No dia 8 de junho de 1901, duas mulheres casaram pela Igreja, em Espanha. Como? Uma delas fez-se passar por um homem e inventou uma vida diferente. Uma não, várias. Nesta história do “casamento sem homem”, contada em livro por Narciso de Gabriel, e que em breve vai estar disponível na Netflix, as duas mulheres foram mudando de nome, de país e de continente, até que nunca mais ninguém as viu.

Marcela Gracia Ibeas e Elisa Sánchez Loriga conheceram-se na década de 1880, na Escola Normal Feminina da Corunha, em Espanha, onde se formavam professoras primárias. Os pais de Marcela não aprovaram a relação e resolveram enviar a filha para Madrid. Depois de ambas concluírem os estudos superiores, em 1900, Elisa foi trabalhar para a aldeia de Couso, entre a Corunha e Finisterra, e Marcela estava na escola de Calo, no município vizinho de Vimianzo. As duas voltam a encontrar-se e tornaram-se, segundo contou ao Observador Narciso de Gabriel, inseparáveis.

Além do livro, o o autor deixa claro num artigo escrito para a imprensa espanhola que foi na primavera de 1901 que ambas decidiram casar-se. Para o conseguirem, encenaram uma grande zanga e Elisa foi para uma aldeia vizinha e passou a chamar-se Mário: cortou o cabelo, trocou as saias por calças e criou uma infância em Londres com um pai ateu que não quis batizar o filho. O suficiente para ambas terem conseguido enganar o padre San Xurxo, que primeiro batizou Elisa como Mário e depois a casou com Marcela, no dia 8 de junho de 1901.

Capa do livro “Elisa y Marcela. Más allá de los hombres”, de Narciso de Gabriel (publicado originalmente em 2010)

Mas os dias felizes duraram pouco. Depois do matrimónio, o jornal La Voz de Galicia escreveu sobre um “casamento sem homem” e a notícia acabou por chegar a todos os jornais espanhóis e europeus rapidamente. Elisa, que já era conhecida como Mario, deixou de ter qualquer possibilidade de emprego e ambas as mulheres começaram a ser desprezadas na Galiza. Foram obrigadas a fugir, perseguidas pela justiça, pela igreja e pelos meios de comunicação, avança o El País. Ainda era verão, fim de junho, quando as duas chegaram ao Porto.

Marcela terá chegado à cidade portuguesa ainda a 27 de junho, de imediato regularizou a situação no consulado espanhol, instalou-se numa pensão e começou a trabalhar num café. Elisa chegou uns dias depois. “Durante um mês viveram tranquilamente como marido e mulher, mas, a meio de agosto desse ano, foram detidas pela polícia portuguesa a pedido do governo espanhol”, conta Narciso de Gabriel, que provocou, no entanto, um grande onda de solidariedade, conta o escritor.

“Na altura, o Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol pediu a extradição das duas mulheres e ambas ficaram primeiro na prisão do Aljube e depois na Cadeia da Relação do Porto. Embora tenham estado sempre juntas, estiveram presas cerca de três semanas”, adianta o escritor. “Havia muitos curiosos que se dirigiam à prisão para tentar ver as duas mulheres, o que tornou necessária a presença de soldados da guarda para dispersar quem por ali parasse”, acrescentou Narciso.

Quando saíram na prisão, foram julgadas porque as duas eram mulheres, embora uma delas se disfarçasse de homem. Acabaram por ser absolvidas, mas tinham de voltar a fugir porque a perseguição popular continuava. No entanto, há um outro elemento nesta história que voltou a colocar Elisa e Marcela na mira da esfera pública: um bebé num casal homossexual, uma menina que nasceu no início de 1902.

“O objetivo era dar alguma credibilidade ao matrimónio, e, por isso mesmo, Elisa engravidou”, contou Narciso. “E elas queriam que as deixassem criar o bebé em paz, diziam, segundo adianta a imprensa na altura, que não havia nada mais normal do que um casal ter um filho”, refere Narciso.

