Web Summit

Sir Berners-Lee, Ronaldinho e a robô Sofia entram num bar…

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Francisco Peres faz um apanhado de 10 tipos de oradores da Web Summit, mas diz que as pessoas que valeria mesmo a pena ouvir estão demasiado ocupadas a trabalhar para vir falar.

HUGO AMARAL/OBSERVADOR

Autor
  • Francisco Peres

Como bem se lembram, há umas semanas o país parou mais uma vez (deve ter sido sensivelmente a 14ª vez nessa manhã) com o convite de Marine Le Pen para falar na Web Summit. E uns dias depois para se ultrajar com o desconvite dela. E uns dias depois com o reconvite dela. Uma fonte diz-me (esperei tantos anos para poder publicar estas três palavras num jornal que vocês nem imaginam) que ela nunca iria palestrar para os comuns mortais que só pagam 450 euros pelo bilhete, ou que arranjam através do amigo que tem um amigo que trabalha na EDP, mas para um grupo fechado de gente que não sabe o que fazer com o dinheiro e paga alguns, muitos, milhares de euros para uma Web Summit mais exclusiva, com acesso privilegiado a protofascistas.

(Diga-se que estou aqui a fazer piadas, porque é para isso que me pagam, mas se tivesse dinheiro para gastar e pudesse pagar 50x o preço do bilhete para poder ir à Web Summit sem ter de fazer networking, talvez pagasse. Era isso ou ia passar uns meses para Havana, não tenho a certeza.)

Tudo isto para dizer: pode parecer estranho uma Le Pen na Web Summit? Pode. As pessoas acham que vêm para cá ouvir o Steve Jobs e o Mark Zuckerberg falar. Realidade: o primeiro já morreu e o outro tenta fazer-se de morto. Mas estes eventos não vivem só de gente genial (talvez não vivam de todo de gente genial), e há muitos tipos de speakers diferentes (oradores, em Português). Fazemos aqui um apanhado rápido das pessoas que vêm orar à Web Summit quando as pessoas que valeria a pena ouvir, estão demasiado ocupadas a trabalhar para vir falar.

O Self-Help Speaker (ou o orador auto-ajuda)

Ninguém vem a estes eventos na expectativa de sair desmotivado/a. Para garantir que isso não acontece, é muito importante que estes eventos reúnam uma mão cheia de vendedores de sonhos. Este tipo de palestra tende a ser sempre a mesma coisa. A história tocante que os trouxe ao palco raramente varia. Tinham a vida com que todos sonham (emprego de sonho, mulher de sonho, carro de sonho) mas não eram felizes até que um dia decidiram libertar-se dessa vida presa ao dinheiro, agarraram naqueles não-sei-quantos-milhões que já tinham no banco, mais os não-sei-quantos-milhões de família com que já tinham nascido e depois foram viver a sua melhor vida intercalando fotografias em Bali e a cobrar milhões para ir dizer a salas cheias de que elas não se deviam preocupar com o dinheiro. Nenhum deles nos dirá a verdade: o mundo é uma merda, nós somos quase todos parte do problema e não da solução, e quem ganha a vida a dar lições de auto-ajuda é geralmente incapaz de resolver os seus próprios problemas. Excepto o Tony Robbins, porque tem a compleição física de quem nos obrigaria a retirar cada uma destas palavras à chapada.

O Gary Vaynerchuk dos Pobres

São gajos ótimos a dar conselhos peremptórios sobre temas absolutamente discutíveis. A sua explicação segue quase sempre uma fórmula muito precisa que serve para todos, mas a única coisa precisa acerca do seu percurso foi o dinheiro de família que herdaram. Como sabem que isso não se aplica à generalidade dos camponeses presentes na audiência, lançam-se numa apologia do sofrimento, que é no fundo o denominador comum a todos os que permanecem entre nós. Não o fazem utilizando a religião, porque já são em si um credo alternativo. Em vez da bíblia, o businessplan (um plano de negócio, leia-se). Em vez do confessionário, o LinkedIn. Em vez da hóstia, um businesscard(um cartão de visita). Em vez dos anjos, os business angels. Em vez do Novo Testamento, a quarta revolução industrial. Todo este conto de fadas será glorificado através de um verbo super impactante, porque parar é morrer. You have to hustle (não consigo traduzir, e se não souberem o que é, também não perdem grande coisa). No final morremos todos, incluindo o cão.

