Crítica de Livros

Dulce Maria Cardoso criou Eliete, mas o mundo dela também é o nosso

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Pensavam que seria difícil superar-se, mas Dulce Maria Cardoso fê-lo. Em "Eliete", abre-nos as portas à "vida normal" e por isso põem-nos a pensar. Fechado a sete chaves, vive também o mundo inteiro.

Dulce Maria Cardoso estreou-se na ficção com "Campo de Sangue" (2001) mas tornou-se conhecida com "O Retorno" (2011)

ANDRÉ DIAS NOBRE / OBSERVADOR

Título: Eliete — A vida normal
Autor: Dulce Maria Cardoso
Editora: Tinta-da-China
Páginas: 288
Preço: 18,90€ (17,01€ no site da editora)

O novo romance de Dulce Maria Cardoso vai ser lançado a 30 de novembro, sexta-feira

Se um nome dissesse tudo, Eliete seria uma mulher estranha (sobretudo tendo em conta que nasceu em 1974, quatro meses depois da Revolução, quando já ninguém se chamava assim). Mas a personagem que dá título ao novo romance de Dulce Maria Cardoso, quase, quase a ser publicado, é “normal”. O mais normal que pode haver. Com uma vida banal, recheada daquelas pequenas conquistas que enchem de orgulho quem não sabe sonhar alto, Eliete trabalha como agente imobiliária, é casada, tem duas filhas, um carro na garagem e uma casa com vista para o mar. Tanto quanto se sabe não tem dívidas ao banco, ambições nenhumas, invejas algumas, e pouca força de vontade para ser mais do que aquilo que tem sido sempre: mediana.

Trocando assim, por miúdos, o novo romance de Dulce Maria Cardoso, sucessor do muito famoso O Retorno, parece ser tão aborrecido quanto a biografia da sua personagem — essa Eliete que em adolescente sonhava apenas em ter a carta enquanto o namorado queria percorrer o mundo com uma Stratocaster cor de cereja às costas. Só que nunca se deve julgar um livro pela capa (e a deste até é bem bonita). As coisas nunca são exatamente como parecem ser, e a vida de Eliete também não o é. Felizmente para o leitor, isso torna-se logo evidente, quando a “vida normal” de Eliete é interrompida pela súbita hospitalização da avó e pela descoberta de que esta sofre de demência. É aí que a agente imobiliária de 42 anos começa a perceber que há alguma coisa que não está bem.

Ao início, Eliete não sabe se o problema está apenas na avó — a avó que “sempre poupara a sua única neta que tanto amava” e que iria certamente “continuar a fazê-lo” — ou nela própria. Afinal, porque é que haveria de haver alguma coisa de errado? Tinha tudo o que sempre quis ter: “Uma casa, um homem bom, filhos saudáveis, um carro, Natais em família, jantares com amigos, álbuns de fotografias com as viagens de férias”. Até que se dá a epifania, durante um jogo de futebol. É quando Éder marca o golo que leva à vitória de Portugal na final do campeonato europeu de futebol, que Eliete, rodeada pelos amigos e família, se apercebe que está, afinal, sozinha. Não há alegria na alegria dos outros porque dentro dela só há uma grande tristeza. Um grande vazio.

Começam então a surgir as pequenas mudanças, mas não as verdadeiramente grandes e necessárias. Com a sua vontade “lassa”, Eliete não consegue fazer mais do que inscrever-se no ginásio ou arranjar um amante, cuja existência tenta desculpar de todas as maneiras possíveis. Deixar o Jorge e acabar com um casamento de 20 anos está fora de questão, sair de casa ainda menos. Há máscaras impossíveis de largar.

É na Internet que Eliete encontra a legitimação para muito daquilo que faz. As redes sociais são, de resto, essenciais para o desenrolar da história e servem para ilustrar uma das ideias centrais do romance de Dulce Maria Cardoso: apesar de existirem plataformas que nos permitem estar mais perto uns dos outros, estamos cada vez mais distantes. O Facebook, o WhatsApp ou o Instagram, que as personagens do livro usam com regularidade, não nos aproximam, separam-nos. A certa altura, Eliete diz: “Ainda bem que existia o Facebook para nos mostrar que, independentemente dos sonhos que tenhamos acalentado, acabávamos quase todos da mesma maneira, velhos e gordos, demasiado queixosos das pequenas derrotas com que a vida nos fintava, demasiado orgulhosos das pequenas vitórias com que fintávamos a morte, demasiado opinativos quezilentos, sós”. Esta é uma das razões pelas quais Eliete é extremamente atual.