Pressionadas pela imprensa voltaram a fugir. O (novo) destino escolhido foi a Argentina, onde em junho de 1902 chegou Elisa, com o nome de María Sánchez Loriga, e meses mais tarde chegou Marcela, com o nome de Carmen e com a filha que tinha tido no Porto, no início desse ano. Ambas tornavam-se, supostamente, irmãs.

Em Buenos Aires, María (Elisa) casou, em 1903, com Christian Jensen, um dinamarquês dono de um pequeno comércio e com mais 20 anos do que a esposa. O casamento não correu bem, e Christian descobriu que estava casado com Elisa-Mario, uma das envolvidas no escândalo do “casamento sem homem”, e pediu que fosse anulado o matrimónio, o que acabou por acontecer cerca de um ano depois.

É a partir daqui que nada mais se sabe sobre Elisa e Marcela. “Não há registo de que tenham voltado a Portugal ou a Espanha, o mais provável é que permanecessem na Argentina”, adianta Narciso. “Os registos não eram como hoje em dia e a informação atualmente está disponível em maior quantidade do que antigamente.”

Um caso que foi notícia em vários jornais

Narciso de Gabriel tropeçou nesta história por acaso e a investigação que demorou anos a realizar não estava planeada. “Há uns anos vi uma notícia num jornal e comecei a interessar-me pelo caso. Inicialmente usei informação de imprensa, e de arquivo, tanto de Lisboa no do Ministério dos Negócios Estrangeiros, como no Porto”, explicou Narciso.

Aquilo que se seguiu foi a construção — ou, pelo menos a tentativa — de uma história onde, para o escritor, ainda há muitas sombras. “Há, por exemplo, testemunhas, que implicadas neste caso e que nunca foram conhecidas, nem ouvidas”. Tanto em Espanha como em Portugal, os jornais fizeram questão de dedicar algumas páginas a esta história. O jornal espanhol La voz de Galicia publicou, ainda no verão de 1901,  artigos que tinham por base o “casamento sem homem”.

Por cá, mais precisamente no Porto, o mês de agosto de 1901 foi rico em notícias sobre Elisa e Marcela. “Especialmente o Jornal de Notícias e O Comércio do Porto publicaram muita coisa sobre elas, havia muita curiosidade e desejo de conhecer Elisa e Marcela e uma verdadeira competição entre jornais espanhóis e portugueses para contar a história”, conta Narciso.

A notícia saiu da Península Ibérica em direção a todo o mundo.

“Era muito estranho que duas mulheres quisessem casar uma com a outra”, acrescenta o escritor. E toda a gente quis saber mais detalhes. “O travestismo de Elisa foi um êxito até serem apanhadas em Espanha e depois em Portugal. Se tivessem ido para outro país talvez conseguissem ter vivido o resto da vida como marido e mulher”, sublinha.

Além do travestismo de que fala o escritor, há um prémio com o nome de Elisa e Marcela que se destina a distinguir iniciativas que defendem os direitos da comunidade LGBTI.

Do escândalo ao cinema: vem aí “Elisa e Marcela”

A história que inspirou, há 10 anos, Narciso de Gabriel a investigar o casamento entre duas mulheres e a escrever o livro Elisa y Marcela: Más allá de los hombres, vai agora ser adaptado ao grande ecrã.

Realizado por Isabel Coixet, autora de filmes como “A Vida Secreta das Palavras”, de 2005, e “A Minha Vida Sem Mim”, de 2003, a história “Elisa e Marcela” vai estar disponível na plataforma de streaming Netflix ainda este ano e vai começar a ser rodado entre a Galiza e Barcelona. Por agora, adianta também o El País, ainda não estão fechadas as negociações para saber quais as atrizes que vão protagonizar a história.

“Estou muito interessada nesta história de amor, porque elas estavam juntas há muito tempo e enfrentaram diversas dificuldades”, disse ao El País a realizadora. “No fundo, arriscaram tudo para casar”, acrescentou. A verdade é que, apesar da controvérsia, o casamento nunca foi anulado pela Igreja. Até ver, ainda não está confirmado que “Elisa e Marcela” vai fazer parte do catálogo da Netflix em Portugal.