Juntem Steven Spielberg, John Carpenter, Stephen King, “Poltergeist”, “X-Files”, “Twin Peaks”, BD de super heróis, clássicos de Clash, Joy Division, New Order e Echo and The Bunnymen (Toto, também), quatro crianças atores absolutamente fenomenais, realização eficiente, argumento inteligente e música original que lembra os devaneios synthwave de Carpenter (outra vez) assinada por um grupo até aqui obscuro (S U R V I V E, são de Austin). Situem a história em 1983, numa cidade imaginária dos Estados Unidos chamada Hawkins e deixem rolar o drama entre referências clássicas de terror e sci-fi, com humor e algum romance (filmes de John Hughes como “Pretty in Pink” também pairam no horizonte). “Stranger Things”, série da Netflix que conquistou o mundo com apenas uma temporada de oito episódios, é isso e muito mais.

Esta é a série que todos os que cresceram (mais ou menos desajustados) na década de 80 precisam para exorcizar fantasmas e reativar sonhos do passado. Até tem Winona Ryder e Matthew Modine, atores fetiche daquela década, em papéis de destaque. No entanto, quem não viveu aqueles dias não vai sentir-se ostracizado. A história e a forma que assume valem por si, não apenas pelas imensas citações feitas. “Stranger Things” agarra, sobressalta, diverte e comove.

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A trama é relativamente simples. Will Byers (Noah Schnapp), um miúdo de 12 anos, desaparece misteriosamente quando regressa a casa de bicicleta, depois de uma maratona de Dungeons and Dragons (um jogo de fantasia em tabuleiro, criado originalmente em 1974). Este é o ponto de partida para uma aventura fantástica que leva Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaiten Matarazzo) na busca do amigo desaparecido, confrontando-se com a luta entre o bem e o mal, as dores de crescimento e o que separa o universo conformista dos adultos dos seus ideais juvenis.

A série foi criada pelos irmãos Ross e Matt Duffer, gémeos nascidos em 1984 que assinaram alguns dos episódios mais interessantes do relativamente inócuo “Wayward Pines”, e “The Hidden”, um thriller psicológico arrepiante em que as crianças são também elemento central. “Stranger Things” mostra bem até que ponto os irmãos Duffer dominam as ferramentas do fantástico, tanto na escrita como na realização e de que forma Stephen King paira como figura tutelar, sobretudo na personagem de Eleven, brilhantemente interpretada por Millie Bobby Brown, que lembra bastante Carrie. O elenco de atores mais jovens, liderado por esta miúda de pouco cabelo e menos palavras, que vive quase exclusivamente da força da expressão facial e corporal, é, de resto, o trunfo mais valioso. Todos queremos ser aqueles miúdos, até porque, como é regra nos filmes de terror, os adultos, ou são ausentes, ou são maus, ou simplesmente não percebem.

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Não é pela novidade ou originalidade que “Stranger Things” nos prende, mas pelo uso extremamente competente de recursos conhecidos e de eficiência comprovada: seres de outra dimensão que usam aparelhos elétricos para comunicar, o mal que se esconde no escuro, a ameaça do invisível, poderes paranormais acompanhados de sangramento do nariz e dos ouvidos, o contexto escolar com bullying, os rituais de iniciação romântica e a sua ambivalência como possibilidade de desgraça e/ou redenção.

Depois há as citações descaradas: cenas em bicicleta decalcadas de “E.T.” de Spielberg, um passeio sobre carris de caminho-de-ferro saído diretamente de “Stand By Me” de Rob Reiner, o chefe da polícia que parece uma mistura de Han Solo e Indiana Jones, posters de “Evil Dead” (Sam Raimi) e “The Thing” (John Carpenter) estrategicamente colocados nos cenários, um ser maléfico que cruza Alien, Predador e o monstro de “Dune”, o papel narrativo de “Sould I Stay Or Should I Go” dos Clash, e uma série de adereços saídos diretamente da máquina do tempo (carros, relógios, máquinas fotográficas, walkie talkies, telefones…). “Stranger Things” está muitos pontos acima da nostalgia anos 80 habitual e culto que se gerou em seu redor prova-o. A Netflix já anunciou que haverá uma segunda temporada (eventualmente, mais) mas ainda não se sabe quando ou em que termos. O que fica destes primeiros oito episódios é um dos melhores exercícios de televisão dos tempos recentes.

Nostálgica, sem dúvida, mas fresca e emocionante como poucas séries, “Stranger Things” revela-se particularmente eficaz quando vista em regime de maratona. De resto, a Netflix sabe que o binge watching (ver vários ou mesmo todos os episódios de seguida) é condição essencial para determinar o sucesso da televisão atual, seja em tipo de ecrã for. Neste caso concreto, mergulhamos melhor no passado se estivermos imersos nele (e chega-se ao fim e quer-se mais).