Tem 38 anos, é natural de Espinho e em criança foi fascinada por carros e automação, muito motivada por um tio mecânico. Ana Pires chegou mesmo a ponderar enveredar pela metalurgia, mas, quando a irmã lhe falou no curso de Engenharia Geotécnica e Geoambiente do Instituto Politécnico do Porto, identificou-se imediatamente com a área.

Depois de se debruçar sobre as rochas, os minerais ou a evolução da linha de costa, Ana apaixonou-se também pela robótica e pelos sistemas autónomos, frequentando atualmente o mestrado em Engenharia e Eletrotécnica e de Computadores – Ramo de Sistemas Autónomos do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). Além disso, é investigadora no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência.

O curso já feito teve formação teóricas, mas também aulas práticas (D.R.)

Em 2016 viu o professor, geólogo e piloto Rui Moura a ser selecionado para frequentar o curso do projeto POSSUM – Polar Suborbital Science in the Upper Mesosphere, um programa comercial orientado para o estudo da mesosfera e desenvolvido com o apoio da Agência Espacial Norte-Americana (NASA).

Rui tornou-se, assim, o português mais bem preparado para uma viagem espacial, o que suscitou em Ana um enorme interesse. Tanto que a fez concorrer ao mesmo programa internacional, dois anos depois, sendo uma das 12 escolhidas para ingressar nesse mesmo curso, em setembro. Com o apoio das instituições académicas a que está ligada, o ISEP, o Inesc-Tec e o Instituto Politécnico do Porto, conseguiu pagar as propinas, no valor de cinco mil dólares, e partiu à aventura. Na bagagem levava dois objetivos claro: “Desafiar-me a mim própria e abrir as portas da industria espacial à minha instituição”.

Ana Pires espera reunir-se com Rui Moura ainda este mês para “juntarem esforços e massa crítica”. A ideia é ganhar mais protagonismo junto da NASA e colocar Portugal no mapa espacial (D.R.)

A formação que prepara os candidatos para voos espaciais suborbitais durou um mês e meio e incluiu aulas teóricas remotas e aulas práticas na Embry-Riddle Aeronautical University, na Flórida. Por lá, a cientista-astronauta teve, por exemplo, a oportunidade de fazer uma simulação de uma missão vestida a preceito.

“Um fato espacial demora meia hora a vestir, oferece pouca mobilidade e é necessário controlar sempre a sua pressão”, começa por contar.

Testaram-se limites e avaliaram-se sintomas da falta de oxigénio. “Houve pessoas que vomitaram, outras desmaiaram, eu fiquei com a face muito vermelha e quente, mas nunca perdi a consciência. Foi duro fisicamente”, confessa. Esta não foi a única experiencia que ali viveu. Também participou em voos acrobáticos para sentir as forças G, ou seja, “aquilo que os astronautas sentem quando estão a partir para o espaço”, e “em sessões em câmaras hiperbáricas para observar o impacto da hipóxia [escassez de oxigénio].”

Movida pela constante curiosidade e o fascínio pelo desconhecido, a investigadora portuguesa sabe que ainda há muito para fazer, explorar e descobrir. “Este é apenas o primeiro passo para continuar a formação especializada nesta área, mas não pretendo ficar por aqui. Quero continuar a trabalhar, com a cabeça na lua e os pés bem assentes na terra.” Reúne mensalmente com a equipa dos Estados Unidos para conseguir perceber de que forma é que pode contribuir com os seus conhecimentos neste programa
de investigação e qual o melhor caminho a seguir.

Em maio de 2019, irá participar num novo curso com o apoio da agência espacial sobre geologia lunar, no Arizona, para o qual precisa de apoios que financiem uma propina de 2.800 dólares (quase 2.500 euros). Ainda este mês espera reunir-se com Rui Moura para “juntarem esforços e massa crítica”, procurando ganhar mais protagonismo junto da NASA e colocar Portugal no mapa espacial.