“Ouvi a algazarra e os gritos da caça”. John Chau chegava pela primeira vez à Ilha Sentinela do Norte, na Índia, onde se encontra uma das comunidades tribais mais isoladas do planeta e onde terá sido morto quando lá voltou, dois dias depois, no dia 17 de novembro. Antes de voltar de barco para fazer a segunda visita — e depois de ter subornado pescadores locais para o levarem até próximo da ilha — o missionário norte-americano descreveu a experiência num diário, escreveu uma carta para os pais e entregou tudo a um conjunto de pescadores, que acabaram por, alegadamente, ter visto o corpo de John ser arrastado pelos membros da tribo. Agora, a família partilhou com a comunicação social o que foi escrito.

Mal chegou à ilha, John certificou-se “que estava fora do alcance das flechas”. “Infelizmente, isso significava que também ficava fora do alcance da audição”. Por isso, decidiu aproximar-se mais um pouco. “Eles — que eram cerca de seis pelo que podia ver — gritavam comigo. Tentei imitar as palavras deles de volta e eles desataram-se a rir a maior parte do tempo. Deveriam estar a dizer palavrões ou a insultar-me”, confessou o norte-americano na última entrada do seu diário, citado pelo The Guardian.

[Veja no vídeo quem são os sentineleses, a tribo isolada que John Chau quis conhecer]

John tinha visitado a ilha para converter a população ao cristianismo. “Eu gritei ‘o meu nome é John, eu amo-vos e Jesus ama-vos'”, revelou. “Arrependo-me de ter começado a entrar em pânico quando vi flechas nos seus arcos. Peguei no peixe [uma oferenda] e atirei-o para a direção deles. Eles continuaram a aproximar-se”, acrescentou.

Depois disso, o missionário não teve outra opção, senão a de voltar para a canoa e tentar chegar ao barco dos pescadores: “Remei como nunca o fiz na vida, de volta para o barco. Senti algum medo, mas fiquei, essencialmente, desapontado. Eles não me aceitaram logo”. Enquanto fugia, um dos habitantes da ilha, “provavelmente com cerca de dez anos, talvez um adolescente”, lançou uma seta que atingiu a bíblia que trazia consigo, conta o jornal britânico, segundo os registos que ele próprio deixou. “Bem, fui atingido pelos sentineleses”, escreveu nessa noite, a bordo de um barco, depois de ter dado 25 mil rupias (310 euros) aos pescadores para o deixarem ficar com o barco ancorado próximo da ilha.

A incerteza e o medo também fizeram parte da viagem, havendo mesmo momentos em que pedia a Deus para sobreviver: “Se queres mesmo que seja atingido com uma seta ou até mesmo morto, então que assim seja. Apesar disso, acho que seria mais útil vivo“.

Não quero morrer. Seria mais sensato sair e deixar outra pessoa continuar? Não, eu não penso assim. Ainda poderia voltar para os Estados Unidos de alguma forma, já que ficar aqui parece ser quase morte certa”, escreveu ainda John Chau.

Quando se preparava para a segunda visita à ilha, dois dias depois, John Chau decidiu escrever uma carta aos pais a explicar o que estava a fazer. “Podem pensar que sou louco nisto tudo, mas acho que vale a pena anunciar Jesus a estas pessoas”, começou por dizer, pedindo para que “não fiquem zangados com eles [a tribo] ou com Deus” caso morresse. “Em vez disso, por favor, vivam as vossas vidas em obediência a qualquer coisa que Ele vos peça”, argumentou.

Isto não é algo sem sentido. A vida eterna desta tribo está em causa e eu mal posso esperar para vê-los à volta do trono de Deus, a adorar a sua alma na sua própria língua”, disse ainda John Chau.

Esta quarta-feira, a família de John publicou um comunicado no seu Instagram, onde expressou “a tristeza” com tudo o que aconteceu. As autoridades, entretanto, estão a ter dificuldades em aproximar-se da ilha para recuperar o corpo. “Ele amava Deus, a vida, ajudava os necessitados e não tinha nada além de amor pelo povo sentinela”, disseram. E acrescentaram: “Perdoamos aqueles que foram supostamente responsáveis pela sua morte”, pedindo também a libertação dos sete pescadores que levaram John Chau à ilha e foram detidos mais tarde.

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John Allen Chau

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Esta ilha indiana está protegida pela lei: ninguém se pode aproximar a menos de cinco milhas. Essa regra foi estabelecida porque os sentineleses são muito agressivos, não querem receber visitantes e preferem continuar isolados. Em 2004, Depois do tsunami no Pacífico, foram enviados meios aéreos para sobrevoar a ilha e tentar perceber o impacto na Sentinela do Norte. Mas foram recebidos com lanças de fogo e pedras, levando por isso o Governo a tomar a decisão de manter a ilha isolada conforme a vontade da população local.