Globos de Ouro

Assim renasce uma estrela: Freddy Mercury voltou a brilhar nos Globos de Ouro

1.076

"Bohemian Raphody" levou a melhor sobre "A Star Is Born". O filme de Bradley Copper com Lady Gaga no papel principal levou apenas um Globo de Ouro para casa. Glenn Close foi a "Melhor Atriz".

O filme sobre os Queen ganhou na categoria de melhor de drama. Rami Malek foi considerado o melhor ator

Getty Images

A cerimónia estava a ser previsível. Christian Bale tinha ganho o prémio de “Melhor Ator” pelo seu papel em “Vice”, Alfonso Cuarón tinha subido duas vezes ao palco por causa do seu muito elogiado “Roma” e a música “Shallow”, interpretada por Lady Gaga para “A Star Is Born”, tinha sido escolhida como a melhor. Até que, perto da reta final, Glenn Close roubou o Globo de Ouro das mãos de Gaga, Rami Malek das mãos de Bradley Copper e “Bohemian Raphosdy”, o filme sobre os Queen de que poucos críticos gostaram, recebeu o galardão mais importante da noite — o de “Melhor Filme” –, contra todas as espectativas. Num “final chocante”, como lhe chamou o The Guardian, a Hollywood Foreign Press Association (HFPA), que organiza todos os anos os Globos de Ouro, conseguiu atirar por terra todas as previsões e apostas que nos últimas semanas inundaram a Internet. E isto só para nos dizer que, afinal, não percebemos mesmo nada disto.

Mas a primeira surpresa da noite apareceu muito antes antes de Close, Malek ou dos Queen, quando “The Kominsky Method” foi considerada a melhor série de comédia do ano passado. A produção da Netflix teve pouco impacto quando estreou em 2018, e isso tornou-se evidente quando começaram a surgir os primeiros comentários nas redes sociais. “Alguém ouviu falar no ‘The Kominsky Method’ antes desta noite?”, perguntou uma utilizadora no Twitter. “A minha tia falou-me sobre isso”, respondeu uma outra utilizadora, com um emoji a encolher os ombros. O mais curioso é que a série teve direito a um segundo galardão, na categoria de “Melhor Ator”. O veterano Michael Douglas foi um dos primeiros a subir ao palco, montado como é costume no hotel Beverly Hilton, em Beverly Hills, onde a cerimónia dos Globos de Ouro decorre todos os anos. Rachel Brosnahan, em “The Marvelous Mrs. Maisel”, ganhou na categoria de “Melhor Atriz”.

No drama, a grande vencedora foi a série de espionagem do tempo da Guerra Fria “The Americans”, que vai já na sexta temporada. O prémio de “Melhor Atriz” foi para a apresentadora deste ano dos Globos de Ouro, Sandra Oh, pelo seu papel em “Killing Eve”, e de “Melhor Ator” para Richard Madden, por “Bodyguard”. Madden foi igualmente uma surpresa, uma vez que o escocês é sobretudo conhecido pela série da HBO “Guerra dos Tronos”, onde fez de Robb Stark, o filho mais velho do senhor de Winterfell. O galardão deste domingo mostra que Madden é um ator a ter em atenção, como lembrou o The Guardian. Patricia Clarkson e Ben Whishaw levaram para casa os Globos de Ouro de “Melhor Atriz Secundária” e “Melhor Ator Secundário”, respetivamente.

“The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story” venceu na categoria de “Melhor Mini-Série” e de “Melhor Ator” numa mini-série. Lembrando que o estilista Gianni Versage foi assassinado há 20 anos, numa altura em que a homossexualidade não podia ser assumida abertamente, Brad Simpson, produtor-executivo, afirmou que as mesmas “forças de ódio” ainda “estão connosco” e que nos dizem “que temos de ter medo de quem é diferente de nós”. “Enquanto artistas, devemos lutar e representar aqueles que não estão representados, dar espaço àqueles cujas histórias nunca foram contadas. Devemos resistir e praticar o amor e a empatia nos nossos dia-a-dias. O nosso programa é uma peça de época, mas essas forças não são históricas. Estão aqui, e devemos resistir”, disse.