Token Portuguese Speaker

Um token é alguém que está onde está só para cumprir uma quota, ou pelo menos o mínimo olímpico em 2018. Não ficava bem fazer um evento em Portugal, cobrar esse evento a Portugal, cobrar os custos desse evento a Portugal, cobrar os bilhetes a uns milhares de Portugueses e ainda cobrar a empresas portuguesas pela oportunidade de estarem lá a dar ares de internacionais, com os seus cartazes e panfletos escritos em inglês de Mourinho, – e depois não ter nem um único orador Português. Não ficava nada bem, e a Web Summit lá vai desencantando alguns todos os anos. Pensem que isto está garantido até à 13ª edição: lá para a 9ª já devemos ter o Jorge Martinez no palco dos empreendedores musicais (este por outro lado, se não conhecerem, vale muito a pena pesquisar).

O Político

Estão a ver aqueles Festivais de Música que, à falta de boas ideias ou porque a música hoje em dia é toda meia triste, vão buscar um artista que não tem nada a ver com o resto, mas nos anos 90 vendia para chuchu?

São os Políticos na Web Summit. Não acrescentam nada de novo, a maior parte deles (dos que não são censurados pelo menos) nem sequer é relevante há mais de dez anos. Mas ficam bem no cartaz e como a maior parte das pessoas que vem à Web Summit não percebe de tecnologia, ninguém estranha. O Tony Blair, que veio comentar as eleições dos EUA de ontem, o Professor Marcelo virá um dia recomendar as três foto-biografias de quartéis de bombeiros que mais o marcaram a tempo de a malta ainda os comprar como presentes de Natal, ou o secretário de estado da Economia, que articulará meia dúzia de banalidades que até num robô treinado para o efeito seriam entediantes.

Aquele que ninguém sabe bem porque é que está lá

Eu gostava de vos conseguir explicar este mas, como o nome indica, acho que ninguém consegue. Há dois anos, houve um momento caricato em que o Ronaldinho Gaúcho teve o palco principal, audiência cheia (deviam ser umas 40, 50 mil pessoas) para falar dos seus investimentos. Mas o Ronaldinho não fala inglês e levou um intérprete que falava tão pouco quanto ele. A Altice Arena podia estar a arder que não tinha esvaziado tão rápido.

Este ano, o papel foi partilhado entre Princesa Beatriz de York, que foi falar sobre o Instagram, e por André Villas-Boas, que foi falar sobre o futebol e o Twitter (deixou de treinar há uns anos e nunca fez grande coisa nas redes sociais). Eu gostava de escrever aqui uma piada inteligente, mas a piada escreve-se sozinha, não?

Deixem-me tentar, pelo menos: pôr o Villas-Boas a falar sobre o Twitter é um pouco como pôr o José Avillez a fazer uma ted talk sobre ténis de mesa. A diferença é que esta ted talk seria provavelmente mais divertida.

O Speaker dos movimentos de um homem só

A título de exemplo, vamos chamar-lhe João. É o gajo que está em todas, que conhece toda a gente, que se mexe muito bem, que esteve sempre no sítio certo à hora certa, que tem ginga, jogo de cintura, paleio e mundos para dar ao mundo. Tudo o que ele diz soa bem, mas depois quando paramos para pensar no que ele disse ninguém tem bem a certeza do que é que ele queria dizer, ou até se ele queria dizer alguma coisa. Quando dermos por isso, já abandonou o palco. É único no panorama e tem uma particularidade: fala sempre no momentum, numa onda que vem aí, num movimento que vai mudar a história e que ele, e só ele, parece compreender. Depois, quando vamos a ver, este movimento vive de pouco mais do que do João e das pessoas que escrevem sobre ele.

