Cinema

“A Forma da Água”: pela boca morre o homem-peixe

216

Nomeado para 13 Óscares, "A Forma da Água", de Guillermo del Toro, é um mau filme fantástico que cumpre com todos os requisitos do politicamente correcto. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

As coisas eram simples e naturais nos velhos “monster movies” de há 50 e 60 anos. Os monstros, viessem eles de fora da Terra ou surgissem no nosso planeta, era criaturas ameaçadoras, hostis, destruidoras, sendo combatidas e derrotadas por um herói ou grupo de heróis. Agora, o cinema pede-nos que compreendamos o ponto de vista dos monstros, que empatizemos com eles, que nos metamos na sua pele. É o que acontece em “A Forma da Água”, de Guillermo del Toro. O realizador mexicano (“Nas Costas do Diabo”, “Hellboy”, “O Labirinto do Fauno”) esteve em conversações com a Universal para assinar o “remake” do clássico de Jack Arnold “O Monstro da Lagoa Negra” (1954), mas o estúdio rejeitou – compreensivelmente – a sua ideia de fazer o filme da perspectiva da criatura e rematá-lo com um final em que o monstro e a heroína vivem felizes para sempre.

[Veja o “trailer” de “A Forma da Água”]

Del Toro avançou então para o seu próprio projecto e escreveu, com a argumentista Vanessa Taylor, “A Forma da Água”, que é ao mesmo tempo uma homenagem a “O Monstro da Lagoa Negra”, e uma subversão tipicamente contemporânea do modelo tradicional dos “monster movies”. O filme passa-se em Baltimore, em 1962, pouco antes da Crise dos Mísseis de Cuba e com um vago pano de fundo de agitação ligada aos protestos pelos direitos civis. A muda e tímida Elisa (Sally Hawkins) é empregada de limpeza num laboratório ultra-secreto para onde foi trazida pelo brutal coronel Strickland (Michael Shannon), uma criatura anfíbia (Doug Jones) capturada no Amazonas, que o governo americano quer utilizar (nunca se percebe bem como) contra a URSS, que por sua vez infiltrou um espião (Michael Stuhlbarg) nas instalações, para sabotar as pesquisas.

[Veja a entrevista com Guillermo del Toro]

Cópia descarada do humanóide aquático de “O Monstro da Lagoa Negra”, a criatura tem bom fundo, mas é maltratada e torturada pelo cruel Strickland, que só percebe de repressão e não de comunicação. Elisa, às escondidas, começa a entender-se com o monstro, à força de ovos cozidos e de música romântica, e quando percebe que o seu amigo anfíbio não vai ter um bom fim, decide passar à acção. Mas já muito antes disso “A Forma da Água” revelou ser um filme dominado pela mais chapada inverosimilhança. Por mais boa vontade que tenhamos, é impossível fazer a devida suspensão da descrença e aceitar a história que del Toro nos conta, tão mal construída está, tantas e tão grandes são as suas incoerências internas.

[Veja a entrevista com Sally Hawkins e Octavia Spencer]

Assim, “A Forma da Água” tem o laboratório ultra-secreto e super-seguro menos secreto e seguro da história do cinema fantástico e de ficção científica, sem guarda permanente nem controlo rigoroso de acesso. As empregadas da limpeza entram lá como se fosse a pensão da coxa, sem a menor supervisão, ficam sozinhas a trabalhar e os responsáveis nem sequer se preocupam em ocultar a criatura dos olhos delas. Elisa passa horas perdidas a partilhar ovos cozidos com o homem-peixe e a passar-lhe música num gira-discos. Só falta trazer uns peixinhos vermelhos para lhe fazerem companhia no tanque. Quanto à criatura, apesar dos seus poderes de cura, ressuscitação e auto-regeneração, e de aparentemente ser imortal, não tem força sequer para rebentar com os cadeados das grilhetas que a prendem. Isto para já não falar na sequência da evasão, digna de uma fita dos Três Estarolas, ou no sexo inter-espécies, demonstrando que, para certas mulheres, o cheiro a peixe pode ser afrodisíaco.

[Veja a entrevista com Michael Shannon]

Realizado tal como está escrito, às três pancadas, “A Forma da Água”, além de ser, sem querer, de rir às gargalhadas, é também um filme que embora se passe nos anos 60, preenche com zelo as caixinhas do formulário da correcção política actual. As personagens são “outsiders” e incompreendidas, vítimas de alguma forma de discriminação ou opressão social. Elisa é muda e solitária, Giles, o seu vizinho (Richard Jenkins) é homossexual, Zelda (Octavia Spencer), a sua colega e intérprete, é negra e desprezada pelo marido. E o que é a relação que se estabelece entre Elisa e o monstro aquático senão um hino à compreensão e aceitação da “diferença”, da “diversidade”, do “outro” – mesmo que com escamas, barbatanas e a cheirar a lota? Quanto ao malvado Strickland, acumula todos os defeitos: sexista, racista, hipócrita, violento e, claro, cristão. Ainda por cima, não lava as mãos depois de urinar.

Mau cinema fantástico com a “mensagem” político-social da moda embutida, “A Forma da Água” foi, incrivelmente (ou talvez não), nomeado para 13 Óscares. Hollywood não só já não sabe reconhecer peixe estragado quando o vê, como ainda por cima o quer premiar.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)