Restaurantes

Celeiro. Em terra de peixe quem tem carne maturada quer ser rei

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Se a maioria dos restaurantes na Comporta apostam no que vem do mar, o novo Celeiro decidiu jogar com outros trunfos: carne açoriana maturada e a cozinha de um chef que fez escola com Nuno Mendes.

“Aqui na Comporta era muito difícil conseguir comer um bom bife.” Gonçalo Pessoa, 41 anos, responsável pelo hotel/retiro Sublime Comporta, explica desta forma por que razão apostou na vazia açoriana maturada como um dos trunfos do Celeiro, o recém-aberto restaurante do complexo. E completa: “É que peixe fresco, na grelha, todos os outros fazem. E fazem-no bem. Nós quisemos oferecer algo diferente, mas sem sair do que é português e bom.” É justo. E como é que tudo começou?

A casa de férias

Gonçalo apaixonou-se pela Comporta há cerca de 15 anos, quando um amigo o convidou para passar férias na zona. “Logo aí achei que tinha um potencial incrível, e na altura ninguém falava disto”, conta. Tanto gostou que decidiu procurar um terreno para construir uma casa de férias. Não tinha pressa, estava só à espera da oportunidade certa.

Ela apareceu em 2004: um terreno de 17 hectares, que adquiriu, e para o qual pediu licença de construção de uma casa e de um apoio agrícola. “Estava à espera que fosse como em Lisboa, em que as licenças demoram tempo a ser emitidas. E eu queria que demorasse porque na altura, depois de comprar o terreno, não tinha dinheiro para avançar logo com a construção.”

Problema: a Câmara Municipal de Grândola revelou-se de uma eficácia extrema e em pouquíssimo tempo a obra ficou licenciada. Solução: Gonçalo foi renovando a licença de ano a ano, sem construir, até que, em 2011, com esta a expirar, avançou, finalmente, para a obra.

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O Celeiro é uma das novidades do ano do Sublime Comporta, um hotel/retiro construído num terreno de 17 hectares na Muda, entre Comporta e Grândola.
(foto: © Nelson Garrido / Divulgação)

O hotel

“Já tínhamos a ideia de poder rentabilizar a casa de alguma forma quando não estivesse cá”, diz, para explicar que a ideia de fazer um hotel não caiu propriamente de paraquedas. O que aconteceu foi simples: já com as fundações feitas, Gonçalo percebeu que o terreno, pela sua dimensão, pedia algo mais que uma casa de férias. “O turismo estava a chegar à zona, havia cada vez mais procura, vimos aqui uma oportunidade”, recorda.

O projeto inicial foi alterado e Gonçalo perdeu uma casa de férias mas ganhou um turismo de habitação para gerir. E até nem lhe faltava experiência nessa área, mas apenas do ponto de vista do utilizador: por ser comandante da TAP já dormia boa parte do ano em hotéis.

O Sublime recebeu os primeiros hóspedes no verão de 2014, mas com uma configuração diferente da que tem hoje. Durante dois anos, foi composto por apenas dois edifícios, o principal e um anexo, que somavam, ao todo 14 quartos. Este ano, a oferta cresceu. E muito: aos dois edifícios juntaram-se uma série de villas modulares, de diversas tipologias, inspiradas nas típicas cabanas da zona. Villas essas que também estão à venda, chave na mão, com preços a partir dos 750 mil euros. O negócio pode ser feito numa ótica de investimento: na época em que não estiverem a usufruir da casa, os donos destas cedem a sua gestão ao hotel e partilham os lucros.

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O edifício principal do Sublime Comporta.
(foto: © Nelson Garrido / Divulgação)

“90% dos nossos hóspedes são estrangeiros”, afirma Gonçalo, que revela já ter uma lista considerável de interessados nas cabanas. É o resultado da fama da Comporta junto dos mercados francófonos e, mais recentemente, do americano. Aliás, o hotel recebeu recentemente um casal ilustre vindo dos Estados Unidos: os atores Harrison Ford e Calista Flockhart.

