Com a Câmara dos Representantes vista como perdida para os democratas, o Partido Republicano adotou uma estratégia de contenção de danos, numa tentativa de manter, pelo menos, o controlo do Senado nas eleições intercalares marcadas para a próxima semana. O Presidente dos EUA, Donald Trump, tem-se multiplicado em deslocações a vários estados — para participar em comícios de apoio aos candidatos republicanos — mas o sprint final de Trump poderá não ser suficiente para evitar a derrota, mesmo em estados onde vencera confortavelmente as presidenciais de 2024.
Neste momento, os democratas têm 47 lugares no Senado, contra 53 dos republicanos. No dia 3 de novembro, estarão em disputa 35 dos 100 lugares da Câmara alta do Congresso, sendo que, para recuperar o controlo do Senado, o Partido Democrata precisa de defender os lugares que tem em disputa (13) e conquistar pelo menos quatro lugares aos republicanos. Por outro lado, os republicanos precisam apenas de manter os lugares que têm, podendo perder até três disputas. Eis as dez corridas que vão determinar o controlo do Senado, em estados como o Texas, Michigan, Carolina do Norte ou Ohio.
Geórgia
Num estado que tradicionalmente balança entre candidatos republicanos e democratas, a eleição do lugar para o Senado não deverá trazer grande surpresa. O senador democrata, Jon Ossoff, está a fazer uma campanha sólida e tem uma vantagem confortável nas sondagens (de cerca de oito pontos percentuais) sobre o republicano Mike Collins. A média das últimas sondagens, divulgada pelo MS Now, dá a Ossoff 51,6% dos votos, ao passo que Collins recolhe pouco mais de 43%.
Considerada um estado-batalha, a Geórgia deu a vitória a Donald Trump nas eleições presidenciais de 2024, mas o estado é representado no Senado por dois democratas (por Jon Ossoff, que tenta a reeleição, e Raphael Warnock). Por outro lado, os republicanos controlam o Senado e a Câmara dos Representantes estaduais, e o governador, Brian Kemp, é também republicano.
▲ Republicano Mike Collins, apoiado por Trump, está em desvantagem nas sondagens no estado da Geórgia
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A campanha de Ossoff (que tem sido elogiado pela qualidade dos vídeos, que se têm tornado virais (5,8 milhões de euros), enquanto Ossoff já tinha mais de 77 milhões de dólares (68 milhões de euros).
Carolina do Norte
Noutro swing state, a Carolina do Norte, que não elege um senador democrata desde 2008, o dia 3 de novembro poderá marcar uma rutura: o ex-governador democrata Roy Cooper lidera as sondagens com uma confortável vantagem (de 10 pontos percentuais) sobre o republicano Michael Whatley, que tem o apoio incondicional de Donald Trump.
Roy Cooper não é um desconhecido para a população da Carolina do Norte, o que lhe pode dar uma vantagem decisiva: foi eleito governador pela primeira vez em 2016 e reeleito em 2020 — vencendo a eleição enquanto Trump conquistava a presidência.
Para além disso, Cooper beneficia do facto de o atual senador republicano Thom Tillis não se candidatar à reeleição. Tillis anunciou que não iria concorrer em junho do ano passado, quando criticou duramente a política de aumento da despesa da administração Trump. O presidente dos EUA atacou-o de imediato, chamando-lhe “falador” e “queixinhas”. “Não é um fazedor”, escreveu Trump.
Alasca
No Alasca, um estado tradicionalmente ‘vermelho’, a ex-congressista Mary Peltola, do Partido Democrata, surge ligeiramente à frente do senador republicano Dan S. Sullivan (que tenta a reeleição), por dois pontos percentuais, segundo a média das últimas sondagens. Peltola foi a primeira nativa a representar o Alasca no Congresso, em Washington.