Assim renasceu uma estrela

O Globo de Ouro já parecia estar nas mãos de Lady Gaga. A imprensa, os fãs e os sites de apostas há muito que a apontavam como a grande vencedora na categoria “Melhor Atriz” de drama. Só que, no último segundo (e contra todas as expectativas), Glenn Close roubou o espetáculo. A atriz de 71 anos foi chamada para receber o prémio das mãos de Gary Oldman, que o apresentou, e Gaga, nomeada por “A Star Is Born”, teve de ficar a assistir da plateia. Mas Close não esqueceu as colegas nomeadas: uma vez em cima do palco, dirigiu-se a todas para dizer o quão honrada se sentia por partilhar aquele momento com elas. “Devíamos estar aqui todas”, disse, enquanto limpava as lágrimas do rosto.

Visivelmente emocionada, Close —  galardoada pelo seu papel em “The Wife”, um filme sobre a mulher de um escritor prestes a receber o Prémio Nobel da Literatura –, admitiu que a única pessoa em que conseguia pensar era a sua mãe. “Complementou o meu pai a vida toda. Aos 80 anos, disse-me que achava que não tinha alcançado nada, e isso estava tão errado. As mulheres são cuidadoras; temos filhos, maridos se tivermos sorte. Mas temos de nos preencher, temos de seguir os nossos sonhos. Temos de dizer ‘tenho de fazer isto’ e ‘tenho de poder fazer isto’”, afirmou, perante uma ovação da plateia.

Tal como Muhammad Ali, que um dia sentiu que estava destinado a ser lutador de box, Glenn Close confessou que também sempre soube que o seu destino era ser atriz. Quando era pequena, via os filmes da Disney e dizia para si própria que “podia fazer aquilo”. Hoje, com várias décadas de carreira, não consegue “imaginar uma vida mais maravilhosa”. E foi também por isso que agradeceu este domingo em Beverly Hills, provavelmente no único momento verdadeiramente emotivo da noite deste domingo.

Glenn Close ganhou o Globo de Ouro de “Melhor Atriz” pelo seu papel no filme “The Wife” (Frazer Harrison/Getty Images)

Rami Malek, que ficará para a história como o primeiro ator a vestir o papel de Freddy Mercury, recebeu o galardão de “Melhor Ator” num drama, e foi ao vocalista dos Queen que agradeceu sobretudo. Foi também a Freddy que o realizador de “Bohemian Rhapsody” deixou algumas palavras, depois de subir ao palco para receber o Globo de Ouro de “Melhor Filme” — mais uma vez contra todas as expectativas. “Como é que conseguiu bater ‘A Star Is Born’, que parecia destinado a ganhar, e o mais merecedor ‘Black Panther’ é difícil de compreender”, escreveu o The Guardian, descrevendo a atribuição do prémio à biografia da banda de rock como uma “verdadeira surpresa que é difícil de encontrar nesta temporada” de prémios. Resta saber se o feito será repetido nos Óscares, a 24 de fevereiro.

O filme de super-heróis “Black Panther” estava nomeado para três categorias mas não venceu em nenhuma. “A Star Is Born” teve mais sorte, e levou para casa o prémio de “Melhor Canção”. Esperava-se que Lady Gaga fizesse um grande discurso quando recebesse o Globo de Ouro de “Melhor Atriz” mas, como isso não aconteceu, foram poucas as palavras que deixou ao público. Agradecendo àqueles que ajudaram a criar “Shallow”, Gaga, que confessou ao E! À entrada da cerimónia que sempre quis ser atriz, lembrou que, enquanto mulher, é difícil ser-se levada a sério no mundo da música.

