O cinema americano está inflacionado de super-heróis e de anti-heróis. Faltam-lhe heróis tradicionais e verdadeiros, tal como à própria sociedade americana faltam referentes positivos coletivos em todos os seus azimutes, desde a política à cultura. Clint Eastwood tem andado à procura deles na vida real, caso do militar Chris Kyle de “Sniper Americano”, mas esse não era consensual. No seu novo filme, “Milagre no Rio Hudson”, Eastwood celebra um herói de carne e osso cuja proeza uniu os americanos em vez de os dividir e pôr uns contra os outros em debate azedo, e os fez ficar orgulhosos ao invés de envergonhados.

[Veja o “trailer” de “Milagre no Rio Hudson”]

É ele o comandante Chesley “Sully” Sullenberger (Tom Hanks), que na manhã do dia 15 de janeiro de 2009, conseguiu pousar o Airbus de passageiros que pilotava nas águas do rio Hudson, depois de, ao descolar, um bando de pássaros ter colidido com o avião, inutilizado os seus dois motores e impedido Sully e o co-piloto, Jeff Skiles (Aaron Eckhart) de voltarem ao Aeroporto de La Guardia, de onde tinham partido, ou de aterrarem noutro aeroporto nas redondezas. Além de ter salvo os 154 passageiros e tripulantes do seu voo, Sully salvou muitas outras vidas, ao evitar que o avião da US Airways se despenhasse na área metropolitana de Nova Iorque.

[Veja as imagens reais e ouça a gravação original]

Mesmo assim, no inquérito oficial que se seguiu, Sully e o co-piloto foram acusados de irresponsabilidade, por não terem tentado voltar para trás e aterrar em La Guardia ou noutra das pistas disponíveis, e confrontados com simulações virtuais que mostravam isso ser possível. Sully teve que mostrar que os computadores estavam errados, e demonstrou a importância vital do “fator humano” nestas situações de emergência, quando a grande experiência, o sangue-frio, a capacidade de decisão no momento e a perícia consumada de uma pessoa podem fazer toda a diferença, e evitar uma catástrofe quase certa.

[Veja o vídeo do avião no rio Hudson]

Para Clint Eastwood, Sully é um herói-modelo da vida real, a cujas qualidades profissionais, fruto de mais de 40 anos a pilotar aviões militares e civis, se juntam as pessoais. É um homem modesto e discreto, bom marido e pai de família, cuja responsabilidade está, primeiro e acima de tudo, para com aqueles que transporta e comanda. E este indivíduo excecional, logo a seguir ao seu feito, partilhou os louros com todos aqueles que acorreram ao avião que flutuava no Hudson, das tripulações dos “ferries” aos mergulhadores da polícia, e ajudaram a recolher passageiros e tripulantes das asas e das balsas de borracha do Airbus, e das águas geladas do rio. É perfeitamente natural que o “homem da rua” o aclame e reconheça como estando em contraponto aos Madoff e outros da mesma laia, como sucede na sequência com o condutor da limusine.

[Veja a entrevista com Clint Eastwood]

E não é que Sully não viva momentos de dúvida e de ânsia durante os trabalhos da comissão de inquérito, interrogando-se sobre se terá mesmo tomado a decisão certa. Mas o que o caracteriza é a crença em si mesmo e nas suas capacidades. O verdadeiro herói, diz o realizador, é também aquele que consegue ultrapassar as suas angústias, suportar o choque sentido e afirmar as suas certezas. Claramente, o comandante Chesley Sullenberger não pertence à geração de “pussys” que Clint Eastwood verberou em entrevista recente à “Esquire”.

[Veja a entrevista com Tom Hanks]

Eastwood rodou “Milagre no Rio Hudson” com um domínio da narrativa igual ao de Sully sobre os jatos que pilota, e uma eficácia tão discreta como a dele, fruto de uma longa experiência no mundo dos filmes, como ator e realizador. Mesmo que fuja à convenção de filmar linearmente o acidente e tudo o que aconteceu a seguir, preferindo quebrar a cronologia, desdobrar-se em vários pontos de vista e introduzir até sequências “alternativas” (evocando memórias terríveis do 11 de Setembro), onde o comandante imagina o que teria acontecido se não tivesse pousado o avião no rio. Clint Eastwood, o último herdeiro da escola clássica do cinema americano, mete uma jiga-joga temporal no meio do filme (rodado em IMAX e onde os efeitos digitais servem a história em vez de se lhe sobrepor) e não só encaixa perfeitamente, como lhe intensifica o drama e enriquece a estrutura.

[Veja uma entrevista com o verdadeiro Sully]

https://youtu.be/7YLcQjwonGM

É ainda um regalo ver como se dão tão bem, em “Milagre no Rio Hudson”, um Republicano conservador como Clint Eastwood, e um Democrata progressista como Tom Hanks, no seu primeiro filme juntos. Que outro ator senão Hanks (bem coadjuvado por Aaron Eckhart, não esqueçamos) poderia personificar este herói tirado ao anonimato, este profissional de exceção, tão humana e sensivelmente credível nos momentos de heroísmo como naqueles em que é assaltado pela dúvida, e depois na altura de afirmar e demonstrar que está, que sempre esteve certo? Com Clint Eastwood e Tom Hanks aos comandos, “Milagre no Rio Hudson” é, apesar da turbulência da história, uma viagem em Executiva cinematográfica.

[texto corrigido às 13h50]