Quem é que nunca experienciou o poder desinibidor do álcool? Naquele jantar de família, naquela festa de Natal da empresa, naquele beberete cheio de pompa e circunstância que começa cheio de nove horas e acaba, invariavelmente, com uma valente peixeirada. Bem, se as bebidas têm a capacidade de desbloquear investidas amorosas, acessos de honestidade e figurões na pista de dança, porque não pô-las ao serviço da arte? Do desenho, para irmos mais diretos ao assunto. Foi o que fizeram Tânia Vale e Ana Fontinha, duas raparigas da moda, apanhadas de surpresa durante uma viagem a Nova Iorque.

A história é curta e remonta a 2012. Foi quando procuravam um programa pouco ou nada turístico que deram por elas numa sessão de modelo nu, muito bem regada por sinal. O conceito Drink & Draw estava apresentado e, seis anos depois, decidiram replicá-lo em Lisboa. “Não importa se desenham bem ou mal, o principal objetivo é conhecer pessoas e passar um bom bocado depois de um dia de trabalho”, explica Tânia, durante uma primeira sessão de copos e rabiscos para apresentar o conceito a alguns convidados. Primeiro princípio do Drink & Draw: conhecer pessoas novas, o que pode acontecer por duas vias — ou bebe uns copos e fica sem filtro ou comete o atrevimento de se meter com o desenho alheio. Ambas as estratégias são admitidas.

Dissemos que havia gente com jeito, não dissemos? © João Porfírio/Observador

Mas o que é o Drink & Draw afinal? São encontros de duas horas com duas tarefas que terá obrigatoriamente de cumprir: desenhar e beber. Quem organiza garante o material, a não ser que seja aquele aluno de belas-artes, dono de um estojo bem apetrechado. Folhas de papel, uma prancheta, lápis de carvão, lápis de cor, afia, borracha e… vinho. A primeira sessão aconteceu no The Therapist, na Lx Factory, onde a ementa foi construída com produtos orgânicos e as bebidas não são exceção. “Não será sempre vinho, aliás, a ideia é que a bebida esteja sempre relacionada com o sítio onde o evento acontece. O próximo vai acontecer na fábrica Musa e aí a bebida vai ser cerveja artesanal, como é óbvio”, esclarece Tânia.

Bar aberto? Vamos com calma, até porque convém estar com atenção à folha de papel que tem à frente e ao próprio modelo. Dificilmente se vai ver com o copo vazio, ainda assim, não tenha pressa e deixe o pileque para outro dia. O desenho de modelo nu é só uma das muitas opções para explorar. Ana e Tânia estão cheias de ideias, algumas envolvem produções extravagantes outras mais do que uma pessoa a posar. Outra regra de ouro do Drink & Draw: por muito miseráveis que sejam as suas habilidades para o desenho, não há razão para vergonhas ou constrangimentos. Não é à toa que um dos slogans é Fun art, not fine art (só faz sentido em estrangeiro). Ainda assim, há espaço para se surpreender. As bebidas alcoólicas não entraram na equação por acaso e à medida que o vinho faz efeito, o próprio traço também vai ficando mais solto. Se for dos bons, parabéns, mas também não ganha nada por isso.

A primeira meia hora é para socializar. Pelo menos connosco foi o que aconteceu. Escolhemos o lugar, recolhemos o material que julgámos necessário, demos dois dedos de conversa e passámos os olhos pelo rótulo do vinho. O Drink & Draw é sempre ao fim da tarde e em dias da semana em que a agenda não bomba (segunda, terça ou quarta-feira), por isso também há sempre um quê de descompressão. Primeira posição, cinco minutos. Houve de tudo: gente a desenhar como verdadeiros profissionais, participantes com uma dificuldade inultrapassável em acertar nas proporções do corpo humano e até mesmo quem se queixasse de, simplesmente, não conseguir passar mamas e joelhos para o papel. Valeu-nos a boa disposição e a certeza de que haveria sempre de existir quem desenhasse pior. A banda sonora também ajudou. Com curadoria do DJ Kwan, as playlists são, no mínimo, inspiradoras. Pelo menos, ouvimos Destiny’s Child e percebemos logo que já podíamos ir para casa contentes.

O primeiro Drink & Draw teve modelo nu, mas as organizadoras querem surpreender os participantes com alternativas © João Porfírio/Observador

É expressamente proibido ter o telemóvel em cima da mesa, de preferência deve estar no silêncio e guardado na mala ou no bolso. O plástico, esse então, não entra mesmo. Uma das prioridades das duas amigas é manter o evento amigo do ambiente, por isso, nem os rascunhos mais horrendos se desperdiçam. Quanto aos desenhos, elas ficam com todos e no fim, ainda fazem uma exposição.

O tempo passa e as posições da modelo vão ficando mais complicadas. É desenhar em contrarrelógio e, a partir de uma certa altura, o realismo torna-se num luxo ao alcance apenas dos mais habilidosos. Ao fim de uma hora, toca para a saída. Não toca mesmo, mas o sentimento de que se chegou ao fim de uma prova global é real. Altura de deixar os desenhos em cima da mesa, pegar no copo e cirandar pela sala a espreitar os desenhos dos outros, um esquema parecido com aquela exposição de final de período em que as nossas expressões plásticas ficavam ali para os nossos pais e os pais dos outros verem. No ar, há uma piedade reconfortante. Por muito maus que os seus desenhos estejam, nunca ninguém lhe vai dizer isso, até porque há uma série de eufemismos para estas ocasiões. Basicamente, sempre que ouvir expressões como “adoro as cores”, “está diferente” ou “parece uma pintura cubista” já sabe que estão só a ser simpaticamente condescendentes.

O Drink & Draw quer ser itinerante e adaptar-se aos diferentes espaços que lhe vão dar guarida. Para já, o evento será quinzenal, mas tudo aponta para uma frequência semanal a partir de maio. As reservas são feitas online e cada sessão tem capacidade para 20/25 participantes e sim, tudo o que dizem sobre desenhar sob um ligeiro efeito de álcool é verdade. Aliás, basta pôr o primeiro desenho ao lado do último para ver a evolução. Quer o vinho, quer o desenho revelaram-se belas ferramentas de relaxamento e, outra parte boa é que às 21h já está tudo despachado. Dá para regressar a casa cedo ou para ainda ir jantar a qualquer lado (sim, a experiência não inclui comida). Só não experimentámos fazer arte com o próprio vinho. Se fosse carrascão ainda era naquela, agora com um vinho bom, custa desperdiçar, mesmo que seja em nome da arte.

O quê? Drink & Draw
Quando? Dia 27 de março, das 19h às 21h (próxima data)
Onde? Cerveja Musa, Rua do Açúcar, 83, Lisboa
Quanto? 15€ por pessoa (inclui bebida e materiais de desenho)