Um treinador passa semanas a explicar coisas aos jogadores, a praticar jogadas e movimentos, tentar habituá-los, como equipa, a executarem tarefas juntos. Fazer, repetir, insistir e repetir outra vez até que eles saibam o que fazer sem terem que pensar nisso. Para que tudo lhes saia tão automático quanto uma daquelas máquinas de casa de banho, que espirram ar assim que detetam mãos molhadas que precisam de ser secas. Ação e reação, tem de ser assim. Só que o ideal costuma ser agir em vez de reagir, porque quem age tem mais hipóteses de estar um passo à frente do que quem reage. José Peseiro é um destes.

Ele tem fama de ser alguém que faz uma equipa praticar um futebol bonito, se entendermos a beleza no futebol como o gosto por ter bola, por usá-la bem, por passá-la muito e por ter sempre o risco de muitos jogadores se envolverem em jogadas de ataque com muitos passes para a frente e poucos para o lado. Deveria ser isto que Peseiro andou a treinar e cozinhar há mais de um mês, na pré-época, mas os primeiros vinte minutos de temporada não o deixam servir qualquer refeição. Porque os onze jogadores que escolhe para o 4-3-3 da Supertaça são como espetadores que entram em Aveiro sem pagarem bilhete e assistem de perto ao que toda a gente vê.

Porque são vinte minutos em que vê a sua equipa a ser atropelada e não consegue fazer nada. Os médios são forçados a encostarem-se aos defesas. Em que Rafa e Pedro Santos desconhecem o que os ingleses chamam de track back, que em português é recuar e correr atrás dos laterais adversários quando eles atacam. Em que Vukcevic, o médio com melhores pés do Braga, é também o mais lento e sem pernas para a velocidade e o ritmo que o Benfica impõe no primeiro jogo da época. A equipa de Rui Vitória entra a abrir e com tração à esquerda. Grimaldo e Cervi fazem sofrer os adversários pela forma como fazem tudo tão rápido e com a bola colada ao pé. As tabelas saem-lhes, as fintas também, acertam os passes. Dão-se bem um com o outro e com André Horta, o médio que é mais de tratar bem a bola e de a passar do que correr com ela e conduzi-la a abrir como o fazia Renato Sanches.

Os minhotos não respiram. Veem Nélson Semedo arranca com uma tabela com Horta e a cruzar para um domínio de Jonas levar a bola ao braço de um adversário. Não podem com a pressão que o Benfica não faz mal perde a bola, mas executa assim que alguém do Braga recebe um primeiro passe, de costas para a baliza. Fartam-se de recuperar bolas. Cansam-se de correr atrás dela e não pensam como deve ser. Não fazem o que está certo. Como o encosto que Pedro Santos não dá com força em Grimaldo e o deixa dar um passe a Cervi, que sprinta para a área e limita-se a correr em linha reta, rumo à baliza. Ninguém o interceta. Nem Boly, o central que parece uma criança que sabe pouco da vida e cai em todos os engodos, quando desaparece de cena assim que o argentino desvia a bola para dentro e a remata com o pé direito (10’).

O golo sofrido é quase um alívio para os minhotos, que ao menos ficam com uns segundos para descansarem. Nada lhes funciona, nada corre bem, ao não ser o poste que não deixa a bola rematada por Nélson Semedo e desviada pelo corpo de André Pinto entrar na baliza. Até que José Peseiro se cansa de não ver a equipa reagir e decide agir. Troca os três médios e três avançados por um 4-4-2 em losango que melhora a equipa e aproxima Pedro Santos da bola.

O pequeno extremo torna-se em médio atrás de Stojiljković e tenta fazer tudo a sprintar. Acelera a equipa, que atina com o meio campo do Benfica e tenta acelerar tudo o que faz. É por causa de Pedro Santos, que remata com o pé direito (22’) e remata, querendo cruzar, com o pé esquerdo (29’), a obrigar Júlio César a dar uso às luvas e provar como o Braga, aos poucos, começa a respirar com a alteração de José Peseiro. A equipa quase enche os pulmões a segundos do intervalo, quando Goiano explode uma bomba na ressaca de um corte da defesa encarnada e obrigar o guarda-redes brasileiro a voar para impedir a destruição.

