A convite do Museu de Lisboa — Santo António e da EGEAC, centenas de lisboetas voltaram a meter mãos à obra para dar continuidade a uma antiga tradição da cidade — os Tronos de Santo António. A iniciativa, lançada pelo segundo ano consecutivo, trouxe à rua cerca de 200 tronos que, entre os dias 4 e 5 de junho, enfeitaram portas e janelas um pouco por toda a cidade. À semelhança do ano anterior, os tronos foram fotografados por Rui Cunha e José Frade e reunidos em livro, agora disponível para venda no Museu de Santo António.

“O facto de estarmos a editar um segundo volume deste livro confirma a recetividade e o interesse gerado por um projeto que nasceu de uma ideia simples: reavivar a memória em torno de uma tradição singular que estava há muito esquecida”, frisou Joana Gomes Cardoso, presidente do Conselho de Administração da EGEAC, numa das três pequenas introduções que o livro inclui. No ano passado, o número de concorrentes chegou aos 66. Em 2016, ultrapassou os 200, confirmando assim “o entusiasmo com que os lisboetas aceitaram o desafio”, refere uma nota de imprensa divulgada pela EGEAC.

“Num momento em que facilmente nos distraímos pela imensidão de estímulos que constantemente nos rodeiam, é reconfortante voltar a um lugar de simplicidade, em que o mérito decorre do trabalho manual, amador, quase sempre coletivo. E onde as grandes mais-valias produzidas são a generosidade, a partilha e a criatividade”, escreveu a presidente do Conselho de Administração da EGEAC.

Para Joana Gomes Cardoso, é “gratificante constatar que, numa era de globalização e de instantaneidade, ainda há espaço e tempo para um reencontro com o passado e, através dele, para redescobrir a cidade e aqueles que a habitam”. Catarina Vaz Pinto, vereadora da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, que assinou uma das introduções, salientou que “Santo António está vivo, hoje e sempre”, e Pedro Teotónio Pereira, coordenador do Museu de Santo António, falou do “elemento identitário” dos Tronos de Santo António.

“Armar o trono de Santo António é um elemento identitário muito forte, tão significativo como o desfile das marchas na avenida ou os arraiais. Pelo Santo António, Lisboa fica mais bonita e os lisboetas mais orgulhosos da sua cidade que ‘tem cheiro de flores e de mar'”, concluiu o coordenador do Museu de Santo António na sua nota introdutória.

Uma tradição muito antiga

Os primeiros Tronos de Santo António surgiram no século XVIII, como uma forma de pedir esmolas para a reconstrução da Igreja de Santo António, parcialmente destruída durante o grande terramoto de 1755. Especialmente populares entre os mais pequenos, eram geralmente colocados à porta de casa, uma tradição que ainda hoje se mantém, marcando o início das festas em honra do santo padroeiro de Lisboa. Em maio, já era possível ver os pequenos altares um pouco por toda a cidade, mas especialmente nos bairros típicos.

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Os Tronos de Santo António eram, muitas vezes, obra de muitos. Crianças e adultos reuniam-se na rua e, com o apoio das coletividades, construíam pequenos altares de madeira, cartão, esferovite e até mesmo plástico, com uma pequena figura de Santo António no topo. Em forma de escada, os tronos contavam a história e os milagres do santo casamenteiro. Era quase tudo feito à mão, mas os que tinham possibilidades financeiras recorriam muitas vezes às efeitos pré-feitos — pequenas figuras de chumbo que eram vendidas nas mercearias. Hoje em dia, já não é possível comprá-las (a sua produção foi proibida por causa da toxicidade do chumbo), mas ainda é possível vê-los em alguns antiquários.

Apesar de populares, os Tronos de Santo António começaram, gradualmente, a desaparecer da soleira das portas. No século XIX, já se dizia que a tradição estava a desaparecer. De modo a reavivar a prática, a autarquia começou a promover concursos de tronos entre as crianças dos bairros de Alfama, Bairro Alto, Madragoa e Mouraria, em 1949, mas também esses acabaram por ter o seu fim. Nos últimos anos, era cada vez mais raro ver um trono à porta de uma casa ou à janela de um lisboeta, sendo por isso que o Museu de Santo António e a EGEAC decidiram lançar a iniciativa em 2015.