O restaurante

Voltemos ao Celeiro. O novo restaurante do Sublime — cujo projeto tem assinatura dos arquitetos José Alberto Charrua e Miguel Câncio Martins (interiores) — é outro dos reforços do hotel para este ano. Abriu no início de julho. “Inspirámo-nos nos celeiros de arroz da Comporta”, diz Gonçalo, para justificar a enorme estrutura em ferro, envidraçada, que conta com uma decoração curiosa: mistura peças de design com velharias compradas ao famoso senhor Júlio, cuja barraca de beira de estrada, a caminho das praias do Pego e Carvalhal, é um clássico da zona. A loiça usada segue o mesmo princípio — tanto se encontram peças Vista Alegre como outras, bem mais coloridas, vindas de uma olaria de São Pedro do Corval, perto de Reguengos de Monsaraz, a capital nacional do barro.

No que ao restaurante diz respeito, a intenção dos responsáveis é equilibrar a percentagem de clientes nacionais e estrangeiros. “E também fazer com que as pessoas tenham vontade de repetir a visita, para experimentar mais coisas”, acrescenta Gonçalo, que explica que o antigo restaurante do complexo “funcionava com menu degustação, tipo fine dining“, logo não convidava à repetição. Daí a vontade de mostrar argumentos, e suprir a tal lacuna de um bom bife. Mas não só: a carta inclui uma série de petiscos e entradas partilháveis, caso dos pastéis de massa tenra (9€), dos chamados croquetes de orelha de coentrada (9€) — na verdade, são mais empadas que croquetes –, ou dos peixinhos da horta (8€). Quem quiser, pode complementar com uma sopa, que também as há: a canja de choco e lingueirão (14€), por exemplo, traz um twist interessante à receita típica.

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Estes são os chamados croquetes de orelha de coentrada. Apesar da designação parecem-se muito mais com empadas. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Nos pratos principais, destaque para as carnes maturadas, de origem açoriana: tanto a vazia (27€), servida fatiada em tábua de madeira, como o costeletão (60€), que alimenta duas pessoas. E as opções não se esgotam aí: sendo este um restaurante alentejano, o porco da terra também tem direito a lugar na mesa, seja a presa (24€) ou as plumas (23€). Da mesma forma, e porque o mar dista a apenas cinco minutos, o peixe também não falta: robalo (28€), garoupa (26€) e uma opção do dia, que dependerá da sorte dos pescadores locais.

A cozinha está a cargo do chef Bruno Caseiro, que fez carreira em Londres como braço-direito de Nuno Mendes, o chef português que ganhou uma estrela Michelin no Viajante e que tem levado, com sucesso, sabores portugueses à capital britânica na sua Taberna do Mercado, além de chefiar um dos hot spots londrinos, o Chiltern Firehouse. “Queríamos uma cozinha próxima daquilo que se faz na Taberna do Mercado e foi o próprio Nuno que nos recomendou o Bruno”, conta Gonçalo. Essa influência faz-se notar, por exemplo na textura e empratamento dos peixinhos da horta, que é semelhante à do restaurante londrino.

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Na garrafeira do Celeiro incluem-se alguns vinhos menos conhecidos da região.
(foto: © Nelson Garrido / Divulgação)

Noutro campeonato, o das bebidas, é importante fazer duas referências. Primeira: o bar de apoio ao Celeiro também merece menção e uma paragem, pré ou pós-refeição, graças ao respetivo design e aos cocktails de assinatura do barman Gonçalo Pinhal, que trabalhou anteriormente no Arena Lounge, em Lisboa. Segunda: na garrafeira encontram-se alguns vinhos menos conhecidos da região, capazes de surpreender os palatos mais rodados. São disso exemplo os Serras de Grândola, produzidos na quinta A Serenada, ou os da Quinta da Areia Safada, vizinha do hotel. Mais não seja porque ambos provam que, apesar da fama, ainda há segredos para desvendar na região.

Nome: Celeiro
Morada: Sublime Comporta, EN 261-1, Muda
Telefone: 269 449 376
Horário: Todos os dias, das 12h às 15h e das 19h às 23h.
Preço Médio: 35€
Reservas: Aceitam
Site: www.sublimecomporta.pt

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