Ambiente

Glifosato na urina. “Isto não é um estudo científico”, diz voluntária do estudo

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A Plataforma Transgénicos Fora revelou os dados da análise à urina de vários voluntários. Ao Observador, Margarida Silva esclareceu que se trata de um "levantamento exploratório".

O glifosato é o herbicida mais usado na agricultura e em contexto urbano

STEFAN RAMPFEL/EPA

A Plataforma Transgénicos Fora apelou esta segunda-feira ao Governo para que proíba a venda de herbicidas à base de glifosato, que apoie os agricultores e que se torne obrigatória uma análise à água para consumo humano. Como base para este pedido, apresentaram os resultados das análises à urina de 62 voluntários. Mas Margarida Silva, voluntária no projeto esclarece: “Isto não é, nem nunca poderia ser, um estudo científico, é um levantamento exploratório”.

O apelo da Plataforma Transgénicos Fora (PTF), uma associação ambientalista não científica, surge na sequência dos resultados de um estudo lançado em 2018 para testar a presença de glifosato em voluntários portugueses. A plataforma alega uma exposição recorrente ao herbicida e aponta para uma contaminação generalizada por glifosato em Portugal. A iniciativa, no entanto, não foi validada cientificamente — não foi feita por uma equipa de investigação independente, nem foi publicada numa revista científica, ou seja, não foi sujeita ao escrutínio de outros cientistas.

A PTF apelou à inscrição de voluntários e conseguiu recolher urina de 62 pessoas em julho e 44 em outubro, posteriormente enviada para um laboratório de análises fora do país. O número de pessoas é demasiado pequeno para que se possa tirar qualquer conclusão com os dados apresentados, admite a própria plataforma: “O trabalho realizado pela Plataforma Transgénicos Fora não permite retirar conclusões finais”. Mais, as duas amostras foram enviadas para laboratórios diferentes, com diferentes métodos de análise, confirma Margarida Silva. Só isto, dificulta a comparação. “Os resultados não são comparáveis”, diz a bióloga. “O facto de termos usado datas diferentes já os tornava não comparáveis.”

A professora da Universidade Católica do Porto, que está de saída da organização, deixou claro ao Observador que este estudo não é científico, nem poderia ser. Para começar as amostras foram recolhidas por cada uma das pessoas, individualmente, sem haver um controlo de potenciais contaminações da amostra. Depois, as amostras foram enviadas por correio para a plataforma e da plataforma para os laboratórios da mesma forma. Isto não dá garantias que as amostras tenham chegado em boas condições ao laboratório.

Por fim, as pessoas voluntariaram-se, não foram escolhidas, o que a própria PTF admite que possa provocar um enviesamento dos resultados: “Cerca de 80% dos inscritos identificaram-se como consumidores de alimentos biológicos com alguma regularidade”. Ora, a proporção de portugueses que consomem alimentos biológicos com regularidade não é tão alta como a da amostra. Mais, os voluntários tiveram de pagar o custo da primeira análise, no valor de 78,20 euros, o que atua, só por si, como um fator de exclusão de outros potenciais voluntários.

Os voluntários não representam o país — não temos pretensões estatísticas —, representam a contaminação daquelas pessoas”, diz Margarida Silva, voluntária na Plataforma Transgénicos Fora.

Os resultados são apresentados sobre a forma de concentração na urina — e até são comparados com os resultados de uma iniciativa semelhante em 2016 —, mas nada dizem sobre o verdadeiro significado desses valores, ou seja, sobre os potenciais impactos que tem para a saúde humana ou sobre o próprio processamento do tóxico no organismo. Mais, os níveis na urina são comparados com os limites admitidos nas águas de consumo humano, o que não é uma comparação válida.

