Quando chegou ao Dragão, Guillem Cabestany levava já um currículo interessante (apesar da juventude) mas não deixou de ser uma aposta de risco para o comando da equipa de hóquei em patins do FC Porto. Como jogador, tinha passado por Vilafranca, Noia, Liceo, Igualada e Reus, sendo campeão europeu e mundial pela Espanha, mas como técnico estivera apenas no Vendrell (onde chegou a ganhar duas Taças de Espanha e uma Taça CERS) e no Breganze, equipas que, apesar de terem chegado de forma surpreendente à Final Four da Liga Europeia, a principal prova do calendário internacional, não eram propriamente de primeira linha. No primeiro ano, falhou o objetivo de ganhar o Campeonato mas os azuis e brancos mantiveram a aposta, com os resultados agora à vista.

Tendo como base alguns dos jogadores portugueses que formarão o núcleo duro da Seleção nos próximos anos (como Hélder Nunes, Gonçalo Alves, Telmo Pinto, Rafa ou Nélson Filipe) e juntando jogadores experientes e de peso em qualquer conjunto, como Reinaldo Garcia ou Jorge Silva, os dragões construíram nessa primeira época uma ideia de jogo muito interessante e que se foi “refinando” com o tempo. Agora, na fase decisiva da terceira temporada, Cabestany já ganhou um Campeonato (lidera o atual empatado com o Benfica e com mais um ponto do que o Sporting), duas Taças (e para como grande favorito à revalidação do título, após ter eliminado Oliveirense, Sporting e Benfica) e duas Supertaças, mas tinha a Liga Europeia como cereja no topo do bolo de um projeto conseguido. Este domingo, dificilmente o contexto poderia ser mais favorável, na melhor fase e a jogar em casa.

Apenas um obstáculo separava o FC Porto daquele título que procurava ganhar de novo após os triunfos em 1986 (Novara) e 1990 (Noia), entre dez finais perdidas. Um obstáculo ou o maior obstáculo de todos: além de ser a equipa com mais triunfos na Liga Europeia (21), os blaugrana foram sempre um adversário terrível para os azuis e brancos na final, vencendo por seis vezes em 1985 (4-5 e 6-4), 1997 (4-3), 2000 (3-2), 2004 (3-0), 2005 (3-2) e 2014 (3-1). Também eles, após afastar o campeão em título Reus na meia-final, apostavam tudo neste jogo no Dragão Caixa. Só um poderia ganhar e foi o mesmo de sempre: os catalães, verdadeiros símbolos de ecletismo como se viu recentemente em Camp Nou quando os capitães e respetivas equipas de futebol, futsal, basquetebol, andebol e hóquei em patins exibiram as Taças de Espanha que cada uma conseguiu conquistar na presente temporada, somaram a 22.ª vitória na competição, após vencerem na Invicta por 4-2.

Para quem gosta de hóquei em patins, não só de grandes golos mas sobretudo da dimensão mais tática e estratégica do jogo, foi uma final de grande nível entre aquelas que são, provavelmente, as duas melhores equipas europeias do momento. FC Porto e Barcelona têm o melhor ataque em cada um dos Campeonatos, mas num jogo decisivo, como seria de esperar, foi sobretudo na qualidade de transição defensiva que entroncou o jogo dos dois conjuntos. A meio da primeira parte, num golo muito protestado pelo guarda-redes Carles Grau devido à legalidade do bloqueio de Xavi Barroso que fez a cortina para Lucas Ordóñez, o argentino que estará perto de reforçar o Benfica na próxima época (por “troca” com o português João Rodrigues) inaugurou o marcador. Jorge Silva ainda teve uma oportunidade flagrante na área, Barroso acertou no poste mas o intervalo chegaria mesmo com a vantagem mínima dos espanhóis (aos 23′, Pablo Alvárez e Gonçalo Alves andaram “pegados” e viram cartão azul).

O FC Porto até terminou a primeira parte com mais remates do que o Barça (30-22) e quis recomeçar a partida com aquele tipo de jogo mais pressionante que, por exemplo, “abafou” o Sporting na meia-final em pouco mais de dez minutos. E a nona falta de Panadero parecia dar um maior alento em busca do empate, algo que foi quebrado com um fantástico golo de Alvárez, com um remate ao ângulo após rotação na área sem hipóteses para Grau (27′). Depois, a dança das bolas paradas, onde os azuis e brancos estiveram abaixo do normal esta tarde: Hélder Nunes falhou um livre direto (27′), Pau Bargalló aumentou para 3-0 num remate que desviou no stick de Reinaldo Garcia (33′).

Guillem Cabestany pediu um desconto de tempo e foi com essas alterações que o conjunto azul e branco, que parecia “arrumado” em termos anímicos, quase fez o que parecia impossível: Gonçalo Alves, numa recarga a uma grande penalidade convertida por si, fez o 3-1 (34′); Hélder Nunes, já depois de Grau ter travado um livre direto de Ordóñez, marcou o 3-2 que deixou o Dragão Caixa ao rubro num remate de meia distância (36′). Egurrola, o melhor guardião da atualidade, ainda defendeu dois livres diretos de Gonçalo Alves e Rafa, mas foi um lance não validado de Jorge Silva, onde ficou a nítida sensação de que a bola entrou mesmo, que quebrou por completo essa tentativa de reviravolta dos portistas, que viram o Barça chegar ainda ao 4-2 no final com golo de Pau Bargalló.

“Agora é difícil fazer uma análise mais tranquila… O jogo foi muito equilibrado, estivemos por cima deles em alguns momentos da primeira e da segunda parte mas acabaram por ser um pouco mais felizes na finalização. Com um ou outro pormenor, era uma final que podia ter caído para os dois lados. Se continuarmos a trabalhar e a evoluir desta maneira, tentaremos ser melhores para quando aparecer o dia. Num jogo tão equilibrado, se a bola do Jorge Silva é validada e dá o 3-3, era um golpe moral forte que podia mudar tudo mas o hóquei é mesmo isto…”, comentou ao Porto Canal Guillem Cabestany, treinador que quer começar a centrar atenções no Campeonato.