Um romance de mulheres

Se n’O Retorno encontramos  sobretudo vozes masculinas, em Eliete acontece precisamente o contrário. O romance é dominado por mulheres (Eliete é apenas uma delas): há a avó, Maria de Lurdes, que veio do Vimeiro para Cascais com o Sr. Pereira, que trabalhava nos paquetes, e um filho sem pai nos braços; a mãe que a criou sozinha em casa da avó depois de o pai, o Antoninho, morrer num acidente automóvel na Marginal; há a Milena, a melhor amiga, mediana como ela mas advogada de sucesso; e ainda as duas filhas, Márcia e Inês, as representantes de uma nova geração que talvez consiga fugir às correntes do passado.

Mas também existem semelhanças entre os dois livros. E não é apenas no facto de ambas histórias serem narradas na primeira pessoa, o que permite ao leitor colocar-se mais facilmente na pele das personagens e sentir de perto os seus dramas e angústias (o que numa altura em que a falta de empatia parece ser um mal geral é uma dádiva caída dos céus). São apenas pormenores, mas que tornam Eliete num sucessor natural d’O Retorno.

Apesar de este livro não ser sobre o Estado Novo ou sobre a Revolução, existem inúmeras referências aos dois períodos. Pairam sobre toda história — como uma sombra. Tal como Rui, Eliete, que perde o pai muito nova talvez por culpa do 25 de Abril, também vê a sua vida interrompida por um acontecimento traumático (ainda que aqui o trauma seja completamente diferente) e isso faz com que, pela primeira vez, olhe para as coisas com outros olhos (n’O Retorno, Rui, enquanto escreve uma carta ao tio em que admite que só agora é que começou a pensar em certas coisas, agora que a vida mudou). Os dois romances passam-se na linha de Cascais e até há um animal de estimação com o mesmo nome — Bardino. Em Eliete, é uma dinastia de gatos; N’O Retorno, o cão que viveu antes da Pirata.

A história de Eliete também se desenrola num ambiente familiar, mas são poucas as cenas de exterior. A narrativa é quase sempre delimitada por quatro paredes. Isso não quer dizer que a história de Eliete não possa ser extravasada para fora do apartamento onde mora com o marido e as filhas em Cascais. Vista com mais atenção, a “vida normal” de Eliete pode servir de metáfora para o mundo atual onde, inundados por informação, parecemos incapazes de ver o que está mesmo debaixo dos nossos narizes porque estamos fechados dentro da nossa própria bolha — da nossa vida, da nossa casa, da nossa normalidade. E o que não é normal é estranho — causa tempestades, como a que se abate sobre a vida da personagem de Dulce Maria Cardoso e sobre Cascais. A vontade “lassa” de Eliete não é desculpa: ela não vê porque não quer, ela não age porque não quer.

Eliete é um convite à reflexão, pessoal e não só (não é isso que faz toda a boa literatura?). Devemos ignorar o que se passa à nossa volta e seguir em frente como se nada for ou devemos sair e encarar a tempestade? Chuva é apenas chuva, e as grandes mudanças fazem-se do lado de fora. Se Eliete o fará, não sabemos — o romance acaba abruptamente, com um susto, e deixa o leitor agarrado à frase: “Fim da primeira parte”. Vai ser preciso esperar pelo próximo volume para saber o desfecho da história.

E quanto a Dulce Maria Cardoso? Depois de O Retorno, romance que afirmou a autora como uma das melhores da atualidade em Portugal, as expectativas estavam altas. Haveria certamente quem achasse que não seria capaz de se superar. Não foi isso que aconteceu. A solidez e mestria com que construiu a história de Eliete deixa claro o seu valor enquanto escritora. Mas mais importante do que isso, em Eliete, Dulce Maria Cardoso deixa-nos a pensar. Numa altura em que a ponderação anda em falta, isso é o mais importante.

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