Quando Jorge Silva Melo propôs a Ruben Gomes protagonizar “O Rio”, de Jez Butterworth, o ator não hesitou. Mesmo antes de ler o texto, disse logo que sim. A relação de trabalho com o encenador e Os Artistas Unidos já é longa, nos últimos anos fizeram “Gata em Telhado de Zinco Quente” e “Doce Pássaro da Juventude”, de Tennessee Williams. “Ele disse-me que tinha visto uma peça linda e que queria que eu a fizesse, achava que era uma peça para mim. Aceitei logo, não só por confiar nele mas pela forma como ele disse aquelas palavras. Depois li a peça e percebi. Foi um turbilhão de emoções, inacreditável. Não sei se já me teria acontecido com alguma peça antes. A peça é, tal e qual como disse o Jorge Silva Melo, linda. Apaixonei-me logo”, diz ao Observador Rúben Gomes.

“O Rio”, de Jez Butterworth, estreia-se esta quarta-feira, 14, no Teatro da Politécnica (ficando em cena até 22 de Outubro), encenada por Jorge Silva Melo e protagonizada por Rúben Gomes, Inês Pereira, Vânia Rodrigues e Maria Jorge. Um Homem e uma Mulher estão numa cabana junto a um rio. É o primeiro fim-de-semana a dois. Ela quer ver o pôr-do-sol, ele atarefa-se a juntar o material de pesca. É noite de lua nova, fim de verão. O rio será invadido pelas trutas mariscas, algo que só acontece uma vez por ano. É preciso aproveitar. Saem para a pescaria e é então que tudo se precipita.

O homem regressa sozinho. Liga à polícia, a mulher desapareceu. Está em pânico. Até que uma voz se escuta ao longe. É ela. Mas será? A mulher que aparece à sua frente é Outra Mulher e é então que o jogo começa. As duas Mulheres confundem-se, trocam a cada cena, ora está uma à frente do homem ora está outra, uma sai para tomar banho, a outra regressa a secar o cabelo. A ação prossegue e a interrogação paira no ar: passado e futuro? Presente? Memória? Sonho? Fantasmas? Quantas mulheres estiveram, afinal, naquela cabana a escutar juras de amor?

“Um Homem. Não tem nome. E é a primeira vez que traz a sua nova namorada ao refúgio onde há anos se isola para pescar, uma cabana perto de um rio, que herdou de um tio, lugar masculino, lugar da virilidade. A pouco e pouco percebemos que houve Outra Mulher, que a cena que vemos repete momentos já vividos, que naquela casa há a memória de uma outra mulher. Houve mortes, houve separações, o Rio é a vida que vai passando, acumulando encontros, amores, desencontros. Mas, como as personagens, nós ‘não sabemos ao certo o que é o amor.’ Tentei ser o mais certeiro que consegui, dar tempo, dar tempo às falas, dar tempo à escuta. Isso interessa-me; estamos num refúgio do turbilhão da vida, estamos num local onde é possível amanhar um peixe, cozinhá-lo, comê-lo, beber whiskey. E a peça é dolorosa”, diz ao Observador Jorge Silva Melo.

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“Hoje fiquei com a sensação de que nada disto é no presente. O que vai de encontro ao poema do T. S. Eliot que está no início da peça, uma dança que fica entre o passado e o futuro, é nesse ponto morto do mundo que existe a dança. Se calhar é isso que lhe acontece”.

Palavras de Rúben Gomes, que a cada ensaio muda de ideias, com novas portas a abrirem-se a novas interpretações. “As hipóteses são infinitas. E isso é a delícia do teatro”.

Sobre essas várias interpretações possíveis, diz o ator, não houve grandes conversas. “Limitámo-nos a fazer. Desconfio que lá para meio vamos começar a debater essas questões entre nós. Mas nem sequer penso nisso. Quero fazer o que está escrito. Essa é a prioridade”. O resto fica para quem vem ver. “A nós também nos toca alguma coisa, muito até, mas não fazemos questão de responder, não é essa a nossa missão. A nossa missão é contar o que aconteceu. Da melhor maneira possível.”

