Web Summit

Um guia para combater o FOMO (o medo parvo de ter ficado de fora)

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Para todos aqueles que não conseguiram ir à Web Summit 2018, mas queriam muito ter estado na fila para a selfie com aquelas letras tipo "I Amsterdam".

Estão a sentir-se tristes por não terem ido à Web Summit? Não estejam, não valeu a pena

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A Web Summit acabou e houve uns cinco portugueses que não conseguiram ir. Para o ano há mais, por hoje temos um guia para combater aquele sentimento de desespero do Vasco, que nunca foi a uma Web Summit e que promete que da próxima é que é, e dos outros quatro.

Se estiverem com pressa eu faço já um resumo: estão a sentir-se tristes por não terem ido à Web Summit? Não estejam, não valeu a pena.

Pensem assim: ninguém com dois dedos de siso gosta de tirar dois dentes do siso. Mas mais de metade das pessoas no vosso Facebook (e todas as pessoas no vosso LinkedIn) começavam a fazer fila para tirar os ditos-cujos se o hashtag #ViverSemSiso começasse a ganhar tração. Lembram-se da vossa mãe ter perguntado cerca de 75.000 vezes: “Se os teus amigos se atirassem de um penhasco tu também te atiravas?” A resposta é que há três tipos de pessoas no mundo: as que sim, claro, até porque desde o Ice Bucket Challenge ao Mannequin challenge ainda não perderam uma e não iam começar agora. As outras duas dividem-se entre as que estariam sentadas na borda a beber copos maravilhadas com o espetáculo e as que iam ficar com pena de ter perdido o momento. É para estas últimas que eu escrevo, na esperança de vos trazer algum consolo nesta que será a vossa hora mais negra.

Bom, nas célebres palavras dos Monthy Python (e sendo a frase que mais me passou pela cabeça em dois dias e meio de Web Summit):

“Get on with it.”

Então, deixem-me explicar porque é que vocês não perderam rigorosamente nada sem vir à Web Summit.

Ninguém aprende um chavelho

Não percamos tempo com meias palavras. Se querem aprender coisas novas, leiam um livro. Vejam um Ted-X. Ouçam o podcast fumaça. Observem o mundo à vossa volta. Desfolhem aquela enciclopédia que compraram ao Círculo de Leitores e que está a decorar a estante e a acumular pó atrás da TV há 18 anos.

Eu vi palestras que serviam mais para o orador se dar a conhecer (a si ou ao seu produto) à audiência do que a ensinar o que quer que fosse. Lembram-se dos badges do Foursquare há uns anos? A pessoa recebia essa triste forma de reconhecimento digital sempre que visitava x locais. O circuito dos speakers é parecido, mas acontece com atualizações de LinkedIn. Aliás, houve um personagem que subiu ao palco só para mostrar dois anúncios. Vi palestras cujo resumo era “as pessoas cada vez mais usam o telemóvel”, e “a publicidade é cada vez mais digital.”

Com dúvidas? Não acreditam? Vejam só as partilhas no LinkedIn com o #websummit para ver as grandes lições que os idiotas que foram sentem que aprenderam. Uma ex-colega de trabalho resumiu um dia na Web Summit dizendo que tinha aprendido que afinal o que contava era o storytelling. Como se estivéssemos em 2014 e o Carpool karaoke ainda fosse fixe.

A culpa não é necessariamente dos oradores, dão-lhes 18 minutos para falar e nunca daria para fazer grandes discursos com isso mas pronto: aqui, não perderam nada.

Mas vocês se calhar não iriam à Web Summit para aprender, se calhar queriam ir para conhecer o próximo Facebook. Era, não era? Dar aquela de hipster do empreendedorismo e poder dizer que foram os primeiros a gostar do Conan Osiris do Blockchain? Se for o caso tenho boas e más notícias. As más é que o meu caro leitor é meio imbecil. As boas é que:

É impossível perceber o que é que metade das startups faz…

Pode parecer injusto. Nós criticamos tantos outros jornais e canais por se focarem nos players e nos speakers, e quase não falarem de startups exatamente naquele evento do ano que era suposto ser dedicado às startups — mas também sabemos que nós próprios não dedicámos grande atenção às startups em si.

A verdade é que é mais fácil apontar a alvos fáceis. Sou o primeiro a admiti-lo. Coisa que as startups não são, que mais não seja porque é impossível perceber o que é que metade delas faz. Aquele Glossário pode parecer piada, mas a verdade é que quase metade das startups esconde aquilo que faz com buzzwords.

Não acreditam? Permitam-me fazer publicidade de graça (juro que não me pagaram nada exceto duas garrafas de rum tailandês) à STEMera, que se define da forma mais simples possível: STEMera is an Ed-tech company & World’s Premier Blockchain Eco-system for Online Technology Education providing E-learning and Career Advancement platform…. Bom, vou parar por aqui que só de escrever senti a minha vontade de viver a desvanecer-se. E se sobrevivi a 2 dias e 1 noite de Web Summit com uma molécula disso intacta, podem acreditar que não me vou arriscar a desperdiçá-la. A Ponte 25 de Abril fica demasiado perto de minha casa, amigos.

