José Luís Carneiro tem vincado continuamente uma postura do PS em prol da estabilidade política, mas deixou este domingo, em entrevista ao JN e à TSF, um aviso ao Governo, ao expressar dúvidas de que eventuais mudanças no executivo liderado pelo primeiro-ministro Luís Montenegro possam ser a resposta necessária aos problemas do país.

“Já não sei se uma remodelação será suficiente para que o Governo consiga responder às dimensões críticas em áreas nevrálgicas da vida do país, para que os portugueses possam estar tranquilos sobre o modo como o Governo responde às suas necessidades. Nós temos procurado fazer tudo para dar estabilidade política e para evitar que o país entre numa crise. Mas vai depender mais do Governo e do primeiro-ministro, e já agora do seu grupo parlamentar, do que propriamente do PS”, disse, ao ser questionado se o PS garantiria a legislatura até 2029.

O secretário-geral do PS considerou ainda ser “evidente” que o atual Governo sofre de “falta de coordenação e de comando político” e, embora defenda a promoção de mudanças governativas, realçou as suas reservas sobre a eficácia que tais alterações poderiam ter: “Não sei se a mudança política já será capaz de alterar as condições políticas para que o Governo cumpra tudo com o quanto se comprometeu.”

Presidente do PS defende bloco central em caso extremo de vitória do Chega

Para o líder socialista, todavia, “não é desejável um bloco central” de PSD e PS, distanciando-se do presidente do partido, Carlos César, que admitiu esse cenário esta semana, na eventualidade de uma vitória do Chega nas próximas eleições legislativas.

“O Partido Socialista será, e é o que está a procurar ser: uma alternativa de confiança, uma alternativa sólida, para governar o país. E, ao mesmo tempo, na Assembleia da República, nós faremos uma oposição que viabilizará aquilo com que concorda e que se opõe àquilo de que discorda. É importante que os dois grandes partidos possam funcionar como polos de alternativa”, afirmou, sublinhando que irá “com certeza” exigir reciprocidade aos sociais-democratas se o PS vier a ser o partido mais votado no próximo ato eleitoral.

As críticas à “insensibilidade” e “incompetência” do Governo

No entender de José Luís Carneiro, cuja entrevista foi concedida antes dos acontecimentos da madrugada deste domingo em Lisboa e no Porto, o Governo é o principal responsável pela situação de tensão que tem rodeado as últimas semanas com as acampadas, designadamente pela resposta policial que tem sido mobilizada para os protestos. Só na última madrugada ter-se-ão registado mais de 50 feridos entre os manifestantes, além de 13 polícias feridos, destacando-se ainda as 13 detenções efetuadas (sete em Lisboa e seis no Porto).

O Governo “já há muito deu sinais de insensibilidade, de incompetência, de incapacidade para responder aos problemas das pessoas”, denunciou o líder do PS, repudiando a opção pelo uso da força em detrimento do diálogo. “São causas legítimas, são causas justas e, naturalmente, tenho o dever de exigir ao primeiro-ministro e ao Governo que procurem encontrar uma saída política para um assunto que nunca pode ter uma saída policial. A saída policial é sempre uma última saída e o uso da força é mesmo o último recurso”, notou.

De seguida, atacou as propostas do Governo para lidar com as dificuldades no acesso das pessoas à habitação, enfatizando que as medidas adotadas agravaram os custos: “Desde que este Governo assumiu funções, o aumento do custo com a habitação aumentou mais de 41%. Desde que este Governo adotou a chamada renda moderada, que o custo com o arrendamento aumentou 34%. Foi também com este Governo que aumentou em 18% o número de jovens a viver em casas partilhadas. E foi este Governo que trouxe à Assembleia da República uma nova lei de rendas que desregula de novo o mercado do arrendamento”.

Por outro lado, saiu em defesa do Presidente da República, ao considerar que a responsabilidade na resposta aos problemas não passa tanto por António José Seguro, mas, sim, por Luís Montenegro.

“O senhor presidente da República convocou não apenas os partidos políticos, como também convocou o Conselho de Estado para avaliar o modo como o país está a enfrentar dificuldades sociais. Quem não cumpriu aquilo que é o seu dever foi o primeiro-ministro, porque o primeiro-ministro é quem tem funções executivas, e é incompreensível que quem tem funções executivas tenha literalmente desaparecido, se tenha escondido daquelas que são as suas responsabilidades”, declarou.

“Não há necessidade de pedir desculpa” na habitação, mas PS “foi insuficiente”

Questionado ainda se o PS não deveria assumir um mea culpa pelos atuais problemas no setor da habitação, depois da governação entre novembro de 2015 e março de 2024, José Luís Carneiro recorreu ao ex-Presidente da República (e antigo líder do PSD) Cavaco Silva para imputar a Montenegro a necessidade de assumir a responsabilidade e não procurar desculpas.

“Quando aqueles que estão no exercício de funções estão permanentemente a procurar justificar a sua inação com o passado, ilustram a sua incapacidade e a sua incompetência. Aliás, julgo que o Prof. Cavaco Silva dizia num dos seus livros de memórias que um primeiro-ministro, um Governo que justifica com o passado a sua inação ao fim de seis meses é, verdadeiramente, um executivo incapaz de corresponder à legitimidade política que lhe foi dada pelos eleitores”, começou por explicar.

E concluiu: “Não há necessidade de pedir desculpa. Das 31 mil casas que o Governo se autovangloria de ter prontas para entregar, 12 mil são novas e as outras são requalificações. Foi insuficiente? Tenho de reconhecer que foi insuficiente para as necessidades que o país tinha e que continua a ter”.