A história é conhecida: em junho de 1914, três meses depois do surgimento de Alberto Caeiro, Fernando Pessoa fez nascer um outro poeta, de “índole pagã”, a que chamou Ricardo Reis. Ao contrário do seu Mestre Caeiro, Reis continuou a existir quase até à morte de Pessoa, a 30 de novembro de 1935. O seu último poema, “Vivem em nós inúmeros”, é de dia 13 desse mês.

Como em Pessoa, em Reis também viveram “inúmeros”. Primeiro foi lisboeta, depois portuense. Neoclássico quase desde a nascença, opôs-se ao Integralismo Lusitano, à República e exilou-se no Brasil. Depois de conhecer Alberto Caeiro — com quem planeou “iniciar uma renascença neoclássica na Europa”–, dedicou-se a prefaciar a sua obra. Defensor da obra perfeita de John Milton, escreveu odes ao jeito de Horácio e prosa sobre sexualidade, ciência e religião. Foi um autor de múltiplas facetas que surgem, pela primeira vez, reunidas num só volume.

Obra Completa de Ricardo Reis, o mais recente livro da Coleção Pessoa da Tinta-da-China, dirigida por Jerónimo Pizarro, é a primeira edição portuguesa a reunir cronologicamente toda a prosa e poesia de Reis, completando assim a trilogia das obras integrais dos três principais heterónimos pessoanos — Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis. (Pela Tinta-da-China, encontra-se ainda editado o Livro do Desassossego, do semi-heterónimo Bernardo Soares).

Ricardo Reis

A edição é de Jerónimo Pizarro, responsável pela Coleção Pessoa da Tinta-da-China, e de Jorge Urbe

“Não consentem os deuses mais do que a vida”. O nascimento de Ricardo Reis

A data do primeiro poema escrito por Fernando Pessoa sob a pena de Ricardo Reis, “Mestre, são plácidas”, é clara: 12 de junho de 1914. Porém, tudo leva a crer que Reis andaria na cabeça do poeta há muito mais tempo, provavelmente desde 1912, como acredita Richard Zenith. Mas para o pessoano Jerónimo Pizarro — que editou o volume da Obra Completa de Ricardo Reis com Jorge Uribe (responsável pelas edições da Obra Completa de Álvaro de Campos e do Sebastianismo e Quinto Império da Tinta-da-China), o que é interessante não é a data de nascimento da obra, mas a data de nascimento do próprio Reis.

O heterónimo é referido pela primeira vez num texto de 29 de janeiro de 1914, intitulado “Vida e Obra”, vários meses antes de o primeiro poema de Reis ter surgido. Aí, Pessoa explica que a ideia para um teórico neoclássico terá surgido depois de ter ouvido “uma discussão sobre os excessos, especialmente de realização, da arte moderna”. “Então achou interessante desenvolver uma teoria neoclássica ‘segundo princípios’ que não adotava nem aceitava”, explicou Pizarro.

Esse texto, juntamente com o primeiro poema e a famosa carta sobre a génese dos heterónimos enviada a Adolfo Casais Monteiro a 13 de janeiro de 1935, dão a entender que Pessoa “imaginou mais de uma data de nascimento para Reis”. “Reis foi primeiro um processo e depois, em 1914, um acontecimento”, salientou o investigador ao Observador.

“Quando é que surgiu plenamente? Talvez no seu próprio mês triunfal de julho. Porém, isso significa que Pessoa inventou uma história no ‘Vida e Obra’, o que é muito provável.”

Ou seja: como Alberto Caeiro e outros heterónimos, Reis também foi sendo construído. “Em volumes anteriores, insisti muito (até porque a organização de cada livro é cronológica) num ponto muito simples: Caeiro, Campos e Reis foram-se transformando com o tempo”, frisou Pizarro, não só literariamente, mas também biograficamente.

“Campos e Reis eram inicialmente lisboetas. Mais tarde, o primeiro tornou-se tavirense e o segundo portuense. Quer as datas — necessárias para os horóscopos — quer as características — necessárias para a nossa imaginação — não foram imediatas e, até certo ponto, Pessoa não acabou de moldar nenhum deles”, explicou o pessoano.

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Manuscrito da ode “Sê lanterna, sê luz com vidro em torno”, datado de 3 de março de 1929

“Quando escreveu a Casais Monteiro sobre Caeiro, Campos e Reis em 1935, ainda estava a inventá-los. Se Pessoa tivesse publicado as obras heterónimas e escrito mais sobre Caeiro, Campos e Reis, talvez tivesse acrescentado dados aos que hoje conhecemos. Reis passou a ser monárquico apenas em 1919 porque, apesar de ele brincar com a ideia simbolista de exílio, a História (neste caso, o fracasso da instauração da monarquia no norte do país) tê-lo-á marcado e perturbado.”

O curioso é que, apesar de Reis ser hoje considerado um dos principais heterónimos pessoanos, não começou por sê-lo. De acordo com Jerónimo Pizarro, só a “pouco e pouco” é que “foi integrando o conjunto que, em 1928, Pessoa denominou de ‘drama em gente’ e dialogando mais e mais com os outros heterónimos, Caeiro e Campos”.

“Por exemplo, em abril de 1928, Reis faz troça de Campos por ter publicado, em janeiro desse ano, um poema com um verso ‘Fui, como ervas, mas não me arrancaram’, porque esse verso, segundo Reis, leva a crer que Campos ‘é herbívoro’….”

Ricardo Reis: poeta, teórico e prefaciador

Uma das novidades da edição da Tinta-da-China é a inclusão de toda a prosa de Ricardo Reis, permitindo ler na íntegra a obra do heterónimo. Nesta inclui-se o prefácio inacabado à obra de Alberto Caeiro mas também outros textos de temáticas diversas, como fragmentos sobre John Milton, autor de Paraíso Perdido, disciplina, religião, paganismo e até masturbação. Sempre escritos numa prosa repleta de arcaísmos, até mesmo para Pessoa que fazia questão de escrever num acordo ortográfico que já não estava em vigor.

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Em cima, um esquema que divide a obra de Ricardo Reis em duas partes: “A Indisciplina Moderna” e “Estudos Neoclássicos”. Em baixo, apontamentos sobre o “valor de um escritor” e o “neoclassicismo”

Outras novidades de Obra Completa de Ricardo Reis prendem-se, como explicou Jerónimo Pizarro, com “a ortografia ricardiana, a cronologia dos textos, a inclusão de inéditos, as novas propostas de alguns versos e de algumas passagens da prosa”. As odes e o prefácio aos poemas de Alberto Caeiro também foram reorganizados, fechando um ciclo de publicação das obras completas dos três principais heterónimos de Fernando Pessoa.

“Este volume dialoga com os anteriores: a obra de Alberto Caeiro, mestre de Ricardo Reis, e a obra de Álvaro de Campos, antagonista estético de Reis. Completa-se, assim, uma trilogia que dá a ler pela primeira vez em Portugal as obras integrais de Caeiro, Campos e Reis”, salientou Pizarro. “Projetando uma publicação ‘sob vários nomes’ de ‘várias obras de várias espécies’, em 1915, Fernando Pessoa já tinha manifestado este desígnio ao dizer ‘Serei eu próprio toda uma literatura’ e ao deixar num plano de livros a publicar este apontamento:Toda uma Literatura — (Alb. Caeiro — R. Reis — Alv. 
de Campos)’. Cumpre-se assim o seu desejo.”