Benfica's Argentinian forward Franco Cervi (L) celebrates after scoring a goal during the Portuguese Supercup football match SL Benfica vs SC Braga at the Aveiro Municipal stadium in Aveiro on August 7, 2016. / AFP / FRANCISCO LEONG        (Photo credit should read FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Olha os dois reforços. Foto: FRANCISCO LEONG/AFP/Getty Images)

Estava a ver-se que o Braga queria renascer, dar um taco-a-taco ao jogo, discutir tudo o que se passava. E com a segunda parte a passar, Rui Vitória viu como aqueles vinte minutos à maluca, a dar tudo, se iam virando contra a equipa. Deixou de ser intensa, deixou de reclamar segundas bolas, deixou de pressionar, deixou de mandar. E a cada minuto que passava o Braga ia crescendo e enchendo o peito com os esticões que Rafa dava no jogo. O campeão Europeu que pouco jogou em França teve receções de bola que tornavam o retrato feio para Grimaldo e Luisão e o deixavam com espaço para sprintar rumo à baliza. Os minhotos procuravam-no sempre, mas ele nunca encontrou a baliza.

Nem quando estava aberta, deserta de Júlio César, que escorrega quando foge da baliza para tentar chegar primeiro à bola que Marafona bate na área para as costas de Grimaldo e Nélson Semedo. O pequeno minhoto foi o primeiro a chegar-lhe, a tempo de fintar o guarda-redes, mas sem calma para amansar a bola que remata à rede lateral. Que falhanço (69’). Foi o ponto alto das ameaças do Braga, entre cruzamentos perigosos, jogada que chegavam sempre perto da área e um Benfica que, durante muito tempo, não montava cinco passes seguidos que levassem a bola até aos avançados.

Os jogadores andavam longe uns dos outros, o jogo partia-se, os encarnados pareciam não ter pernas para reagir. Mas tinham pés. E jogadores que sabem o que fazer com eles, como Pizzi, que tratou com algodão um passe após fingir um remate, que isolou Jonas na área. Com dois toques e a cabeça erguida, o brasileiro rematou com jeito suficiente para matar (75’) os ânimos dos minhotos. Eles tentaram manter o ritmo, por gente a passar nas costas de quem tem a bola e a inventar dois para um contra os encarnados. Vukcevic, Mauro e Hassan remataram a bola, a baliza do Benfica tremeu de susto, mas nunca se abanou.

Rui Vitória continuava a ver a equipa algo cansada. Tirou Jonas, Mitroglou e Cervi, manteve Pizzi, que foi da direita para a esquerda para estar no fim de uma jogada que Salvio montou para dar um golo a Jiménez. O mexicano não vestiu um chapéu em Marafona, rápido a sair-lhe aos pés, mas o português colocou um chapéu sobre as cabeças de vários bracarenses, no ressalto. De fora da área, Pizzi picou a bola que entrou na baliza sem que Goiano, o último resistente na linha, lhe tocasse. O golaço matou de vez a final e vaticinou que esta época começa como a anterior terminou — com o Benfica a ganhar e a conquistar e com Pizzi a peça que, muitas vezes, liga tudo.

Ligou tudo em Aveiro, como uma pizza que sai do forno no tempo certo para chegar à mesa e acabar com uma fome desagradável. A assistência e o golo do português surgiram quando o Braga, mesmo sem marcar, ameaçava sufocar um Benfica que se desorganizou com o cansaço e a incapacidade em aguentar a bola para acalmar a partida. Só o fez quando Pizzi saiu do forno e, mesmo com uns encarnados titubeantes na segunda parte, serviu o mesmo que o Benfica deu a comer na última temporada: títulos. Neste caso, foi a sexta Supertaça para o clube.