▲ A democrata Mary Peltola tenta a eleição no Alasca, um estado tradicionalmente republicano. E lidera as sondagens
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A vantagem de Peltola (uma democrata da ala moderada do partido) não é uma surpresa: a candidata já tinha ficado sete pontos à frente de Sullivan nas primárias realizadas em agosto — o estado do Alasca tem um sistema eleitoral diferente, em que os candidatos ao Senado são escolhidos através de primárias e têm de ser ordenados no dia da eleição, a 3 de novembro.
Num estado distante da capital federal, em que as diferenças ideológicas entre republicanos e democratas são tradicionalmente menos vincadas, Mary Peltola (filha de mãe yup’ik, povo indígena do Alasca) é vista como uma acérrima defensora dos interesses do povo do Alasca. Quer acabar com a pesca de arrasto de forma a proteger os pescadores locais, sendo o lema de campanha “Peixe, Família e Liberdade”. Defende ainda a exploração das reservas de petróleo do estado, de forma a baixar o preço da energia.
Para mostrar que se quer distanciar da política de Washington, Peltola recusou o apoio da última candidata presidencial democrata, Kamala Harris.
Maine
No Maine, a senadora republicana Susan Collins — que representa o estado desde 1997 — pode ter a reeleição em risco. Collins tem tentado distanciar-se de Donald Trump (num estado que não vota num candidato presidencial republicano há mais de 20 anos) mas a tentativa de separar a corrida ao Senado do problema do aumento do custo de vida está cada vez mais árdua.
Num debate este mês, frente ao democrata Troy Jackson (que lidera as sondagens), Collins pediu a confiança da população para poder isentar o sal para as estradas (essencial num território com invernos agrestes) de taxas de importação a partir do Canadá. Jackson não perdeu a oportunidade: “E quanto ao aumento de preço de tudo o resto? Não podemos comer o sal para as estradas”. O momento tornou-se viral e serviu para a campanha democrata capitalizar nas redes sociais, atacando a experiente senadora do Maine.
▲ O democrata Troy Jackson pode retirar o lugar à histórica senadora Susan Collins, no Maine
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Jackson tornou-se o candidato democrata apenas este verão, após meses tumultuosos para os democratas do Maine: o vencedor das primárias, Graham Platner, desistiu da corrida após ser acusado de agressão sexual. A média das sondagens mostra ligeiramente à frente de Susan Collins (com cerca de dois pontos percentuais de vantagem), mas a corrida está completamente em aberto.
Michigan
A grande batalha ideológica das intercalares poderá estar no Michigan. As esperanças do Partido Democrata estão depositadas em Abdul El-Sayed, um médico muçulmano e progressista e ex-diretor de saúde pública do Condado de Wayne, que tem liderado as sondagens com uma campanha enérgica e com a presença de figuras de relevo da ala esquerda dos democratas, como a congressista Alexandra Ocasio Cortez.
Contra todas as expectativas, El-Sayed derrotou, nas primárias, a democrata Haley Stevens — que contou com o apoio do líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, e também da cúpula do partido no estado, isto é, do senador Gary Peters, e da governadora Gretchen Whitmer.
A vitória de El-Sayed nas primárias foi inicialmente vista com bons olhos pelos republicanos, que consideravam que um candidato progressista (e que defende, por exemplo, o fim do apoio militar a Israel) poderia retirar força à candidatura democrata. Mas não foi isso que aconteceu. A candidatura de El-Sayed vem em crescendo, e a vantagem nos estudos de opinião sobre o republicano Mike Rogers é considerada sólida. A média das sondagens aponta para uma vantagem de três pontos percentuais para El-Sayed.
▲ A candidatura do democrata Abdul El-Sayed vem em crescendo no Michigan, e a vantagem nos estudos de opinião sobre o republicano Mike Rogers é considerada sólida
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Este domingo, Donald Trump esteve no Michigan num comício de apoio a Mike Rogers. Antes, na rede social Truth Social, classificou El-Sayed como um “jihadista membro da Irmandade Muçulmana — um homem que jamais deveria ter permissão para entrar nos corredores do nosso grande e belo Capitólio, em Washington, D.C”. “Abdulrahman Mohamed El-Sayed quer que o nosso país adote a lei da Sharia. Se isso acontecer, ele deveria ser o primeiro a testar”, escreveu o Presidente dos EUA.
