Fatos e sobretudos à cintura, gravatas e fanny packs, caxemira e mochilas às costas — estará Miguel Vieira mais rebelde aos 30 anos de carreira? No último domingo, o criador português apresentou as propostas para o próximo outono-inverno no Padiglione Visconti, em Milão. A cidade antecipa as próximas tendências da moda masculina e, à semelhança, da estação anterior, a marca Miguel Vieira volta a marcar presença no calendário, numa ação promovida pela Associação Nacional de Jovens Empresários (ANJE).

É das semanas da moda mais importantes a nível de homem. Estão cá as maiores marcas do mundo e isso cria muita exigência e expetativa. Existe um nervosismo muito grande e fico insatisfeito até ao último minuto. Além disso, todo o processo tem de ser muito antecipado, no final de novembro a coleção tem de estar pronta”, conta o designer ao Observador, a poucos dias do desfile.

Para Miguel Vieira, Milão é sinónimo de atenção redobrada aos materiais e ao toque clássico dado à coleção. Se bem que nas propostas que mostrou para a próxima estação fria “desconstruir” foi a palavra de ordem. “A coleção foi-se aperfeiçoando na parte de alfaiataria. O tema é o rock’n’roll, por isso há peças muito clássicas mas também muita desconstrução”, explica o criador.

Em 2018, Miguel Vieira completa 30 anos de carreira. No último domingo, apresentou a coleção masculina de outono-inverno 2018/19 em Milão © Ugo Camera

As silhuetas longilíneas dos fatos contrastam com os cortes oversized de casacos e blusões. Na passerelle, os acessórios voltaram a brilhar. Mochilas, funny packs, bolsas e chapéus serviram de ferramentas ao styling, esse sim, cada vez mais irreverente. Com esta viragem, Miguel Vieira fala em criar novos públicos, uma nova geração de clientes atraída pela referida irreverência.

O designer desfila pela quarta vez em Milão, tempo suficiente para se falar em evolução. “Há cada vez mais jornalistas internacionais a assistir e isso reflete-se nos destaques em revistas e sites, o que, por sua vez, se reflete em vendas. É lá que estão os grandes gurus, com milhões e milhões para gastar”, afirma Miguel Vieira.

Dentro de três semanas, o criador está de volta a Milão, mas para marcar presença numa das principais feiras de moda europeias. Questionado sobre um “Portugal que está na moda” e nas consequências do fenómeno na valorização da criatividade nacional, Miguel Vieira mostra-se otimista, mas reticente no que toca a resultados práticos. “Os designers são um bom chamariz para mostrar ao mundo que temos bom design, mas quem beneficia são os industriais que apenas fabricam para outras marcas. Somos o cartão de visita deles. Estamos a vender mais mas não vendemos o que devíamos vender”, completa.

No mesmo desfile, Miguel Vieira desvendou uma pequena parte da coleção feminina através de seis coordenados que percorreram a passerelle. Ao contrário do que aconteceu nas três estações anteriores, Miguel Viera não vai apresentar a coleção de senhora em Nova Iorque. Parece que vamos ter de esperar até março para ver desfilar a propostas do criador na íntegra, no Portugal Fashion.