Rami Malek venceu na categoria de “Melhor Ator” pela sua interpretação do lendário vocalista dos Queen, Freddy Mercury (Kevin Winter/Getty Images)

A par de “Bohemian Rhapsody”, o grande vencedor da noite foi “Green Book”. O filme sobre o pianista de jazz afro-americano Don Shirley e o antigo segurança de origem italiana Tony Vallelonga ganhou na categoria de “Melhor Filme” de comédia, fazendo lembrar os presentes que as diferenças existem para ser ultrapassadas. “Green Book” ganhou também o “Melhor Argumento” e o “Melhor Ator Secundário”. Regina King levou para casa o seu primeiro Globo de Ouro, de “Melhor Atriz Secundária”. Olivia Colman foi considerada a “Melhor Atriz” de comédia pelo papel em “The Favourite”. Já sem grandes surpresas foi o vencedor de “Melhor Ator” num filme de comédia: Christian Bale, que interpretou o vice-presidente Dick Cheney em “Vice”, levou o prémio para casa.

“Roma”, que se passa na década de 1970 na Cidade do México, ganhou na categoria de “Melhor Filme Estrangeiro”. O realizador, Alfonso Cuarón, agradeceu aos atores, presentes na plateia. “Estas novas experiências, estas novas caras, não são desconhecidas. Começamos agora a perceber o quanto temos em comum”, afirmou o mexicano, que deixou uma palavra também à sua família e ao seu país de origem. “Este filme não teria sido possível sem as cores que constituem quem eu sou.” Cuarón ainda voltou uma segunda vez ao palco, para receber o galardão de “Melhor Realizador”.

Jeff Bridges está vivo. E nós também, e por isso podemos fazer a diferença

As últimas duas edições dos Globos de Ouro ficaram marcadas por discursos poderosos. Em 2017, Meryl Streep, que recebeu o prémio Cecil B. DeMille, apelou à união e à tolerância, pediu uma imprensa mais forte e dirigiu fortes ataques a Donald Trump recentemente eleito. No ano seguinte, Oprah Winfrey, galardoada com o mesmo prémio carreira, fez um discurso emotivo, que deixou a plateia de lágrimas nos olhos. Lançando um apelo à verdade, à liberdade e, acima de tudo, à esperança por um mundo melhor, a apresentadora de televisão anunciou uma nova era sem “homens brutalmente poderosos”.

Os discursos de Streep e de Winfrey aconteceram em momentos conturbados. A atriz recebeu o prémio Cecil B. DeMille, atribuído anualmente a uma personalidade que tenha contribuído de forma “excecional” para “o mundo do entretenimento”, na ressaca da eleição de Donald Trump como 45º presidente dos Estados Unidos da América, e esperava-se que a atualidade política marcasse de alguma forma a entrega dos Globos de Ouro. Em 2018, com uma cerimónia que pretendia homenagear as vítimas de assédios sexuais em Hollywood, o tema quente do dia, contava-se que o discurso de Oprah Winfrey também seguisse uma direção política. Nenhuma das duas dececionou.

Em 2019, contrariando a tendência dos últimos anos, o Cecil B. DeMille foi atribuído a um ator. Jeff Bridges, conhecido por filmes como “Starman — O Homem das Estrelas”, “A Última Golpada” e sobretudo por “The Big Lebowski”, foi o galardoado durante a noite deste domingo por ter conquistado as “mentes e corações” de espectadores no mundo inteiro, afirmou Meher Tatna, presidente da Hollywood Foreign Press Association (HFPA), em comunicado. E também à diferença dos anos anteriores, Bridges não carregou o seu discurso de política, escolhendo uma abordagem mais positiva e lembrando a todos que está vivo e que isso é suficiente para fazer a diferença.

