“Barroso apanhado com a mão no Sachs”, Goldman Sachs. O título pertence a uma análise publicada esta terça-feira pelo correspondente em Bruxelas do jornal francês Libération. Não pode ser traduzido à letra, mas o sentido é claro em francês, já que o Sachs (nome do banco de investimentos americano que contratou o ex-presidente da Comissão Europeia) se assemelha à expressão francesa para saco (sac) e pacote (sachet). Uma escolha de palavras que é sintomática do mal-estar que está a provocar na Europa a ida de Durão Barroso para a presidência não executiva do Goldman Sachs International.

Do ponto de vista formal e legal, Barroso não quebrou nenhuma regra, isso mesmo foi já dito pelo porta-voz da Comissão Europeia. O ex-presidente da Comissão cumpriu o “período de nojo” de 18 meses que se aplica atualmente aos ex-comissários europeus. O mesmo já foi feito por vários antigos comissários, mas a contratação de Durão Barroso está a fazer crescer os apelos para uma mudança nas regras de incompatibilidades para evitar futuros conflitos de interesses.

Pierre Moscovici, o comissário europeu socialista que tem o pelouro dos assuntos económicos e monetários, defende, em declarações ao jornal francês, que “não é ilegítimo que um responsável político tenha uma vida profissional no setor privado depois de concluído o mandato”. Desde que as regras da discrição sejam respeitadas, mas essa será uma interpretação que entra já no domínio da política. O comissário francês em Bruxelas, citado pelo Libération, deixa também este remate:

“Neste período de crise, quando o populismo quer dinamitar o ideal europeu e a instituição que o encara, o recrutamento de Barroso pelo Goldman Sachs é chocante e alimenta os ataques contra a Comissão”.

Neste caso, mais do que a contratação do antigo presidente da Comissão Europeia por um grupo privado, o que está em causa nos ataques a Durão Barroso é a entidade que o contratou. O banco de investimentos norte-americano Goldman Sachs está associado à crise do subprime nos Estados Unidos e também ao contágio às dívidas soberanas do euro, muito pela via da engenharia financeira que montou para ajudar o governo grego a “contornar” as regras orçamentais europeias.

Por enquanto, Jean-Claude Juncker mantém o silêncio, mas diplomatas europeus citados pelo jornal americano Político admitem que o sucessor de Barroso não estará muito satisfeito, até porque não foi avisado com antecedência. E no Parlamento Europeu já há quem defenda que o antigo presidente da Comissão seja sancionado ao abrigo do tratado que rege o funcionamento da Comissão Europeia. O artigo 245 diz que os comissários devem respeitar as obrigações que emergem do seu cargo e, quando deixam as funções, têm o dever de se comportar com integridade e discrição no que toca à aceitação de certas nomeações ou benefícios.

“É uma situação verdadeiramente detestável”, sublinha ao Libération o deputado Alain Lamassoure, do Partido Popular Europeu, que lidera a comissão de inquérito parlamentar à evasão fiscal. Lamassoure, que foi apoiante do antigo presidente da Comissão, reconhece contudo que se Barroso tivesse ido trabalhar para um outro banco, que não o Goldman Sachs, “não há dúvida de que isso não teria causado qualquer problema”.

Os deputados socialistas franceses no Parlamento Europeu pediram que fossem adotadas sanções contra o antigo presidente, o que neste caso passaria pela perda da reforma pelos dez anos que descontou enquanto presidente da Comissão Europeia. Barroso, de 60 anos, teria direito a essa subvenção aos 65.

Em 2o15, o ex-presidente tinha renunciado ao subsídio de reintegração a que teria direito durante três anos. Barroso foi contratado pelo Goldman Sachs 18 meses depois de ter deixado as funções em Bruxelas. O contrato com o banco americano prevê que Durão Barroso atue como consultor especial. Barroso vai tomar o lugar que foi ocupado durante 20 anos por outro político europeu, Peter Sutherland, antigo comissário europeu e procurador-geral da Irlanda.

Barroso poderá vir a ganhar até cinco milhões de euros por ano, segundo valores avançados pelo jornal Correio da Manhã, que cita fontes do mercado. O Libération deixa no ar a dúvida. “Nunca saberemos qual vai ser a remuneração que o banco de investimentos vai pagar pela agenda de contactos de Durão Barroso.