New Hampshire
No pequeno New Hampshire, quando a histórica senadora democrata Jeanne Shaheen anunciou, ainda em 2025, que não se iria recandidatar, os democratas temeram problemas para manter o lugar no Senado por este estado do nordeste dos EUA. A escolha recaiu sobre o congressista democrata Chris Pappas, que tem, no entanto, um desafio pela frente: uma dinastia política. Isto porque o candidato republicano nestas eleições é o ex-senador John Sununu, irmão do ex-governador do New Hampshire Chris Sununu e filho do ex-governador John H. Sununu.
Mas Pappas também não é um desconhecido: o negócio da família Pappas é uma instituição em Manchester (a maior cidade do estado). O político e a família são donos do Puritan Backroom, um restaurante em que existe desde 1917 e que se vangloria por ter inventado o frango panado.
Embora os dois últimos governadores do estado de New Hampshire tenham sido republicanos, o partido não elege um senador por este estado desde 2010. E pode não ser este ano: as sondagens mostram uma vantagem para Chris Pappas, em torno dos sete pontos percentuais.
Iowa
No Iowa, um estado do midwest fortemente atingido pelas consequências da política económica de Trump, ninguém arrisca fazer previsões, tal a proximidade entre os dois candidatos nas sondagens. Os estudos de opinião dividem-se: a congressista Ashley Hinson, republicana, surge à frente nalgumas sondagens; noutras toma a dianteira o congressista democrata Josh Turek.
Num estado em que os republicanos ganham as eleições presidenciais desde 2016, e onde controlam o congresso estadual e o governo local, os candidatos sabem que os votos dos cerca de 570 mil eleitores registados como independentes podem ser decisivos para as contas finais. A oportunidade para os democratas ‘roubarem’ um lugar aos republicanos no Senado existe, tendo sido impulsionada pela aposentação da senadora republicana Joni Ernst, que decidiu retirar-se da vida política.
▲ O democrata Josh Turek tenta levar a melhor no Iowa, atraindo o eleitorado independente. Trump vai fazer campanha pela adversária
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Vendo um bastião seu ameaçado, Donald Trump prevê terminar a ronda de comícios precisamente no Iowa, no próximo domingo, para apoiar Ashley Hinson. Aliada de longa data do Presidente dos EUA, Hinson tem, no entanto, protagonizado momentos de discordância pública com Trump, como quando, em setembro — e cerca de uma semana depois de ter votado contra o fim da guerra no Irão — escreveu no X que “os cidadãos de Iowa estão a ser explorados e não deveriam ter que pagar a conta na bomba de gasolina ou no caixa do supermercado por causa da guerra no Irão”.
Texas
No Texas, o congressista estadual James Talarico lidera a corrida para o Senado com uma vantagem de três pontos percentuais na média das sondagens frente ao republicano Ken Paxton, o procurador-geral do Texas, que se tem visto sucessivamente envolvido em polémicas nos últimos anos (nomeadamente quando tentou anular resultados eleitorais em vários estados para tentar impedir a vitória de Joe Biden em 2020 ou quando enfrentou um processo de destituição — impeachment — em 2023, por suspeitas de corrupção).
O estado não elege um democrata para o Senado desde 1988. O partido esteve perto de o conseguir em 2018, quando o ex-congressista Beto O’Rourke perdeu para o senador Ted Cruz por cerca de três pontos percentuais. A partir daí, os republicanos têm consolidado o domínio num estado que é historicamente conservador.
No entanto, a disputa entre Talarico e Paxton está totalmente em aberto, em grande parte devido às eleições primárias dispendiosas e desgastantes do lado republicano. O procurador-geral Ken Paxton derrotou o senador John Cornyn, mas não sem antes ter gasto mais de 120 milhões de dólares (107 milhões de euros).
