Rafael van der Vaart chegou ao Real Madrid em 2008, com 25 anos. Os dois anos que passaria no Santiago Bernabéu seriam, ainda que naquela altura poucos soubessem, de autêntica transição, mudança e preparação de um futuro que se queria glorioso. Um futuro que se queria galáctico, tal como o passado recente havia sido. 2008/09 foi a última temporada sem Florentino Pérez: depois de cumprir um primeiro mandato entre 2000 e 2006, anunciou uma nova candidatura em maio de 2009 e foi eleito, enquanto candidato único, em junho do mesmo ano. Era o início de uma era que agora, dez anos depois, parece estar a perder o fôlego, o norte e a orientação.

No mercado de transferências do verão de 2009, o Real Madrid contratou Cristiano Ronaldo, Kaká, Álvaro Arbeloa, Xabi Alonso, Álvaro Negredo, Raúl Albiol, Karim Benzema e Esteban Granero. Manuel Pellegrini assumiu o comando técnico da equipa e não levou os merengues além de um segundo lugar no Campeonato, os oitavos de final da Liga dos Campeões e os 16 avos de final da Taça do Rei. José Mourinho chegou na época seguinte e só se cruzou com Van der Vaart durante a pré-época: mas foi o suficiente para desempenhar um papel preponderante na carreira e naquilo que foi o futuro do jogador holandês. Esta quarta-feira, em entrevista ao desportivo espanhol Marca, o antigo médio do Real Madrid e da seleção holandesa recordou os tempos que passou no Santiago Bernabéu e falou sobre Mourinho, o momento atual dos merengues e ainda o favoritismo da Juventus na Liga dos Campeões.

Holandês só se cruzou com Mourinho no Real Madrid na preparação da temporada 2010/11, antes de sair para o Tottenham no fecho do mercado

Na preparação da temporada 2010/11, Van der Vaart era um dos dois holandeses resistentes no plantel merengue. Quando chegou, dois anos antes, eram seis: o próprio médio, Huntelaar, Robben, Drenthe, Sneijder e Van Nistelrooy. Naquele verão, restavam Van der Vaart e Drenthe. As chegadas de Kaká e Granero no ano anterior e de Özil durante aquele verão encurtaram o já reduzido espaço que o médio holandês tinha na equipa e tornaram quase ínfimas as possibilidades de Van der Vaart integrar as opções principais e imediatas de José Mourinho. Mas o médio queria ficar. E só não o fez porque foi aconselhado.

“Disse-me: ‘Rafa, tens de ir embora porque temos o Kaká e os outros, o melhor é que saias para poderes jogar mais noutra equipa’. E foi por isso que fui para o Tottenham”, conta o antigo jogador, agora com 35 anos, que depois de três temporadas em Londres ainda passou pelo Hamburgo, pelo Betis, pelo Midtjylland e pelo Esbjerg fB, ambos da Dinamarca, antes de terminar a carreira no passado mês de novembro. O médio explica ainda que vê com bons olhos um eventual regresso de Mourinho ao Real Madrid, já que o treinador português “é muito direto”: “Na Holanda gostamos de gente direta e ele é assim. É capaz de te dizer ‘tu não jogas’. Acho que era bom se voltasse a Madrid, porque não? É o Special One. É um vencedor. Gosto dele não só como pessoa mas também como treinador, ganhou muitíssimas coisas e ainda o pode fazer”.

Em Madrid, Van der Vaart jogou uma temporada com Cristiano Ronaldo

Sobre o atual momento do Real Madrid – os merengues perderam três dos últimos 13 jogos e estão no quarto lugar do Campeonato a dez pontos do líder Barcelona –, Van der Vaart garante que será “muito raro” ver a equipa espanhola a jogar tão mal em casa como jogou no empate com a Real Sociedad, no passado dia 6. “Não acho que seja uma questão de atitude. Perderam o Cristiano e o Zidane, está a custar-lhes voltar a ganhar pulso mas de certeza que vão acabar bem e vão conquistar outro título além do Mundial de Clubes”, defende Van der Vaart. O holandês recordou ainda aquela que considera ter sido “a pior semana” da sua vida – a semana de outubro de 2009 em que o Real Madrid foi eliminado nos 16 avos de final da Taça do Rei pelo Alcorcón, na altura a jogar no terceiro escalão do futebol espanhol, e que ficou conhecida como el alcorconazo. “A pressão que o Real Madrid tem é uma loucura. Quando ganha um jogo é o melhor e quando perde é o pior. Eu passei pelo alcorconazo e essa foi a pior semana da minha vida. Tínhamos muitíssima pressão, mas é normal que assim seja porque o Real é um clube enorme e há que saber conviver com isso”, acrescentou.

Santiago Solari, atual treinador do Real Madrid, tem sido muito criticado por não apostar em Isco, um dos trunfos de Zidane na época anterior. O médio espanhol não tem sido titular e só tem saído do banco em fases muito tardias dos encontros, normalmente com o resultado já praticamente decidido, e protagonizou dois momentos polémicos na derrota caseira contra os russos do CSKA, em jogo da Liga dos Campeões, quando discutiu com os adeptos e recusou usar a braçadeira de capitão (ainda que o verdadeiro motivo tenha sido explicado no dia seguinte). Para Rafael van der Vaart, a titularidade de Isco devia ser indiscutível porque se trata do “melhor jogador do mundo”. “Tem sempre problemas com os treinadores. Zidane nunca confiou nele a 100%. Eu, quando o Real joga, vejo sempre se o Isco é titular. Se não é, vou para casa”, garantiu o holandês, que descreve a qualidade do espanhol como “uma loucura”.

O jornal Marca lembrou-se de Rafael van der Vaart porque o Real Madrid encontra o Ajax nos oitavos de final da Liga dos Campeões: o holandês representou os dois clubes e aposta num empate a duas bolas no jogo na Holanda. Sobre a Liga dos Campeões – e sobre o motivo que explica porque é que os merengues continuam a ter bons resultados na Europa enquanto desiludem internamente –, o médio é muito sucinto. “É por isso que o Real Madrid é o melhor clube do mundo, porque tem 13 Champions. Ninguém o conseguiu, por isso é especial. Quando jogas no Real percebes que o Campeonato é importante, que a Taça também, mas que a Champions é outra história”, revela o holandês, que a este raciocínio acrescenta a recomendação de “nunca descartar” os merengues, “muito menos na Europa”. Ainda assim, para Van der Vaart, a Juventus será sempre a favorita à conquista da presente edição da Liga dos Campeões por um motivo simples: “A equipa que tenha o Cristiano será sempre a favorita. Ele torna melhores os colegas. Dás-lhe uma bola e sabes que pode marcar, é uma garantia de êxito”.