As pessoas certas

“Descobri esta peça há uns três anos”, conta Jorge Silva Melo, que tinha pensado fazer a peça anterior – e mais conhecida — do autor, “Jerusalém”. Mas a necessidade de espaço – como é que se coloca uma roulotte dentro do Teatro da Polítécnica? — e a idade das personagens fê-lo desistir. “Quando soube que Butterworth tinha nova peça, esta “O Rio”, e com poucas personagens, interessei-me logo. E mal tinha acabado de ler a segunda cena, mandei um e-mail ao Rúben Gomes: ‘descobri uma peça para fazermos, mais uma!’ Ele disse que sim, sorte a minha. Depois, foi um ano e tal para negociar direitos, fazer tradução, marcar datas certas. Creio que é a primeira vez que Butterworth é representado fora da língua inglesa. E ele é um autor muito preciso, a sua prosa (ou poesia? nesta peça não sabemos…) é muito exata. Creio que foi o facto de ser a primeira vez que é representado fora do inglês que fez com que as negociações de direitos demorassem tanto tempo. Por mim, acho que foi o facto de nos saber próximos de Harold Pinter, de quem foi amigo nos últimos anos de vida, que num instante desbloqueou o impasse. Sim, Butterworth tem uma escrita muito exigente, poética, enigmática. Que eu adoro.”

Depois foi uma questão de encontrar o elenco para a fazer. O que não foi difícil. O nome de Rúben Gomes, diz Silva Melo, surgiu logo nas primeiras páginas. “Há seis anos que trabalho com o Rúben, adoro a sua integridade. É masculino, seco, não é sentimental, é um ator do caraças. E é O Homem.”

Vânia Rodrigues também tem sido, a par de Rúben Gomes, presença regular na Politécnica, tendo feito “Doce Pássaro da Juventude” e dado corpo à frágil Laura em “Jardim Zoológico de Vidro”. Depois dessas personagens, o encenador achou que seria um desafio dar-lhe esta A Outra Mulher, “irónica, intelectual, desprendida, magoada mas serena (será que já morreu?, perguntamo-nos). Adoro atores e ver como eles têm segredos e conhecem dentro de si pessoas que nós não sabíamos. A Vânia faz tudo, conhece qualquer pessoa”. Inês Pereira estreou-se agora na Politécnica, “recomendada” a Silva Melo pelo também encenador Ricardo Neves-Neves. “Tinha razão, o malandro. A Inês é uma atriz com um grande potencial, clara, serena, direta”.

Talvez passe também a presença regular, como Rúben Gomes, que só não faz mais peças na Politécnica, diz, por falta de tempo.

“Anos antes de sequer pensar que um dia pisaria este palco, os Artistas Unidos eram uma companhia que eu ia ver. É engraçado. Sempre gostei dos espetáculos, identificava-me com a maneira de trabalhar, pelo menos com o resultado. Depois, por uma sorte qualquer dos astros vim cá parar Felizmente. Gosto de habitar aqui”.

São boas as personagens que lhe têm calhado. “Dão-me a oportunidade de ir mexer na minha arca, no meu baú, e trabalhar com coisas que a vida me forneceu. É bom darem-nos estes personagens para podermos brincar com todas essas coisas”. Em comum, têm todas o tempo. “Como é que o tempo pode não estar presente? Tem de estar. Mesmo que nos encontremos no ponto morto do mundo, o tempo passa na mesma”.

No Teatro da Politécnica, em Lisboa, de 14 de setembro a 22 de outubro; 3ª e 4ª às 19h, 5ª e 6ª às 21h, sáb. às 16h e às 21h; bilhetes a 10 euros; mais info aqui.