A meio do concerto, uma espectadora atirou para o palco um soutien. O artista pendurou-o no suporte do microfone e assim continuou, gingando as ancas e ondulando a pélvis, numa dança que se tornou, pela repetição, numa espécie de caricatura da sua sensualidade. No final, apercebi-me de que conhecia a dona do soutien e ela confidenciou-me que o comprara nos chineses só para aquele efeito — quatro euros e meio, se bem me lembro.

Depois de uma ida ao barbeiro — Josh Tillman cortou o cabelo, rapou a barba e só deixou o bigode –, não é expectável que o músico norte-americano venha a sofrer do complexo de Sansão. É certo que, a propósito de I Love You, Honeybear (álbum de 2015), Tillman andou a brincar ao homem ideal e assim garantiu um coro de suspiros na linha da frente de todos os seus concertos. Como impecável desleixado, protagonizou produções de moda e fez-nos acreditar que a sua maneira perversa e torturada de amar — amando-se obscenamente a si mesmo — fazia dele homem de quem se deseja cuidar. Ou, não conseguindo ir tão longe, por quem se deseja sofrer.

“Pure Comedy”, de Father John Misty (Bella Union; Pias)

Mas nem a minha amiga tinha atirado o seu verdadeiro soutien, nem fora exatamente Josh Tillman que o apanhara. Esta cena de improviso passou-se no último NOS Alive e foi protagonizada por um adereço e duas personagens de ficção: a groupie (que na realidade não estava disposta a tudo), o soutien (que na realidade não era dela) e Father John Misty, o alter ego que Josh Tillman deseja agora matar.

Há três anos que o seu novo álbum, Pure Comedy, vem a ser cozinhado — depois do primeiro Fear Fun, com I Love You, Honeybear pelo meio — e nem sempre o tempo real tem conseguido acompanhar o arco narrativo que Tillman diz ter criado para esta sua personagem. Se no anterior I Love You, Honeybear ele desempenhou o papel do amante, numa ode meio perturbada à monogamia, a meio da digressão já sentia a necessidade de um volte-face: as novas canções que lhe surgiam para formar Pure Comedy arrancavam-no dos indigentes lençóis — sujos de rímel, cinzas, esperma e sangue — onde antes Father John Misty se aninhara em angústias sentimentais.

[o vídeo para o tema que dá título ao álbum:]

Tillman começa então a ver o mundo de fora, conclui que entretenimento é alienação. Parece rezingão nos concertos, critica a turba de telemóvel em riste e já nem o gingar da anca se lhe cola à pele como dantes. Não sei se voltará a distribuir beijinhos a raparigas à saída do palco — eu estava na fila. Mas se antes o desejámos, talvez agora tenhamos mais razões para nos apaixonarmos.

Pode parecer mais sério, mas nem por isso mais aborrecido. Depois de um período de abstinência, Josh diz numa entrevista ao New York Times que está de novo do lado dos “fumadores e masturbadores” e temos a certeza de que não perderá o sentido de humor ultrapassado o trauma de uma educação religiosa pesada, que ditava que rir e questionar eram coisa do demo. Tillman pode até estar mais próximo da criança que foi e do adolescente que nunca deixou de ser, mas está também perfeitamente consciente do que essa matéria psicanalítica pode fazer pela sua arte, pela sua sobrevivência e, neste momento em particular, pelo mundo à sua volta.

[ao vivo no Saturday Night Live:]

Pure Comedy, escrito antes da era Trump mas de repente em perfeita consonância, é um tratado filosófico sobre o nosso tempo — escrito com honestidade, beleza e ironia — que se penetra com maior ou menor destreza consoante as expectativas sobre a personagem. Querem o entertainer? Refreiem os ânimos. Tillman, que já se mostrou capaz de escrever canções para Beyoncé ou Lady Gaga, não conhece caminhos fáceis para fazer passar a sua mensagem, ainda que a lubrifique com as belíssimas melodias do costume. Mas chama Gavin Bryars, um perito em escavacar a alma dos melancólicos, para ajudar nos arranjos. E não há cá material para sing-a-long em concertos; a espessura lírica assemelha-se à da palavra que é escrita para ser lida; desafio-vos para um karaoke. Há muito autor verborreico neste mundo, mas poucos conseguem sê-lo sem parecer que enfiaram as palavras todas numa tômbola e cá vai disto. Neste, como nos álbuns que o antecedem (como J. Tillman ou Father John Misty), cada palavra é consequente — mesmo quando faz “Oculus Rift” rimar com “Taylor Swift”.

E, já que este texto é publicado num jornal online e divulgado nas redes sociais, esse cafofo de irritação e ódio gratuito, aprendam com a homilia de “Pure Comedy” que o amor salva e que essa vã descarga de dopamina libertada no momento da indignação há-de vos matar a todos. Palavra do senhor.

Ana Markl é guionista, apresentadora no Canal Q e animadora de rádio na Antena 3