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“Isto não é um filme. ‘Harry Potter e a Pedra Filosofal’, da mulher “divorciada e sem um tostão” Joanne K. Rowling, é a conversa do momento.” A frase que hoje parece insólita e faz franzir o sobrolho a qualquer fã, é de julho de 1997, menos de um mês depois de o primeiro livro sobre o jovem feiticeiro ter sido lançado no mercado britânico. Os infortúnios da autora no começo de carreira são conhecidos da maioria do público, mas não deixa de ser curioso recuar no tempo e ler a notícia do The Guardian que, então, dava conta de uma autora estreante que vendera o seu livro infantil por 100 mil libras (114 mil euros) — só em 2017, J.K. Rowling recebeu em 95 milhões de dólares (85 milhões de euros).

A quantia paga pelo primeiro manuscrito de Rowling, os tais 114 mil euros, foi um recorde absoluto na altura, tendo em conta que este era um livro infantil. No artigo do The Guardian são feitas as seguintes comparações: “Harry Potter e a Pedra Filosofal” estava para o livro de estreia de Nicholas Evans, “O Encantador de Cavalos”, como o jovem feiticeiro estava para a personagem principal de “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, de Roald Dahl. Ainda o livro não tinha chegado a Portugal e já o sucesso estava, de alguma forma, garantido. Sucesso esse que só foi possível graças ao faro afinado do agente literário Christopher Little, a quem Rowling escreveu uma carta depois de reunir alguns contactos numa biblioteca pública.

Christopher Little foi o segundo agente literário a quem a famosa autora escreveu uma carta, dando conhecimento do seu manuscrito. E, à segunda, foi de vez: “Recordo-me de receber uma carta de volta. Assumi que fosse uma nota de rejeição”, contou Rowling ao jornal britânico já referido. “Foi a melhor carta da minha vida. Li-a oito vezes.” A resposta positiva veio numa altura crucial na vida da autora que, de recém-nascido nos braços, se sentia deprimida. Escrever as aventuras do jovem e órfão feiticeiro era a sua forma de escapar à vida difícil de Edimburgo. “Eu estava muito em baixo e precisava de alcançar alguma coisa. Sem este desafio teria dado em louca.”

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Aos 31 anos, Rowling trabalhava a tempo parcial na área do ensino. Tinha deixado Portugal fazia pouco tempo, depois de ter vivido cerca de dois anos no Porto. Foi pelas ruas da Invicta que a autora caminhou com o manuscrito inacabado de Harry Potter debaixo dos braços e foi lá que viveu 18 meses cheios de incertezas: o casamento com o jornalista Jorge Arantes, por quem se apaixonou à primeira vista num antigo bar na Ribeira, fracassou redondamente, uma situação que haveria de deixar a britânica no “fundo do poço”. Ainda hoje Rowling é parca em palavras quando alguém tenta arrancar informações sobre uma altura que haveria de ser batizada de “período negro”. Dessa relação nasceu a primeira filha, Jessica. Mãe e filha, já a bebé conseguia adormecer com conforto no carrinho de mão, percorreram os cafés da capital escocesa em busca de inspiração.

Eu escrevia para mim. Ter alguém a oferecer essa quantia de dinheiro por algo que eu tinha escrito por ser o tipo de coisa que eu gostava de ler era incrível”, chegou a dizer.

“Não sei o que vou fazer agora. Estou muito nervosa em pôr de lado o meu trabalho de ensino a tempo parcial para me tornar numa escritora a tempo inteiro, mesmo sendo uma coisa que eu sempre quis fazer”. J.K. Rowling podia não saber o que vinha a seguir mas, hoje, essa é resposta que está na ponta da língua de quase todos: depois da obra estreante outros sete livros (contando com o trabalho mais recente) se seguiram para felicidade de milhões de fãs.

Mas Joanne Kathleen Rowling, que assinou todas as obras com as iniciais para que ninguém suspeitasse que o autor de Harry Potter era, de facto, uma mulher, estava longe de imaginar o sucesso da história que lhe surgiu, certo dia, durante uma viagem de comboio com destino a Londres. Sem qualquer aviso prévio, à imagem veio um rapaz franzino e de cabelo desgrenhado com uma história por contar — como não havia caneta que a ajudasse a anotar as ideias mirabolantes que se atropelavam mentalmente umas às outras, Rowling deixou-se ficar na carruagem a sonhar acordada.

Esta segunda-feira, 26 de junho de 2017, faz exatamente 20 anos que o livro “Harry Potter e a Pedra Filosofal” chegou pela primeira vez ao mercado. Se numa primeira tiragem 500 cópias de capa dura ocuparam timidamente as prateleiras, 20 anos depois quase 500 milhões de exemplares foram vendidos, com os sete livros do jovem feiticeiro a serem traduzidos para 79 línguas. Isto para não falar dos filmes, produções de teatro, jogos e até parques temáticos que originou.