Clarence Seedorf não tem conseguido propriamente a melhor carreira como treinador, entre AC Milan, Shenzhen, Deportivo e agora seleção dos Camarões, mas como antigo jogador sabe como poucos o que é preciso para uma equipa chegar ao sucesso. Um sucesso como ele teve no Ajax, onde foi campeão e ganhou a Champions; como teve no Real Madrid, onde foi campeão e ganhou a Champions; como teve no AC Milan, onde foi campeão e ganhou a Champions – neste caso, duas vezes. Em entrevista ao El Mundo esta semana, o antigo médio que aos 37 anos ainda jogava nos brasileiros do Botafogo foi comentando a atual crise dos tricampeões europeus entre várias razões mas com uma convicção: “Com o Cristiano não seria diferente”.

Olhar para o resultado da primeira mão dos oitavos da Liga dos Campeões entre Real e Ajax e comparar com o comportamento dos adeptos era como que entrar uma realidade paralela sem nada a ver com o que se passara em Amesterdão. Quem estava em desvantagem, neste caso os holandeses, andava em grande: cerveja em excesso à parte, a festa que a Marca mostrou nas Puertas del Sol e um fantástico pontapé de um adepto que conseguiu acertar numa bandeira dos merengues que estava à janela na Plaza Mayor (passando por cima do facto de não ser propriamente a coisa mais correta do mundo andar a chutar bolas às janelas em praças públicas…) revelado pelo Mundo Deportivo personificavam o orgulho no trajeto da formação lanceira – e com uma dose secreta de esperança num resultado “impossível” que virasse a eliminatória. Do outro lado, os espanhóis, que partiam na frente após o 2-1 fora, tinham tudo menos um ambiente Champions, conforme destacou o As.

Falta de golo, permeabilidade defensiva, meio-campo sem gás, falta de soluções no banco, problemas com pesos pesados do balneário ou jovens com demasiadas responsabilidades foram alguns dos problemas identificados pelo El Confidencial para tentar perceber as três derrotas consecutivas no Santiago Bernabéu (uma com o Girona, duas com o Barcelona). Mas havia mais, como ficou claro nas palavras de Modric quando enviou um recado interno dizendo que, “com a saída de Ronaldo, alguns nomes não se tinham chegado à frente”. Em termos mais globais, e como destacava hoje Santiago Segurola no El País, “há razões para falar em desorientação e fracasso das decisões do governo do Real Madrid. O seu triste efeito reflete-se no dia a dia de uma equipa que voltou a sofrer um acidente da Liga”. Restava a Europa, onde era o campeão há mais de 1.000 dias.

Nacho, substituto de Sergio Ramos (castigado) no onze, foi expulso nos últimos minutos da goleada sofrida pelo Real (David Ramos/Getty Images)

O Real Madrid até teve a primeira oportunidade do jogo, quando Varane aproveitou uma insistência após bola parada para vestir a capa de Sérgio Ramos (castigado) e chegar mais alto do que a defesa holandesa de cabeça para desviar a bola para o poste da baliza de Onana (4′). Tudo podia ser diferente se esse lance tivesse um melhor destino mas, afinal, esses centímetros entre o bater no ferro e sair ou bater no ferro e entrar eram os mesmos que separavam os merengues de um autêntico precipício sem fundo, que levaria os espanhóis a uma queda a pique que começou pouco depois: Kroos (que em relação ao jogador tricampeão europeu de clubes tem apenas o nome) perdeu uma bola na zona do meio-campo, Tadic levou a jogada pela direita e cruzou atrasado para o remate certeiro de Ziyech, a inaugurar o marcador logo aos 7′ e a dar outra esperança ao Ajax.