▲ O Texas não elege um senador democrata há quase 30 anos. James Talarico quer mudar essa tendência e lidera as sondagenss
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A campanha no Texas tem sido marcada por trocas de acusações entre os dois candidatos. Ken Paxton acusou o adversário de apoiar cirurgias de mudança de sexo em crianças e de ser membro do Partido Comunista Chinês. “Não, eu não sou membro do Partido Comunista Chinês. Não, eu não apoio cirurgias de mudança de sexo para crianças”, apressou-se a desmentir James Talarico, acusando Paxton de usar vídeos com Inteligência Artificial para “mentir”. Um dos temas que tem dominado a campanha é a batalha judicial, que envolve as duas candidaturas, em torno da divulgação de depoimentos feitos pelo procurador-geral do Texas sobre o seu envolvimento num esquema de fraude com ativos imobiliários. A campanha de Paxton defende que os depoimentos, feitos sob juramento, não podem ser divulgados publicamente.
Uma eventual derrota de Paxton no Texas — um estado fortemente republicano — representaria uma derrota para Donald Trump, que tem demonstrado forte apoio ao candidato na corrida ao Senado, um apoiante de longa data.
Ohio
Também surpreendente é a vantagem do democrata Sherrod Brown noutro estado tradicionalmente republicano, o Ohio. O ex-senador, que quer voltar a Washington, está quatro pontos à frente do incumbente (o senador republicano Jon Husted, que tenta ser reeleito) na média das sondagens.
Num dos maiores estados do país, e bastante diverso, os centros de dados têm figurado como um ponto crucial para ambas as campanhas. Sherrod Brown refere-se frequentemente ao seu oponente como o “rosto dos centros de dados” no Ohio, o que considera negativo para os eleitores, porque, diz, a construção destes centros vai fazer aumentar o preço da energia para as famílias.
Se quiser ser eleito, Brown vai ter de contrariar a história recente. O Ohio não elege um democrata para um cargo executivo estadual desde 2008, e Trump venceu no estado nas últimas três eleições presidenciais.
Kansas
No Kansas, um dos estados mais ‘vermelhos’ do país (e que não elege um senador democrata desde 1932), a reeleição do senador Roger Marshall pode estar em risco. A média das sondagens aponta para um empate entre o médico ginecologista e obstetra e o candidato democrata, Adam Hamilton. A proximidade de Marshall a Trump é um fator negativo para o senador, com metade dos eleitores a referir temer que Marshall apoie demasiado o Presidente norte-americano, numa recente sondagem do New York Times.
▲ O médico obstetra Roger Marshall está mergulhado em polémicas e em empate técnico com o democrata Adam Hamilton no Kansas
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Para além disso, o senador Roger Marshall foi apanhado numa polémica em setembro, que se tornou um tema central da campanha, depois de uma investigação jornalística ter revelado que Marshall avançou com processos contra mais de 700 pacientes por dívidas em atraso, o que levou à prisão de pelo menos 81 deles. Noutros casos, o senador instruiu os advogados a pedir a penhora de salários de pacientes que não pagaram operações e outros procedimentos médicos, bem como partos. A maioria das mulheres que tinham acabado de ser mães morava no Condado de Barton, uma área rural do estado com taxas de pobreza e de pessoas sem seguro saúde acima da média. O caso é particularmente relevante, uma vez que o senador exaltava frequentemente o trabalho realizado enquanto médico como trunfo de campanha.
[Em dezembro de 2009, uma mulher é encontrada assassinada a tiro no estado do Rio de Janeiro. A polícia brasileira há-de confirmar que o corpo é de Rosalina Ribeiro, a herdeira de um milionário português, que tinha sido dada como desaparecida. A última pessoa conhecida a vê-la com vida tinha sido o advogado português dela, o ex-deputado e antigo líder parlamentar do PSD Domingos Duarte Lima. Já pode ouvir, em antestreia, o primeiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]