O engana-velhinhos

Não é por acaso que a Web Summit atrai tantos departamentos de marketing das empresas em Portugal. Equipas inteiras com os seus sapatos bicudos e o cabelo coberto de gel entram aqui à procura da próxima coisa com que vão chatear as suas agências de comunicação. Está tudo a tentar perceber qual é a grande tendência do ano passado, que deviam começar a implementar para o ano, para parecerem modernos e inovadores.

Então todos os anos temos oradores a falar sobre the Next Big Thing. Isto – repare-se – não se limita a Portugal. Há quatro anos andavam os futurologistas a anunciar que os jornais e empresas de media ou faziam um Pivot to video (ver glossário) ou morriam. Despediram-se equipas inteiras umas atrás das outras. Contratou-se aquele cunhado do editor que fazia as montagens de férias para a família toda. Uns anos depois, as publicações que não fecharam foram só as que conseguiram fazer o un-pivot a tempo. O que seria destas empresas que se tinham mantidas vivas e saudáveis durante 150 anos sem a ajuda destes inovadores?

Este ano, no dia 8, há um palco inteiro dedicado a cryptocurrencies, uma espécie de versão digital daquelas trocas de escudos por euros no século passado, lembram-se? Essas, exacto, as que acabaram com malta na prisão. Não estou a dizer que haja uma relação entre esta última frase e os dois parágrafos anteriores, estou só a dizer que ela não veio aqui parar por acaso.

O Orador Repetente (Que Ninguém Queria De Volta)

Confesso que este é meio inventado, mesmo que metade do país esteja há três anos a desejar que na próxima Web Summit António Costa não esteja no palco na noite da inauguração. Mesmo assim, este ano tínhamos dois bons exemplares: o Ronaldinho Gaúcho (sim, o mesmo que causou um êxodo há dois anos) que acabou por não vir porque lhe ficaram sem o passaporte (quem nunca?).

E a robô Sophia. Verdade seja dita, todos os anos se fazem avanços gigantescos na Inteligência Artificial. Ao mesmo tempo, hoje conseguimos constatar que estamos a chegar a níveis nunca antes imaginados de vergonha alheia enquanto aquela marioneta glorificada lia as frases que lhe tinham preparado com a mesma intensidade que um dobrador de filmes pornográficos ao fim de seis horas num estúdio de som.

A Sophia veio sem Mário Crespo (para alívio de uma percentagem da audiência), mas com um irmão. Sem ter pais, isto pode parecer estranho a muita gente, mas como sei que estes leitores conhecem o Genesis de trás para a frente nem vou tentar explicar isso.

Capitão Óbvio

Uma pessoa que apresenta verdades tidas como indiscutíveis pelas comunidades científicas, religiosas, paranormais, provavelmente há milénios, mas que o orador apresentará em documentos cuidadosamente preparados como se tivesse descoberto o fogo. Os cães de Pavlov espalhadas pela audiência virão de imediato em seu auxílio para fazer uma espécie de festival holi do óbvio. O orador será então amplamente citado nas redes sociais com recurso a mais um hashtag de que o mundo não precisa, levando a discussões estéreis que foram resolvidas na Grécia antiga.

O Speaker Satélite

No final, há um tipo de Speaker da Web Summit que é o tipo de Speaker da Web Summit que não é um Speaker da Web Summit. Confusos? Eu já explico.

Esta é a pessoa para quem é tão importante falar na Web Summit, mas que está há três anos à espera de um convite do Paddy que nunca chega. Por muitos manifestos que escreva no LinkedIn e stories inspiracionais que partilhe no instagram. Porque um bom fazedor toma ownership (que é como quem diz, apropria-se) do seu próprio fado, o Speaker Satélite farta-se de esperar e convidar-se a si mesmo para uma mesa redonda num dos dias da Web Summit. Só por esta coincidência (no sentido mais lato do termo) de calendário, já pode acrescentar ao CV, e a todas as redes sociais que conseguir encontrar, que foi convidado de um evento da Web Summit.

Não é bem verdade, mas vocês deviam ver os likes que um post desses leva.

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras freelancer, copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.

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