Cinema

“Hereditário”: tudo em família (amaldiçoada)

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O filme de terror de Ari Aster chega aos cinemas cavalgando uma onda de elogios e de entusiasmo que começou no Festival de Sundance, mas Eurico de Barros acha um exagero e dá-lhe duas estrelas.

Autor
  • Eurico de Barros

Revelado no Festival de Sundance, onde causou sensação, este filme de estreia de Ari Aster, realizador e autor do argumento, chega aos cinemas na crista de uma onda invulgarmente grande — sobretudo para uma fita de terror — de encómios, recomendações e excitação geral, falando-se a seu propósito de títulos-farol dos anos 60 e 70 como “A Semente do Diabo”, de Roman Polanski,  “O Exorcista”, de William Friedkin, “Aquele Inverno em Veneza”, de Nicolas Roeg, ou “O Génio do Mal”, de Richard Donner. Todos eles filmes que não se limitam a ser máquinas de meter medo a metro, e têm histórias bem urdidas, atmosferas de terror psicológico ou sobrenatural profundamente perturbadoras e se passam no seio de famílias. E com a exceção da do filme de Roeg, rasgada pela dor do luto, são todas perturbadas por uma presença diabólica.

[Veja o “trailer” de “Hereditário”:]

Atmosfera incómoda, crispada, ominosa, é o que não falta a “Hereditário”. A fita passa-se na soturna casa no campo da família Graham, onde vivem a mãe, Annie (Toni Collette), uma artista que faz miniaturas de cenas domésticas (Aster joga várias vezes com a escala, sugerindo que a vida dos Graham é como uma casinha de bonecas em tamanho natural, à mercê da intervenção de forças que não controla ou compreende), o pai, Steve (Gabriel Byrne), o filho adolescente, Peter (Alex Wolff) e a filha mais pequena, Charlie (Milly Shapiro), uma miúda estranha que tem o tique de fazer estalar a língua no céu da boca (um som que o realizador irá aproveitar para fabricar os arrepios mais bem conseguidos do filme) e era muito chegada à avó, que morreu recentemente. E com a qual Annie nunca teve uma relação nada fácil e harmoniosa.

[Veja a entrevista com o realizador Ari Aster:]

Aliás, os antecedentes da família pelo lado de Annie parecem matéria de um filme de Ingmar Bergman, indo desde problemas mentais a relações tóxicas entre os membros. Como se não bastasse a morte da avó ter envolvido os Graham num espesso manto de angústia e inquietação, Steve é informado que a sepultura da sogra foi vandalizada, e Annie e Charlie pensam ver a morta em duas ocasiões. E as coisas pioram ainda mais. Na vida real, a família iria tirar umas semanas de férias num sítio exótico e cheio de sol. Mas como estamos num filme de terror, e ao invés de pelo menos recorrerem à polícia, a um padre ou iluminarem mais a casa, as personagens preferem ficar em casa a escarafunchar as feridas, a aumentar a pressão da panela do mal-estar familiar e a dar ouvidos a uma estranha que aconselha, como duvidosa panaceia, sessões de espiritismo.  

[Veja a entrevista com Toni Collette:]

Apesar de Ari Aster não pertencer ao clube dos realizadores adeptos do pronto-a-assustar–e-repugnar que fazem o cinema de terror de hoje viver em overdose de sobressaltos e de sangueira; de ser um bom criador de climas malsãos e de sugestões da presença de forças malignas, ou do seu funcionamento insidioso; da ideia de que os Graham não são tomados de assalto por tais forças, mas que elas já estão no seu ADN (que não é nova: recentemente, Jennifer Kent usou-a em “O Senhor Babadook”); e de contar com uma interpretação portentosa de Toni Collette, numa Annie que é só por si um filme de terror com forma humana, “Hereditário” não nos põe, como escreveram alguns críticos mais entusiasmados, perante um novo tipo de terror.  

[Veja a entrevista com Milly Shapiro e Alex Wolff:]

Desconte-se o gosto do laborioso Aster pelo pavio narrativo lento (uma hora depois do filme ter começado, o motor do medo ainda está frio), e os mais batidos nestas andanças do terror reconhecerão aqui sinais vários das convenções do género. Temos a família que vive isolada e é vítima de poderes demoníacos, o livro encontrado num caixote que deixa pistas sobre o que a casa vai gastar em termos de modalidade de terror, a estranha casa na árvore que terá um papel essencial na história, ou ainda a personagem benévola que se revela ser precisamente o contrário. “Hereditário” é aquele tipo de filme de terror que quer ser mais que isso (neste caso, um filme sobre o estilhaçar da família tradicional debaixo da pressão do desgosto, das fricções internas e das taras dos seus membros, em especial da mãe — os demónios podem ser metafóricos, portanto), mas é no que revela de lealdade aos tropos do género que se sai melhor.

[Veja uma sequência de “Hereditário”:]

Sucede ainda que Ari Aster filma e dirige melhor os seus intérpretes do que escreve, pelo que o final, e a explicação dos horrores que afligem as personagens, não têm a clareza elucidativa, o bom acabamento e o poder aterrorizador e duradouro de nenhum dos filmes que estão a ser evocados a propósito de “Hereditário”, e são enumerados no início desta crítica. Ainda hoje sinto arrepios quando me lembro dos finais de “A Semente do Diabo” ou de “Aquele Inverno em Veneza”. Vi “Hereditário” de manhã, e à tarde já se me tinha varrido como é que acabava.

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