Jeff Bridges recebeu o prémio carreira Cecil B. DeMille, por várias décadas na indústria cinematográfica (Kevin Winter/Getty Images)

“Isto é uma honra maravilhosa”, começou por dizer, afirmando que eram muitas as pessoas a quem tinha que agradecer, porque “isto é um trabalho coletivo”. Num discurso marcado pelo positivismo e energia, o ator de 69 anos, nomeado sete vezes para os Óscares (e vencedor de um) e cinco para os Globos de Ouro (e vencedor também de um), garantiu que, apesar de muitas vezes não parecer, é possível fazer a diferença. “Às vezes pode parecer que não estamos à altura do desafio, mas estamos. Estamos vivos!”, afirmou, dirigindo-se à plateia de atores e realizadores. “Podemos fazer a diferença. Podemos virar isto para o sentido que queremos seguir — em direção ao amor, a um planeta mais saudável.”

Uma das novidades desta edição dos Globos de Ouro foi a introdução de um novo prémio carreira, o Carol Burnett, dedicado à televisão. A galardoada desta noite de domingo foi precisamente a veterana do pequeno ecrã, que, numa curta entrevista ao E! na passadeira vermelha, antes do início da cerimónia, admitiu ter ficado muito espantada por terem dado o seu nome ao galardão. “Acho que agora vou ter de manter o meu nome”, brincou. Em cima do palco do Beverly Hilton, Burnett falou do “sonho de criança”, que acabou por concretizar-se. “Às vezes sonho em ser criança outra vez e percebo a sorte que tive em estar ali, na altura certa”, afirmou a atriz de 85 anos e várias décadas de carreira à frente das câmaras. “Recebi um dom — uma tela para pintar com o vosso talento, que pode fazer as pessoas rirem ou chorarem, ou talvez as duas coisas.”

Veja aqui todos vencedores da 76ª edição dos Globos de Ouro:

Categorias de cinema

  • Melhor Drama: “Bohemian Raphsody”. Realizado por Bryan Singer;
  • Melhor Comédia ou Musical: “Green Book”. Realizado por Peter Farrelly;
  • Melhor Realizador: Alfonso Cuarón, “Roma”;
  • Melhor Atriz (Drama): Glenn Close, em “The Wife”;
  • Melhor Atriz (Comédia ou Musical): Olivia Colman, em “The Favourite”;
  • Melhor Atriz Secundária: Regina King, em “If Beale Street Could Talk”;
  • Melhor Ator (Drama): Rami Malek, em “Bohemian Rhapsody”;
  • Melhor Ator (Comédia ou Musical): Christian Bale, em “Vice”
  • Melhor Ator Secundário: Mahershala Ali, em “Green Book”;
  • Melhor Argumento: Nick Vallelonga, Brian Currie e Peter Farrelly, para “Green Book”;
  • Melhor Banda Sonora: Justin Hurwitz, para “First Man”;
  • Melhor Canção: “Shallow” (música e letra de Lady Gaga, Mark Ronson, Anthony Rossmando e Andrew Wyatt), de “A Star Is Born”;
  • Melhor Filme de Animação: “Spider-Man: Into the Spider-Verse”;
  • Melhor Filme Estrangeiro: “Roma” (México). Realizado por Alfonso Cuarón.

Categorias de televisão

  • Melhor Série (Drama): “The Americans”;
  • Melhor Série (Comédia ou Musical): “The Kominsky Method”;
  • Melhor Mini-Série ou Filme Produzido para a Televisão: “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”;
  • Melhor Atriz (Drama): Sandra Oh, em “Killing Eve”;
  • Melhor Atriz (Comédia ou Musical): Rachel Brosnahan, em “The Marvelous Mrs. Maisel”;
  • Melhor Atriz (Mini-Série ou Filme Produzido para a Televisão): Patricia Arquette, em “Escape at Dannemora”;
  • Melhor Atriz Secundária: Patricia Clarkson, em “Sharp Objects”;
  • Melhor Ator (Drama): Richard Madden, em “Bodyguard”;
  • Melhor Ator (Comédia ou Musical): Michael Douglas, em “The Kominsky Method”;
  • Melhor Ator (Mini-Série ou Filme Produzido para a Televisão): Darren Criss, em “The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story”;
  • Melhor Ator Secundário: Ben Whishaw, em “A Very English Scandal”.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: rcipriano@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)