A Sporting SAD oficializou no dia 9 a emissão obrigacionista de 30 milhões de euros a três anos com uma taxa de juro de 5,25%, com arranque no início desta semana, mas a atualidade do universo leonino acabou por ser dominada de forma incontornável pela detenção do antigo presidente do clube, Bruno de Carvalho, que aguardará julgamento em liberdade depois de quatro noites passadas no posto da GNR de Alcochete. “Os investidores e os sportinguistas em geral distinguem a administração anterior e a nova. Estamos em momentos diferentes, são administrações diferentes, há paradigmas diferentes. Os riscos que existem estão todos no prospeto que foi lançado, caso contrário teria de ser feita uma adenda ao mesmo. De resto, confiamos na Justiça”, explica Francisco Salgado Zenha, vice presidente do clube e administrador da SAD.

Numa conversa com jornalistas a propósito dos contornos do empréstimo obrigacionista em andamento, e que poderá ou não subir o valor caso a SAD assim entenda esta sexta-feira (data limite para essa alteração), o dirigente do clube verde e branco não passou ao lado dos efeitos diretos e indiretos que os desenvolvimentos sobre o caso das agressões na Academia em Alcochete podem ter mas relativizou os mesmos até pelas indicações recebidas até ao momento. “Os clubes de futebol têm mostrado boas intenções e procuram resolver os problemas de forma amigável, penso que será assim com os próximos. Estamos confortáveis com a situação, já resolvemos o caso mais importante e os contactos têm sido positivos. Acordo por Gelson Martins? Como devem perceber, essa parte já é confidencial”, destacou, passando ao lado das notícias que colocam a negociação com o Atl. Madrid perto de um acordo total a rondar um valor acima dos 20 milhões de euros que poderá ainda incluir jogadores.

“Os fatores de risco são importantes mas estão no prospeto apenas para prever situações. Não acredito que o que se tem passado tenha reflexo na entidade Sporting e na SAD”, acrescentou a esse propósito. De referir que, por exemplo, a sociedade leonina dizia no prospeto enviado à CMVM que os valores pedidos pelas rescisões unilaterais de contrato de Gelson Martins, Podence, Rafael Leão e Rúben Ribeiro ascendiam a um total de 273 milhões de euros mas que, caso fosse concedida a justa causa aos jogadores que entretanto saíram, a SAD corria ainda o risco de, além de nada receber, pagar 6,8 milhões de euros.

Nesse contexto, e abordando ainda a “herança” que ficou da administração anterior, Francisco Salgado Zenha recordou que existe uma auditoria de gestão em curso que não deverá ser concluída antes do início de 2019 mas salientou uma ideia relevante para a análise desse ponto: “Não podemos apagar ou esquecer o passado nem ficarmos condicionado por ele”.

“Sempre tentámos passar desde que chegámos uma imagem de credibilidade e confiança. Nesta altura, e chegámos há pouco mais de dois meses, tivemos reuniões com quase todos os parceiros e penso que não fugirei da verdade se disser que todos eles pensam dessa forma. Somos leais, cumprimos as nossas obrigações e só vamos prometer o que podemos mesmo cumprir. Em abril/maio só havia dois grandes grupos bancários, o Millennium BCP e a Caixa, e agora temos também o Novo Banco, entre outros”, referiu, prosseguindo: “Não vi nenhum buraco nem anormalidade desde que cheguei, a nível contabilístico. Publicámos os resultados trimestrais auditados para mostrar confiança. Houve coisas bem feitas antes do ponto de vista financeiro, outras nem por isso. Por exemplo, não devemos estar à espera do último mês para rolar uma dívida – temos de pensar nesses detalhes. Herdámos isto, fizemos um excelente trabalho apesar de, idealmente, dever ter sido feito com mais antecedência e tiro também o meu chapéu ao capital humano do Sporting, pela qualidade das pessoas que tem cá dentro”.

Ainda a propósito de declarações que tivera na véspera na SIC, quando recusou a ideia de falência técnica da SAD verde e branca depois dos resultados positivos alcançados no primeiro trimestre do exercício 2018/19 – e abordou “a influência de quem foi fazendo campanha negativa pela situação financeira do Sporting com o intuito de boicotar a atual operação” –, Salgado Zenha reforçou que “os ativos e passivos correntes do futebol não podem ser comparados com outras áreas”.

“Tudo no futebol é diferente, não se pode dramatizar coisas que sempre existiram. O FC Porto sim tem falência técnica, não cumpre o fair-play financeiro e ninguém disse nada sobre isso durante o empréstimo obrigacionista que fizeram. E dou este exemplo não para falar dos rivais mas porque é aquilo que temos como comparável na nossa área. Com os resultados trimestrais, os capitais próprios e os resultados líquidos passaram de negativos a positivos e entretanto houve a venda do Rui Patrício, que são mais 14 milhões de euros que entram para dezembro no resultado semestral. Se com um possível negócio de Gelson Martins chegaremos ao recorde da SAD [30,5 milhões positivos em 2016/17]? Não sei porque depende sempre também dos investimentos que teremos de fazer, no relvado, em campos, noutras matérias… Importa é haver equilíbrio”, frisou.

“Escolhemos um treinador com pinças no qual acreditamos muito, temos reforçado a estrutura do futebol, estamos a mudar a parte extra futebol onde estávamos muito atrasados em relação ao que é a marca, dinamizando a parte comercial e de marketing. Temos uma estratégia bem delineada que vai levar ao sucesso financeiro. Não quero criar expetativas mas acredito que na próxima época desportiva os resultados disso estarão mais visíveis. Esta era uma administração que tinha de aprovar por exemplo a compra de uma garrafa de água… Queremos criar uma estrutura profissional e sofisticada que consiga potenciar receitas quando estivermos bem e a ganhar desportivamente, e consiga mitigar a redução das mesmas quando isso não acontecer”, acrescentou, antes de admitir que não houve tempo para mudar a identidade gráfica da operação que já existia.

Assumindo que o próximo passo no plano financeiro passará pela renegociação da reestruturação com os bancos, que tinha um princípio de acordo desenhado mas sem qualquer vínculo (ou seja, continua assim válido apenas o acordo quadro alcançado em abril de 2014), Francisco Salgado Zenha admitiu que a taxa de 5,25% “é um valor caro mas que se explica pela necessidade de dar também um prémio depois de um período de maior turbulência”. “Por isso é que não gostava de emitir montantes muitos grandes, por achar que está caro. O mercado é dinâmico e tem memória curta. Tenho imensa confiança no trabalho desta Direção, que ganhará mais credibilidade e depois já haverá predisposição para valores mais baixos. Em abril/maio, quando se falava num valor de 6%, era uma altura de desespero. O Benfica fez o último a 4%, o FC Porto a 4,75%. Se o Sporting for campeão pagaríamos muito menos, por exemplo”, concluiu.