“Do ponto de vista toxicológico, esta comparação não tem qualquer sentido”, disse ao Observador Vasco Branco, toxicologista no Instituto de Investigação do Medicamento. Vasco Branco não trabalha com glifosato, trabalha com outros contaminantes, mas a regra é sempre a mesma: “Só dá para comparar os valores na urina dos voluntários com valores limite de referência que existam para a urina”. No máximo, admite o investigador, pode fazer-se uma extrapolação para a dose diária aceitável. “Isso é legítimo.”

O Instituto Federal Alemão para a Avaliação de Risco (BfR), já em 2016 tinha desvalorizado este tipo de estudos — com amostras de voluntários, que também aconteceram na Alemanha —, por não seguirem um método de recolha de urina rigoroso, por poder haver contaminação das amostras e porque as amostras de urina se podem deteriorar durante o transporte que é feito por correio normal e sem recurso a refrigeração. Margarida Silva não confia nos relatórios desta organização, nem tão pouco das agências europeias, diz que “têm conflitos de interesses escandalosos”.

“Se a quantidade de glifosato ingerida diariamente fosse calculada com base nos valores detetados na urina, tornava-se claro que pessoa com um nível mais alto de glifosato [na situação a que se refere o BfR], de aproximadamente 4 ng/ml de urina, teria ingerido menos de um centésimo da dose diária aceitável: 0,5 mg por quilograma de peso.” O comunicado da PTF refere que: “O valor médio da contaminação das amostras foi de 0,35 ng/ml em julho (valor mais alto: 1,39 ng/ml) e de 0,31 ng/ml em outubro (valor mais alto: 1,20 ng/ml)”. O valor máximo registado na urina em Portugal é, assim, três vezes menor do que aquele que foi referido pelo BfR. Margarida Silva desvaloriza os limites máximos admissíveis: “Não quer dizer que sejam valores seguros”.

Estudos europeus e norte-americanos analisaram a concentração de urina em vários grupos de pessoas que potencialmente estiveram expostas ao herbicida. Um artigo de revisão destes estudos verificou que os níveis na urina estão muito abaixo daquilo que é a dose diária aceitável e concluiu que não há motivo de preocupação em relação à saúde tendo em conta os níveis de exposição avaliados.

Um dos pedidos da PTF, que o glifosato faça parte das análises à água de consumo, já consta nas recomendações da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária para o triénio 2019-2021: “Pese embora o herbicida glifosato não preencha a totalidade de critérios estabelecidos para a seleção de pesticidas a pesquisar em águas destinadas a consumo humano, nomeadamente no que diz respeito ao seu destino e comportamento no solo e ao seu potencial de mobilidade, recomenda-se a sua pesquisa, pelo menos uma vez por ano, em águas destinadas a consumo humano, provenientes de captações de água superficial”, lê-se no documento.

A Plataforma apela também a que o Governo lance um estudo abrangente sobre a exposição dos portugueses ao glifosato, proíba a venda deste herbicida para usos não profissionais e uso no controlo de ervas daninhas em contexto urbano. Na nota, a entidade pede ainda ao Governo apoio aos agricultores na transição para uma agricultura pós-glifosato nos próximos anos.

A motivação da PTF justifica-se com o facto de o glifosato ter sido considerado como “provavelmente carcinogénico para humanos”, em 2015, pela Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro (IARC) da Organização Mundial de Saúde (OMS). As agências europeias e outras agências internacionais, no entanto, têm apresentado conclusões diferentes. A Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar (EFSA) concluiu que não é provável que o glifosato possa causar cancro em humanos e a Agência Europeia dos Produtos Químicos (Echa, na sigla em inglês) concluiu que embora os “estudos epidemiológicos revelassem, em parte, resultados contraditórios”, quando considerados todos juntos “não forneciam evidência convincente que a exposição ao glifosato em humanos pudesse estar relacionada com qualquer tipo de cancro”.

Atualizado com os valores detetados na urina e respetiva interpretação, com o comentário de Vasco Branco (às 16h30) e com a explicação de Margarida Silva (17h40).

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