Educação

Inquérito a alunos do 5º ano é “violação dos direitos da criança” e “recolha abusiva de informação”

1.486

Perguntas como "Sinto-me atraído por homens, mulheres ou ambos?" representam, na opinião de Isabel Abreu-Lima, especialista em psicologia educacional, "uma invasão de privacidade".

MARIO CALDEIRA / LUSA

Perguntas “inadequadas, invasivas e não inócuas” e “uma violação dos direitos e da privacidade das crianças”. É assim que Isabel Abreu-Lima, especialista em psicologia educacional e professora na Universidade do Porto, classifica o inquérito dado aos alunos do 5.º ano da Escola Francisco Torrinha, no Porto, do qual consta a seguinte pergunta: “Sinto-me atraído por homens, mulheres ou ambos?”.

O inquérito entretanto divulgado nas redes sociais criou polémica por pedir a crianças de nove anos para responderem, de forma anónima, à sua orientação sexual e definir a respetiva identidade de género. O Ministério da Educação disse desconhecer a situação e estar a investigar o sucedido e a associação de pais daquela escola explicou aos media que as perguntas surgiram no âmbito da disciplina de Cidadania, sob o tema Educação para a Igualdade de Género. Para a especialista consultada pelo Observador, o problema em questão é a invasão de privacidade: “Não se podem fazer estas perguntas a uma criança sem a autorização dos pais. São questões do foro privado”.

“Completamente inadequado no contexto de escola”

O facto de o inquérito ter sido entregue às crianças em contexto de sala de aula piora a situação, devido à relação entre professor e alunos: “Se um professor a quem o aluno reconhece autoridade e respeito entrega um formulário destes, a criança vai achar que tem de responder”. Isabel Abreu-Lima, que fala numa “invasão clara” da privacidade, afirma que não existe o direito de perguntar sem se dar o direito de não responder. “Parece-me completamente inadequado no contexto de uma escola. Não consigo perceber o que está por detrás disto. Trata-se de uma recolha abusiva e inconsequente de informação.”

“A criança vai ficar baralhada”

No contexto sociocultural em que vivemos as questões da orientação sexual e da identidade de género — a segunda pergunta do inquérito pede à criança para definir o seu “sexo/identidade de género” (homem, mulher ou outro) — são conceitos que, de um modo geral, “não são bem entendidos”, defende a especialista. “A criança vai ficar baralhada.”

“Os pais não têm de explicar estes assuntos aos filhos”

Este não é um assunto que todos os pais queiram discutir com os filhos e essa é uma liberdade que lhes assiste, defende Isabel Abreu-Lima. Mas, falando, é preciso bom senso e conhecimento dos limites de compreensão dos filhos. “Os pais têm de medir até que ponto a criança está à vontade para falar. Não há receitas mágicas e não há regras. Também não podem haver imposições.”

“Pais podem pedir ajuda e orientação”

Como os assuntos são sensíveis, é provável que nem todos os pais tenham pré-disposição e à vontade para explicá-los aos filhos. Nesse sentido, a especialista consultada pelo Observador refere que os psicólogos são um recurso a ter em conta. “Os pais podem consultá-los para pedir ajuda e orientação. E, depois, há sempre livros, alguns dos quais muito bem feitos, que, se lidos em conjunto, podem ser uma grande ajuda.”

Até ao momento, e apesar de várias tentativas telefónicas do OBservador, não foi possível chegar à fala com o diretor do agrupamento de escolas Garcia D’Orta, a que pertence o respetivo estabelecimento de ensino.

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: acmarques@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)