Alguns dos casos parecem quase o tipo de piada que escreveríamos só para ridicularizar. Não vou apontar dedos a ninguém, mas se fosse obrigado, se calhar lembrava-me de o Wapi, “o guru do seu animal de estimação”. (Sendo que já tive cães com menos de quatro neurónios que eram inteligentes o suficiente para não sentirem que precisavam de um guru). E o que é a Wapi, perguntam vocês, donos de cães meios burros e de gatos insuportáveis? A Wapi responde: [Wapi is an] authentic pet-loving community, a holistic multi-service CRM SaaS solution for pet care pros, and a lifestyle app for Pet owners.”

Outro bom exemplo: O ToyPut, do comité de startups japonesas, que se descreve da seguinte forma:

“Hello, Global Kids artist. Build product. Share product. Unlock kids ability. Unlock kids ability information.”

Perceberam? Aposto um jantar no Ramiro que não.

… E é impossível perceber porque é que a outra metade existe

Não me levem a mal. Não me acusem de ser um velho do Restelo, que eu até vivo em Alcântara. Mas, efetivamente ,há startups ali na Web Summit que querem “reinventar a comunicação dentro de um escritório como nunca imaginaram.” Ou seja, têm para oferecer o email. Talvez, quem sabe, o Slack.

Há umas particularmente interessantes, como a Zoobox.  E o que é que a Zoobox faz, perguntam vocês, que a faz tão interessante? A Zoobox é uma app para as pessoas que querem sair do mundo das apps e viver a vida off-the-grid. Ou seja, é uma app para ajudar as pessoas a passarem dois ou três dias sem apps.

Parece-vos parvo? Ótimo, a mim também. Dá-vos vontade de fazer um speed dating entre o vosso joelho e os dentes do empreendedor que se lembrou disto? Não? Não? Pronto, então se calhar sou só eu.

Mas o que vale é que têm acesso a startups únicas, certo?

Claro. Eu, só num dia, tive acesso a 8 startups que diziam ser as únicas que conseguiam ligar diretamente uma equipa de marketing a um mercado de influenciadores. E estive à frente de 4 stands de startups que diziam ser as únicas startups de alojamento para estudantes (Miguel, se estás a ler isto, fiquei com os contactos. Se quiseres, peço a uns amigos dos Super Dragões que lhes façam uma visita).

Ou seja, sim todas as startups são únicas. Tal como vocês, caros leitores, são únicos e maravilhosos. Mas só porque têm uma impressão digital que é diferente dos outros 7 biliões de pessoas na terra não me vai fazer investir em vocês nem três cêntimos, amigos.

Por falar em dinheiro:

Está toda a gente a fazer dinheiro e tu só estás a perder tempo

No meio disto tudo, o deprimente — aquilo que é realmente deprimente — é que está toda a gente a fazer dinheiro e nós estamos só a perder tempo. O Paddy ganha o que ganha (façam as contas, não é difícil). Os speakers ganham o que ganham para cuspir meia dúzia de generalidades em sete ou oito minutos.

Até os vendedores de comida estão a faturar. Ontem venderam-me um kebab de galinha a 9 euros, o kebab nem era particularmente bom e o puto que estava a trabalhar o espeto tinha mais ou menos nove anos. O dono de uma rulote passou a comentar que já tinha feito 13.000 euros.

Umas almas particularmente empreendedoras que se cansaram de esperar por um investidor começar a passear-se pela Web Summit de balde de baixo do braço à procura de doações. Desculpem, investimentos.

E eu, amigos? Tudo o que ganhei foram dois dias a tentar trabalhar de ressaca e uma manhã arrependido de ter ido comer chinês demasiado picante na noite anterior. Mas apesar de tudo:

Nem tudo foi mau. Havia 3 coisas boas na Web Summit:

Por um lado, perderam o stand da Startup Canada que era um bar e distribuía cerveja a torto e a direito. De graça, disseram duas almas corajosas que sobreviveram às duas horas de fila.

Por outro, para os leitores lisboetas: perderam a única oportunidade de comer uma francesinha a sério por cá, já que a cervejaria Cufra montou uma tendinha. Mas pensem assim, se efetivamente não conseguiram vir à Cufra, já têm mais uma boa desculpa para ir ao Porto, e prometo-vos que passam lá dois dias bem melhores do que tinham passado cá.

Por último, perderam a PastBeeKorea, que é uma app que vos ajuda a recordar eventos importantes do vosso passado. Acho eu. O que pode vir a dar jeito se partilharem da minha incapacidade de recordar metade da noite anterior sempre que acordam a saber que ontem fizeram algo de que se arrependem mas sem ter bem a certeza o quê.

Enfim, Vasco, vais para o ano. Vais odiar.

*Francisco Peres escreve artigos a fazer pouco de anglicismos mas tem como títulos profissionais as palavras freelancer, copywriter e content strategist. Até à data de publicação deste artigo trabalhava com várias startups, mas suspeita que isso está prestes a mudar.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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