Os minutos passavam, Kroos continuava a passar ao lado do jogo e a não dar a melhor sequência às jogadas, os avançados dos lanceiros continuavam a dar show de bola, como aconteceu numa jogada onde David Neres teve uma finta de calcanhar sobre Carvajal que deixou os próprios adeptos visitados boquiabertos (pela qualidade do brasileiro, pela forma como o internacional espanhol foi ultrapassado ou por ambas, poderá ter havido um pouco de tudo). Aquilo que se percebia era que, caso o primeiro passe para a transição rápida saísse, o Ajax conseguia levar sempre perigo à baliza de Courtois de bola corrida; em contrapartida, só de bola parada ou em insistências a partir daí é que o o Real Madrid conseguia ameaçar o jovem Onana.

Estava a acontecer o improvável, pouco depois aconteceu o “impossível”: Varane, a grande referência dos espanhóis nas bolas paradas, teve um remate forte na área de pé esquerdo à figura de Onana e, menos de um minuto depois, Tadic teve uma jogada de génio com fintas de artista a deixar adversários pelo relvado antes de ver a diagonal de David Neres, que fintou Courtois e atirou para o 2-0 que dava a volta por completo à eliminatória (18′). E o cenário só não ficou ainda pior para o Real porque o brasileiro, após nova assistência de Tadic a explorar a profundidade, calculou mal as dimensões do chapéu e falhou o alvo, num lance de transição onde o único jogador que ainda foi tentar perturbar a ação do número 7 foi… Modric.

Onana já tinha feito uma defesa complicada a remate de Benzema (que esta noite foi capitão) mas a lei de Murphy que assolava o conjunto de Solari chegaria também a outros campos e, em apenas seis minutos, o argentino teve de fazer duas substituições por lesão: primeiro foi Lucas Vázquez, a sair inconsolável com a camisola na cara (29′) para a entrada de Gareth Bale; depois foi Vinicius, no seguimento de um lance onde rematou às malhas laterais, a dar o lugar em lágrimas a Asensio (35′). Nesse mesmo minuto, e numa jogada que começou com uma distração do galês na área, Courtois fez uma grande defesa a remate frontal de Ziyech que poderia ter dado o 3-0; aos 42′, Bale acertaria ainda no poste, ficando perto do empate na eliminatória.

De Ligt, o melhor central Sub-21 da atualidade, e Danny Blind conseguiam ir controlando no eixo defensivo a maioria das ações contrária; Schöne e De Jong (reforço do Barcelona para a próxima época que confidenciou ao La Vanguardia que os catalães lhe tinham pedido para eliminar o rival espanhol) dominavam por completo o meio-campo; Ziyech e Neres eram duam flechas apontadas à baliza de Courtois; Van de Beek estava a ser monstruoso na capacidade de perceber quando era médio, quando era avançado e quando tinha de jogar entrelinhas; Tadic, esse, fazia do Bernabéu uma espécie de pátio onde andava a fintar todos os adversários que lhe apareciam pela frente de um lado para o outro. Estava mau para o Real. Mas ficaria ainda pior, frente a uma equipa de wonder boys que promete dar que falar na Liga dos Campeões… e no próximo mercado.

Courtois ainda evitou o golo de Van de Beek após nova assistência de Tadic aos 50′, Benzema ficou também perto de reduzir na sequência de um trabalho individual descaído na esquerda, mas os primeiros contornos da completa humilhação começavam a ser traçados: na sequência de mais uma saída rápida para o ataque, Tadic teve uma verdadeira bomba ao ângulo da baliza dos espanhóis, o VAR ainda esteve quase três minutos a avaliar o início do lance e a possibilidade da bola ter saído num corte do lateral Mazraoui (que parecia mesmo ter saído de campo) mas validou o 3-0 a pouco mais de meia hora do fim.

Asensio, no seguimento de uma boa jogada de Reguilón pela esquerda, ainda teve um remate rasteiro puxado ao poste que deu uma ligeira esperança aos adeptos do Real Madrid aos 70′ mas, apenas dois minutos depois, Schöne marcou num fabuloso livre direto descaído no lado esquerdo do ataque que surpreendeu tudo e todos para o 4-1 final, naquela que foi a quarta derrota seguida em cada com números que levaram a crise que se vive nesta era pós-Ronaldo ao extremo.