Depois do Qatar, a Arábia Saudita. A tecnológica portuguesa Bandora, que tem uma solução para gestão de eficiência energética de edifícios, quer instalar uma “subsidiária na Arábia Saudita” para entrar nesse mercado.

“Começámos a olhar com muita atenção para o mercado da Arábia Saudita, onde já assinámos um protocolo com a Alsulaiman Holding”, holding que opera a marca Ikea na Arábia Saudita e no Bahrain, revelou ao Observador a empresária e CEO durante a Web Summit Qatar, em Doha.

Márcia Pereira foi ao evento para mostrar a solução tecnológica desenvolvida pela empresa fundada em 2017 no Porto. A Bandora desenvolveu “uma solução de inteligência artificial (IA) aplicada à gestão energética dos edifícios”, detalhou a fundadora. “Focamo-nos na gestão dos sistemas de ar condicionado.”

Os ares condicionados representam “em todo o mundo uma percentagem de 40%” do consumo energético dos edifícios. No Qatar é bem diferente, especialmente no verão, já que as temperaturas podem facilmente chegar aos 45ºC: “Estamos a falar de uma percentagem de 70%, portanto aqui o problema é real, tem um maior impacto.”

A solução da Bandora é “agnóstica” em relação à tecnologia e aos fornecedores de ar condicionado instalados nos edifícios. Tudo para obter “em média, 40 a 50% de poupança” na fatura energética. “A cada cinco minutos”, as soluções da empresa “dão uma instrução [ligar, desligar, mudar a temperatura, alterar a humidade] para gerir os sistemas de ar condicionado de uma forma automática, sem supervisão” para procurar a máxima eficiência.

“Podemos ligar-nos diretamente aos equipamentos de ar condicionado, sem qualquer disrupção, custos ou investimento à cabeça”, disse Márcia Pereira. Em troca, a Bandora “fatura uma percentagem da poupança” conseguida pelos clientes. Em Portugal, a tecnológica trabalha com a Brisa, a gerir a eficiência energética das áreas de serviço Colibri. Tem ainda na lista de clientes a McDonald’s, Burger King e, nos Estados Unidos, a Dunkin’ Donuts.

Na Web Summit, em vez de uma booth de exposição, em rotação diária entre as milhares de startups do evento, o Observador encontrou a fundadora da Bandora numa área diferente: no chamativo stand da Ooredoo, a maior operadora de telecomunicações do Qatar.

Startup portuguesa Bandora conquista lugar na CES do próximo ano

É mais um desenvolvimento depois da entrada da Bandora no mercado do Qatar, no ano passado. “Fomos aceites no programa de aceleração Tasmu Smart Qatar, financiado pelo Ministério das Comunicações e Tecnologias de Informação do Qatar”, relatou a fundadora. “Automaticamente tivemos a chancela e a aprovação do próprio governo”, que deu força à empresa para abordar o mercado qatari. O programa “tem o contributo e é patrocinado pela Ooredoo”, que “está presente em sete geografias do Médio Oriente”. A Bandora “foi a única empresa dentro do programa de aceleração que foi convidada a estar em exposição no stand” da Ooredoo.

Ooredoo, Web Summit Qatar 2026 Sportsfile

O stand da operadora de telecomunicação Ooredoo, na Web Summit Qatar

A Bandora está “em vias de estabelecer uma parceria” com a operadora de telecomunicações. “A forma como estabelecemos a conectividade entre o edifício e a nossa plataforma em cloud, através desta gateway, será com um cartão SIM, que será fornecido para esta região pelo Ooredoo”, afirmou Márcia Pereira. Através desta parceria, a solução da Bandora passará também a integrar a oferta empresarial da Ooredoo.

“O Qatar está cada vez mais a abrir-se para o mundo”, considerou Márcia Pereira. “Há um ano, tentámos entrar no mercado dos Emirados Árabes e foi muito complicado, porque não tínhamos um apoio de agentes locais com o peso.” Com um pé em território qatari, a ideia é que a Bandora possa “usar o mercado como uma rampa de lançamento, como uma plataforma para todo o Médio Oriente, para toda a região do Golfo”, detalhou.

A Bandora está já com um processo em curso para ter também uma subsidiária no Qatar, o que ainda está a ser “formalizado”, mas assumidamente um  “processo muito simplificado, tudo online”. “Através do Qatar Financial Center, conseguimos cinco anos de isenção de impostos, ou seja, não existem quaisquer custos. Atribuem também o visto de trabalho e a residência ao fundador ou diretor-executivo da empresa”, afirmou.

Questionada sobre as diferenças culturais, ainda mais sendo uma mulher à frente de uma empresa, confessou que “não tem sentido”, acreditando, até, que “pretendem dar uma imagem” diferente. “Contrariamente àquilo que era a minha perceção, as mulheres têm um peso muito relevante na economia”, assegurou. “Podem atuar um pouco mais na sombra, digamos assim, mas conseguem ter uma grande influência.” Notou, por exemplo, que metade das startups que entraram no programa de aceleração era detida ou cofundada por mulheres.

O Observador viajou até ao Qatar a convite da Startup Portugal