Atualizado às 14h15

A próxima missão científica da Agência Espacial Europeia vai focar-se na natureza dos exoplanetas, nomeadamente sobre a composição das atmosferas. Uma equipa do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA) vai contribuir com um conhecimento mais local: as atmosferas dos planetas do sistema solar. “O estudo das atmosferas é uma nova aventura que está a começar”, disse ao Observador Pedro Machado, líder da equipa portuguesa.

três pontos fundamentais da participação da equipa portuguesa nesta missão, explicou Pedro Machado ao Observador. Primeiro, perceber se os exoplanetas descobertos até agora têm atmosfera ou não, estudando os trânsitos dos exoplanetas (quando o planeta passa entre a estrela e o telescópio). Segundo, detetar que moléculas estão presentes na atmosfera (como água, oxigénio, ozono, metano ou amoníaco), com recurso aos filtros do telescópio espacial Ariel — capaz de detetar luz visível e infravermelhos. E terceiro, a ligação aos modelos de atmosferas já conhecidos.

E é nesta modelização das atmosferas que a equipa portuguesa terá um contributo fundamental. Pedro Machado é especialista em atmosferas dos planetas do sistema solar e a equipa que lidera ajudou a construir modelos para as atmosferas de Vénus, Marte, Júpiter, Saturno e Titã (o maior satélite natural de Saturno). Juntar todos estes modelos num modelo geral vai permitir criar aproximações do que podem ser as atmosferas dos exoplanetas. Com os dados que forem recolhidos de cada exoplaneta, o modelo vai fazer uma aproximação às condições mais semelhantes dos planetas existentes no sistema solar e propôr que processos físicos e químicos podem ocorrer na atmosfera desse exoplaneta.

“Até agora a tónica tem sido na deteção de exoplanetas, na determinação das suas massas e tamanhos, mas pouco ainda foi possível saber sobre as suas atmosferas. Este é o grande salto para de facto se chegar a um conhecimento cada vez mais completo sobre esses exoplanetas”, disse Pedro Machado, investigador do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço e da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, em comunicado de imprensa.

Os cientistas têm-se dedicado a encontrar exoplanetas e até ao momento já descobriram 3.800. A próxima estapa é descobrir mais sobre estes exoplanetas e sobre o que eles nos podem contar sobre a formação do nosso próprio sistema solar. Será o próprio conhecimento do nosso sistema solar e dos planetas deste sistema que vai ajudar a estudar os exoplanetas. Esta mudança de paradigma — da deteção de exoplanetas para o estudo da composição da atmosfera — já andava a ser preparada por Nuno Santos, líder da equipa de sistemas planetários, há uns cinco ou seis anos.

A missão Ariel (sigla em inglês para Atmospheric Remote‐sensing Infrared Exoplanet Large‐survey) será lançada em 2028 e vai procurar dar resposta a questões sobre a formação dos sistemas solares, a composição dos planetas, mas também da atmosfera e das condições necessárias ao aparecimento de vida.

Das atmosferas não se quer apenas conhecer a composição química, ou as variações nessa composição, quer conhecer-se a densidade, a espessura e se tem ou não nuvens, e também as reações químicas que têm lugar. A equipa de Pedro Machado pertence a um grupo dentro da missão que vai estudar estas características para os planetas telúricos (planetas rochosos, como a Terra).

Ao nível da tecnologia está também em estudo a participação do grupo de instrumentação do IA, que tem uma forte experiência na área da ótica e software de processamento de dados.