Estão a ver o Revenge of the 90’s? Aquelas festas que têm virado do avesso a noite portuguesa com aquele #throwback aos tempos em que brincávamos com pega-monstros e comíamos peta-zetas? Pois bem, o primeiro dia do NOS Alive 2018 teve uns quantos momentos em que quase parecia estarmos de volta àquela altura em que o nu-metal era “a cena” e o look ganga total uma opção recorrente.

Tudo começou com Bryan Ferry — certo, ele e mais algumas referências dos 80’s, mas vocês percebem. Pela primeira vez, quiçá, os pais dos milhares de adolescentes que costumam popular o Passeio Marítimo de Algés nesta altura do ano puderam fazer mais do que deixar os seus rebentos no viaduto ao pé do recinto e vieram aproveitar a música. A de Ferry, certamente, mas mais ainda a dos Nine Inch Nails, grupo liderado pelo incontornável Trent Reznor (o tipo com o nome mais fixe do mundo). Bastava vaguear pelo palco principal para perceber que a faixa etária que estava mais entusiasmada era a dos 35 para cima. “O que é isto?!”, disse, escandalizada, uma rapariga com uma flor em glitter pintada na bochecha da cara, assim que soaram os primeiros intensos acordes. Mesmo que não gostássemos da banda que começava a tocar, a reação estupefacta dos adolescentes já garantia um espetáculo divertidíssimo.

E foi nestes moldes que começou a saraivada musical que os norte-americanos trouxeram a Lisboa. O som no recinto, que estava excelente, reverberava nos copos de cerveja e nas caixas torácicas das centenas de pessoas que vestiam de preto e abanavam a cabeça ao som do groove metaleiro tão característico desta trupe. Reznor soava imaculado, a voz que saía daquele tronco que mais parecia uma cómoda em mogno era cristalina e poderosa, como toda a música que debitaram sem dó. Flutuando sempre por entre aquela mistura de stoner rock, com industrial e mil outras coisas mais, músicas como “I’m Afraid of Americans” (um cover de David Bowie), “Copy of a” ou a sexy (aliás, sexual) “Closer” foram se sucedendo e entusiasmando até mesmo aqueles que acham que rock n’roll é só aquilo que Alex Turner faz.

Com a noite a cair foram-se as inibições e até passos de dança foram avistados neste grande forrobodó metaleiro (até growl — gritos, para os mais leigos — houve com fartura) que só por si já fazia deste dia uma aposta ganha. Contudo, o ambiente de festa mudou completamente já perto do fim, quando as luzes baixaram — muitos achavam que o concerto tinha terminado — e Reznor cantou suavemente “I hurt myself today”. Depois de um hiato de vários anos, os NiN revisitaram a icónica “Hurt” que até Johnny Cash inspirou. Um episódio bonito que fechou com chave de ouro um dos melhores concertos do dia.

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“Olha que estes gajos até são muito fixes”, dizia um adolescente com uma t-shirt de Arctic Monkeys no final do concerto. Comprovou-se então que houve uma certa evangelização e a que a palavra do senhor (Reznor, entenda-se), pode muito bem ter ganho novos seguidores.

Miguel Araújo sentiu-se Freddie Mercury, Bryan Ferry deu um concerto discreto

O recinto estava ainda algo vazio quando Bryan Ferry subiu ao palco NOS, às 19h15. Com o público disperso, era fácil chegar às primeiras filas. Tão ou mais fácil do que fora no concerto anterior, em que Miguel Araújo inaugurou as atuações no palco principal do NOS Alive com uma banda alargada — músicos nas guitarras elétricas e acústica, baixo, bateria, teclas e nos (muitos) instrumentos de sopro — e com a seu pop açucarada, que ao vivo cresce a ponto de se tornar folk-rock entusiasmante. Foi assim, por exemplo, em “Maridos das Outras”, que começou certinha e cantarolada pelo público (“Sinto-me o Freddie Mercury a cantar o Radio GaGa”, brincou Miguel Araújo) e acabou jam folk-rock, com o teclista e Araújo na guitarra elétrica em grande nível num despique de riffs e notas.

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“Maridos das Outras” encerrou o primeiro concerto e parecia poder aquecer o ambiente para o concerto de Bryan Ferry. Porém, só com o prolongar da atuação do britânico é que o público se tornou mais numeroso junto ao palco NOS. Impecavelmente vestido de fato, mantendo inalterável a classe que tinha nos anos 1980, o cantor e músico de 72 anos entrou já com a primeira música, “The Main Thing”, a ser tocada pela sua banda. Esta inclui duas cantoras nos coros (uma também ajuda na percussão), um guitarrista, um baixista, um teclista, uma violinista e uma saxofonista.

Com um alinhamento best of, muito centrado no repertório dos Roxy Music mas com alguns dos seus maiores êxitos a solo presentes (“Don’t Stop the Dance” e “Slave to Love” foram dois dos destaques), o crooner falou pouco com o público, reservando os esforços para cantar, tocar piano e apresentar a sua mistura de rock, disco e synth-pop. Clacissimo pop dançável, portanto. O solo de saxofone em “If There Is Something”, o groove de saloon que espreitou, tímido, em algumas canções e a cover de “Let’s Stick Together”, de Wilbert Harrison — que o público dançou, que Bryan Ferry acompanhou com harmónica e que encerrou o concerto — foram momentos fortes mas nenhum teve o impacto de “Slave to Love” ou do clássico “Avalon” dos Roxy Music. No geral, o concerto foi bem conseguido mas discreto, até porque o publico que estava neste primeiro dia do festival, na sua maioria, não é o público habitual de Bryan Ferry.

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Os Snow Patrol dedicaram “Chasing Cars” aos Queens of the Stone Age

Mais público tiveram os Snow Patrol, banda que continua a atrair muitos fãs pelo grande sucesso de “Chasing Cars”, canção que se tornou maior do que os próprios Snow Patrol. A inclusão do tema na banda sonora da série (muito popular) “Anatomia de Grey” também não será alheia ao facto de nesta quinta-feira milhares de pessoas a terem entoado, muitas de telefone na mão para registar o momento. Com um pop-rock quase sempre sofrido e épico ao mesmo tempo, os Snow Patrol ofereceram a muita gente uma banda sonora para os estados de espírito mais chorosos e para as frustrações da vida (em especial as da adolescência).

O concerto até começou com problemas técnicos que o atrasaram em alguns minutos. “Acontece”, explicavam os Snow Patrol, enquanto iam enchendo chouriços: “Como estão todos? Está tudo bem?”. A banda tem um novo disco editado este ano, Wilderness, e até apresentou canções novas como “Empress”, mas é no passado que estão os êxitos.

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As antigas “Open Your Eyes”, “Run” e “Just Say Yes” não podiam faltar, mas só “Chasing Cars”, que dedicaram aos “amigos” Queens of the Stone Age, cabeças de cartaz do próximo dia de NOS Alive, foi entoada pela maioria do público. Ainda assim, talvez nada ilustre melhor a sonoridade dos Snow Patrol do que o momento em que o vocalista Gary Lighbody cantou “Make This Go On Forever” de braços erguidos para o céu, como se estivesse numa luta interior com o universo. Felizmente, os Snow Patrol não fizeram o concerto durar para sempre, antes pelo contrário: sem dourar a pílula, tocaram onze canções (bem executadas em palco, é preciso dizer) e deixaram o palco NOS para os Arctic Monkeys darem o concerto que todos esperavam.