Paul Beatty, autor do romance The Sellout, é o grande vencedor do Man Booker Prize de 2016, um dos mais importantes prémios literários de língua inglesa. Beatty, de 54 anos, é o primeiro norte-americano a receber o galardão, no valor de 50 mil libras (cerca de 56 mil euros).

No discurso de entrega do prémio, que decorreu no edifício Guildhal, em Londres, o autor, emocionado, admitiu que “não estava mesmo nada à espera disto”. “Não quero ser dramático e dizer que a escrita me salvou a vida, mas a escrita deu-me uma vida”, disse Beatty.

The Sellout, publicado pela Oneworld, uma pequena editora independente, é uma sátira sobre as relações raciais na América dos dias de hoje narrada da perspetiva de uma personagem, Bonbon, um afro-americano que quer afirmar a sua identidade trazendo de volta a escravatura e segregação. O romance foi descrito pelo New York Times como um “caldeirão multicultural metafórico, quase demasiado quente para se conseguir tocar”. Já o Wall Street Journal comparou a obra de Beatty com a de Jonathan Swift, autor da sátira As Viagens de Gulliver, uma opinião que parece ter sido partilhada pelo júri do Booker.

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Descrevendo-o como “um romance dos nossos tempos”, Amanda Foreman, presidente do júri deste ano, afirmou que “The Sellout é um daqueles livros muito raros que consegue pegar na sátira — que é um género muito difícil e nem sempre bem conseguido — e atirá-la para o coração da sociedade norte-americana contemporânea com uma perspicácia selvagem que não vejo desde Swift ou Twain”. Apesar de The Sellout poder ser difícil de digerir, a historiadora salientou que a “ficção não deve ser confortável” e que “a verdade raramente é bonita”.

Além do prémio de 50 mil libras, Beatty irá receber 2.500 libras por ter sido escolhido para a shortlist, anunciada em meados de setembro. A concurso estavam outros dois norte-americanos — Otessa Mosgfegh, com Eileen, e David Szalay, com All That Man Is. A lista dos seis finalistas incluía ainda os britânicos Deborah Levy, com Hot Milk, e Graeme Macrae Burnet, com His Bloody Project, e a canadiana Madeleine Thien, autora de Do Not Say We Have Nothing.

Na altura, Amanda Foreman explicou que os seis finalistas refletiam “a centralidade do romance na cultura moderna — na sua habilidade de defender o que não é convencional, de explorar o desconhecido e de tocar em temas difíceis”.

No ano passado, o galardão foi atribuído ao jamaicano Marlon James, autor de A Brief History of Seven Killings (ainda sem tradução em português), também publicado pela Oneworld. A obra, em torno da tentativa de assassinato de Bob Marley em 1976, conquistou o júri apesar da linguagem forte e das descrições de violência.

Foi a primeira vez que um autor jamaicano ganhou um Man Booker Prize, o que só foi possível com a mudança das regras de atribuição em 2014. A partir desse ano, o Man Booker passou a estar disponível a qualquer escritor que tenha visto a sua obra publicada, em inglês, no Reino Unido. Esta alteração permitiu que os autores norte-americanos, como Paul Beatty, também pudessem concorrer.