de auscultadores, ponha-os a uso. Não precisa de dançar, limite-se a apreciar as coisas pequenas. Como na Natureza, a música também vale por isso.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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